The Economist: Barulho de vidro, fumaça e escadas com sangue em Beirute

The Economist: Barulho de vidro, fumaça e escadas com sangue em Beirute

Líbano estava uma confusão antes mesmo da explosão, culpa de um governo inepto e irascível

The Economist, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2020 | 05h00

O relógio tinha acabado de marcar 18 horas quando o mundo tremeu. Da Praça Sassine, a 1,6 km da explosão, em Beirute, no Líbanoparecia um carro-bomba ou uma explosão de gás – um desastre, mas localizado. A escala da devastação só ficou clara na descida em direção ao Mediterrâneo.

As ruas estavam cobertas de cacos de vidro que caíam dos edifícios atingidos. Em um cruzamento movimentado, três mulheres estavam sentadas no meio da rua, tentando estancar ferimentos na cabeça com pedaços de pano. Beirute era um ataque aos sentidos: o barulho de vidro debaixo dos pneus, o grito das sirenes, o cheiro acre de fumaça.

A explosão no porto de Beirute em 4 de agosto foi gigantesca. Moradores de Chipre a sentiram, a 240 quilômetros de distância. Os monitores sismológicos da Jordânia a registraram como algo equivalente a um pequeno terremoto.

A onda de choque deixou grande parte do centro da cidade de Beirute em ruínas. Na noite seguinte, já se contavam 135 mortos, um número que certamente aumentará quando os socorristas começarem a revirar os escombros. Outras 5 mil pessoas ficaram feridas. O custo financeiro será de bilhões, em um país que mal pode pagar suas contas.

A causa parece ser negligência, um grau chocante de negligência, mesmo para os vexaminosos padrões do governo do Líbano. Em 2013, o país apreendeu uma carga de nitrato de amônio, usado em fertilizantes e explosivos para mineração e pedreiras, do MV Rhosus, um navio de propriedade russa que fazia a rota marítima entre a Geórgia e Moçambique.

Os produtos químicos, cada uma de suas 2.750 toneladas, foram armazenados em um depósito no porto. (Os atentados de Oklahoma, em 1995, utilizaram apenas duas toneladas do material para matar 168 pessoas). Algumas autoridades alertaram para o perigo de manter uma bomba gigante no meio de um centro populacional. Seus avisos foram ignorados.

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Ainda não está claro o que incendiou o estoque. A mídia local sugere que havia trabalhadores soldando peças nas proximidades. Qualquer que tenha sido a causa, ela emitiu uma violenta bola de fogo e uma onda de choque que atingiu a metade de Beirute. Uma nuvem de fumaça avermelhada pairou sobre a cidade durante a noite. Os cientistas entrevistados na televisão aconselharam os moradores a fechar as janelas e usar máscaras por causa dos gases tóxicos do ácido nítrico.

As alas de terapia intensiva do país já estavam próximas da capacidade total devido a um recente aumento nos casos de covid-19. Nenhuma estava preparada para o afluxo de milhares de casos urgentes em uma única noite. No hospital Saint George, a um quilômetro do porto, os danos foram tão graves que os médicos tiveram de interromper as cirurgias e evacuar o prédio.

Quatro enfermeiras foram mortas pela explosão e quinze pacientes com respiradores morreram porque suas máquinas se desligaram. Outros pacientes, vestidos com os aventais do hospital, alguns com vias intravenosas ainda presas aos braços, sentaram-se, sangrando e atordoados, em um estacionamento do outro lado da rua. “É apocalíptico. Não tem outra palavra para isso”, disse um neurocirurgião.

Em um prédio próximo, as escadas estavam escorregadias com o sangue deixado pelos moradores que fugiam de seus apartamentos em ruínas. Lá dentro, portas tinham sido arrancadas das dobradiças, móveis voaram. Estima-se que 300 mil pessoas, quase 5% da população do país, ficaram desabrigadas por causa da explosão.

Algumas encontraram abrigo junto à família ou amigos. Outras não tinham para onde ir. Varreram o vidro quebrado de sua mobília e se deitaram para dormir em apartamentos sem janelas, portas nem eletricidade. A cidade não parecia melhor na manhã seguinte. Trabalhadores com vassouras varriam o vidro que transbordava das caçambas de lixo e se amontoava no meio-fio. Caminhando, os pedestres erguiam os olhos nervosamente, com medo de que mais destroços lhes caíssem nas cabeças.

Reparar os danos já seria uma tarefa difícil nos bons tempos. Mas o Líbano não vive seus melhores dias. A economia não faz mais que colapsar desde outubro. Sua moeda, a libra, há décadas estava atrelada a um valor de 1.500 por dólar. Mas o país enfrenta uma escassez de dólares para manter a posição e financiar seu avassalador déficit comercial.

E já não consegue sustentar anos de um esquema de Ponzi que viu o banco central (Banque du Liban, ou BDL) tomar de empréstimos em dólar de bancos comerciais em troca de pagamentos de juros acima do mercado. A libra agora é negociada a mais de 8.000 por dólar no mercado negro, uma desvalorização de 80% em relação à taxa oficial. O governo deixou de pagar suas dívidas em março, pela primeira vez na história.

Para a maioria da população, a vida libanesa se tornou uma sucessão aparentemente interminável de crises. Os preços ao consumidor estão subindo 90% ao ano, 246% no caso dos alimentos. Um frasco de 500 gramas de Nescafé pode custar 10% do salário mínimo mensal; um quilo de carne bovina, 15%.

O exército parou de servir carne aos soldados para cortar custos. Em 30 de junho, o governo aumentou o preço do pão em 30%, o primeiro aumento em uma década. Metade do país agora vive abaixo da linha da pobreza, e ¾ podem precisar de ajuda até o final do ano.

A escassez de combustível provocou blecautes intermináveis no verão: em julho, os cortes de energia em Beirute, que geralmente duravam três horas por dia, estenderam-se para até vinte horas.

Os geradores de reserva ficaram sem diesel ou quebraram devido ao uso excessivo, deixando muitos libaneses em apartamentos quentes e escuros. Ogero, o monopólio estatal das telecomunicações, alertou sobre interrupções na internet se não conseguisse abastecer sua infraestrutura.

O principal hospital público que tratava pacientes de covid-19 teve de fechar as enfermarias e desligar os aparelhos de ar condicionado por causa dos blecautes. Os pequenos crimes já estavam em ascensão, mesmo antes da explosão que deixou milhares de apartamentos abertos a invasores. Um homem assaltou uma farmácia à mão armada – para roubar fraldas. Outro assaltou um pedestre e, depois, voltou para pedir desculpas, dizendo que precisava do dinheiro para alimentar a família.

Em janeiro foi instalado um governo supostamente tecnocrático, para enfrentar a crise econômica. Não realizou quase nada. Depois do calote da dívida, solicitou ao FMI um acordo financeiro de até US $ 10 bilhões. Vários meses e vinte reuniões depois, não há progresso em direção a um acordo – porque o Líbano ainda está negociando consigo mesmo.

O gabinete e o parlamento estão brigando por causa do tamanho das perdas do setor financeiro. Em um plano econômico divulgado em abril, o governo estimou uma perda líquida de 154 trilhões de libras entre o BDL e os bancos comerciais. (O plano, otimista, prevê uma taxa de câmbio de 3.500 libras por dólar). Este era o ponto de partida para as negociações com o FMI.

Mas os banqueiros do país ficaram furiosos com o plano do governo, que acabaria com os balanços patrimoniais ao varrer os acionistas e os maiores depositantes. Eles divulgaram sua própria contabilidade, a qual estima perdas abaixo da metade do valor oficial, em grande parte graças a uma estimativa ainda menos realista da taxa de câmbio futura do Líbano. “É o mesmo tipo de magia financeira que nos meteu nessa confusão”, diz Henri Chaoul, ex-consultor financeiro do governo.

Chaoul renunciou em junho, em protesto contra o impasse. O FMI ainda está conversando com o gabinete: eles fizeram uma reunião no dia 10 de julho, com foco no setor elétrico. Mas o fundo alertou que as negociações só irão progredir se o Líbano concordar com um conjunto de números, ou se o gabinete avançar com algumas reformas significativas, como demonstração de boa fé. Nada aconteceu. “É criminoso”, diz Alain Bifani, ex-diretor geral do ministério das finanças, que também deixou o cargo em protesto.

E, agora, some-se a tudo isto a devastação da capital libanesa. Só o reparo dos danos no porto custará centenas de milhões de dólares. Entre os prédios destruídos estava o principal silo de grãos do Líbano, deixando o país com menos de um mês de suprimento de trigo. Os proprietários de imóveis se perguntam como conseguirão dinheiro para pagar pelo vidro novo ou pelas esquadrias de alumínio.

Os donos de empresas, que mal conseguiam auferir algum lucro antes do desastre, dizem que vão desistir, em vez de reconstruir. O governo prometeu investigar e encontrar os culpados em cinco dias – tempo suficiente para apontar um bode expiatório, mas não para conduzir uma investigação séria.

Nas ruas, há raiva, mas também resignação. O Líbano sofreu muito em sua história moderna: uma guerra civil de 1975 a 1990, ocupações de Israel e da Síria, uma guerra ruinosa com Israel em 2006 e uma infinidade de outros conflitos e ataques. Os libaneses se orgulhavam de sua capacidade de se levantar e reconstruir sua sociedade. Agora parece diferente.

O modelo econômico fracassou, assim como o sistema de compartilhamento de poder que manteve a paz entre as religiões do país depois da guerra civil. Enquanto o país afunda, sua classe política venal parece distraída. Já se acabou o otimismo de outubro, quando centenas de milhares de libaneses saíram às ruas para exigir a derrubada de um regime entrincheirado. Agora, seus pensamentos estão se voltando cada vez mais para a emigração. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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