Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
REUTERS/Thomas Peter
REUTERS/Thomas Peter

The Economist: A verdade por trás da pandemia

Biden quer que a inteligência americana vá mais fundo do que a OMS e descubra se o vírus saiu de laboratório na China

The Economist, The Economist

30 de maio de 2021 | 05h00

Em março, o presidente Joe Biden questionou seus agentes da inteligência sobre como a pandemia de covid-19 havia começado. Contradizendo as alegações de Donald Trump, segundo as quais os serviços de inteligência forneceram a ele fortes evidências sobre o assunto, eles responderam que nada sabiam a respeito. Assim, no dia 26, Biden os questionou de novo, desta vez publicamente, advertindo-os a realizarem uma investigação e enviarem um relatório a respeito dentro de 90 dias.

Essa é uma advertência ao governo recluso da China. Quando especialistas reunidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) viajaram em fevereiro para Wuhan, cidade onde a covid-19 foi identificada pela primeira vez, seus anfitriões recusaram-se a fornecer dados cruciais a respeito. Um membro do alto escalão do governo Biden disse recentemente que os esforços chineses “prejudicando investigações sérias” sobre o início da pandemia eram particularmente preocupantes e deixaram “mais perguntas do que respostas”.

No cerne desta desconfiança, está a possibilidade de o vírus Sars-Cov-2 ter surgido acidentalmente em pesquisas sobre coronavírus de animais realizadas pelo Instituto de Virologia de Wuhan, ou um outro laboratório vizinho. No início de 2020, essa ideia, às vezes associada à de que o vírus seria desenvolvido como arma biológica, foi publicamente rejeitada por cientistas. 

Em fevereiro de 2020, vários cientistas usaram a revista médica Lancet para “condenar vigorosamente teorias de conspiração sugerindo que a covid-19 não tinha uma origem natural”. Grande parte da mídia foi na mesma linha. Até o momento, a narrativa mais plausível, a mídia reportou, era de um “zoonotic spillover” (um transbordamento zoonótico), ou seja, um vírus saltando sem ajuda de animais para humanos, como foi o caso da Sars, doença causada por um coronavírus diferente, em 2002. Teorias sobre vazamentos de laboratórios foram rejeitadas como conspiratórias.

Mas, nos últimos meses, discussões sobre possíveis vazamentos de laboratório ganharam força entre políticos e na mídia tradicional, como também em postagens em blogs de jornalistas científicos. Isso em parte por causa da saída de Trump e de Mike Pompeo, seu secretário de Estado, que promoveram a teoria com entusiasmo. Considerar a possibilidade sem favorecê-los ficou mais fácil.

Mas o ressurgimento da questão não é um fenômeno puramente político. Em 13 de maio, a revista Science publicou carta de um grupo de cientistas influentes que antes não haviam opinado a respeito, na qual afirmam que “teorias de vazamentos acidentais de um laboratório e transbordamento zoonótico continuam viáveis”. Eles assumiram a mesma posição de Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, que rejeitou descartar a possibilidade de uma origem do vírus em laboratório depois de a missão da organização, em janeiro e fevereiro, ser obstruída e desde então pediu mais investigações.

Isso não é bom para a China. Em 21 de maio, no Global Health Summit organizado pela União Europeia e o G-20, Xi Jinping insistiu para os líderes mundiais “rejeitarem firmemente tentativas de politização da pandemia”. No dia 25, o representante da China na Assembleia Mundial da Saúde afirmou que o país havia pensado numa investigação completa sobre as origens do vírus e o foco deveria mudar para outros países, sugerindo que a China não admitiria nova investigação.

No topo da agenda da assembleia estavam respostas à pandemia atual e à prevenção de futuras. Felicity Harvey, que preside uma comissão de vigilância do Programa de Emergências de Saúde da organização, afirmou que as ameaças de novos vírus precisam ser tratadas no futuro com mais transparência, um melhor compartilhamento de dados e mais capacidade de enviar prontamente alertas para o mundo. No início de maio, um painel de especialistas da OMS recomendou que se determine que os países sejam obrigados a reportar novos surtos e o poder da OMS de buscar e compartilhar informações relevantes com o mundo seja fortalecido.

Será uma surpresa se a China (e, na verdade, alguns outros países) acatar todas essas ideias. Seus líderes lutam consistentemente para negar aos órgãos internacionais o direito de meterem o nariz nos assuntos de países soberanos, e nem sempre acolhem bem as atenções da OMS. Em 2018, rejeitou pedidos das autoridades americanas, com base nas diretrizes da OMS, de amostras de laboratório da cepa h7n9 da gripe aviária.

E, recentemente, a China indicou que reformará o próprio sistema de saúde pública. Em 13 de maio, as autoridades anunciaram uma reorganização do sistema sob uma nova entidade, a Administração Nacional de Controle e Prevenção de Doenças. Uma das prioridades é aperfeiçoar o controle hierárquico de modo que as autoridades de escalão mais inferior terão mais incentivo para reportar novas ameaças à saúde pública a seus superiores da cadeia de comando.

As autoridades chinesas procuraram solucionar uma questão similar depois da epidemia da Sars, nos anos 2000, em parte para resolver problemas decorrentes do fato de as autoridades provinciais nacionais terem se mantido acima das da saúde e acobertaram a propagação daquele vírus no sul da China. O monitoramento de novas ameaças se tornou sistemático, e a China intensificou sua relação com a OMS e até passou a cooperar com o CDC dos EUA, que serviu até de modelo para o CDC chinês, cujo departamento em Wuhan agora vem sendo mencionado no contexto de uma possível origem do vírus em laboratório.

Não existe nenhuma prova de que um vazamento realmente ocorreu: apenas evidências de que a possibilidade é real. A ordem de Biden indica que qualquer coisa que o mundo secreto consiga no momento acrescentar à questão é bobagem. Seu comunicado diz que, atualmente, dois “elementos” dentro da comunidade de inteligência são favoráveis à explicação zoonótica, um prefere a origem em laboratório e ninguém tem muita confiança em qualquer dessas avaliações. 

Sem ajuda da China, um exame mais profundo não mudará necessariamente a situação. Mas ainda assim vale a pena, mesmo com o risco de uma resposta agressiva dos chineses que fará com que uma maior transparência e mais cooperação mencionadas na Assembleia Mundial da Saúde não floresçam tão cedo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.