Karolyn Kaster/AP
Karolyn Kaster/AP

The Economist: Biden anuncia equipe conhecida 

Combinação de nomes muito experientes para a área de Segurança Nacional agrada a aliados internos e externos

The Economist, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2020 | 04h30

Menos de 24 horas depois de Donald Trump concluir que não pode mais bloquear a transição para o próximo governo de Joe Biden, o veterano democrata anunciou sua equipe de Segurança Nacional. “A América está de volta, pronta para liderar o mundo, não se retirar dele”, afirmou. O que provocou murmúrios de alívio em Washington, Londres, Tóquio e mais além.

E mais do que o esperado, as escolhas de Biden refletiram uma ênfase na expertise sem ostentação, no pragmatismo e na lealdade pessoal. O secretário de Estado e seu assessor de Segurança Nacional escolhidos, respectivamente Antony Blinken e Jake Sullivan, são veteranos do governo Barack Obama muito respeitados. Blinken, pessoa educada, sempre bem penteado e francófono, atuou como assessor de Segurança Nacional de Biden quando este era vice-presidente e como secretário adjunto de Estado. Sullivan é um intelectual de primeira ordem, ligeiramente menos bem penteado, foi outra escolha muito apreciada.

Amigos de Biden, eles não estariam guerreando entre si como foi o caso de Mike Pompeo e John Bolton. O resultado provável da parceria (sinal de mais entendimento) será o retorno de um governo competente, discreto, e uma política externa previsível que refletem ideias que sempre foram defendidas por Biden. Sullivan e Blinken vão colaborar para a solução de problemas globais por meio de alianças onde for possível e reconstruir as instituições das quais estarão encarregados. Os Estados Unidos, para Blinken, devem ter a “humildade e confiança” para acreditar nos seus aliados. Ao escolher um secretário discreto, apesar de suas qualidades, Biden também indicou que ele mesmo pretende exercer uma diplomacia do mais alto nível.

Foi difícil não entender isso como um repúdio de Trump – e mais difícil ainda quando a escolhida para dirigir o Departamento de Inteligência Nacional, Avril Haines, prometeu que, se confirmado seu nome pelo Senado, “continuará a falar a verdade ao poder”. Outra veterana do governo Obama e antiga vice-diretora da CIA, ela será a primeira mulher a comandar o serviço de inteligência. Alejandro Mayorkas será o primeiro latino e imigrante a dirigir o Departamento de Segurança Interna. Biden escolheu Linda Thomas-Greenfield para representar o país nas Nações Unidas, uma rara mulher negra nas altas instâncias da diplomacia americana antes de ser demitida por Trump.

A diversidade dos nomeados por Biden também segue o manual de Obama. A intenção em parte é abrandar a extrema esquerda cujos expoentes o presidente eleito de outra maneira ignoraria. A indicação de John Kerry como enviado para tratar de assuntos relativos ao clima é outro enfrentamento da esquerda. Kerry é um pilar do establishment democrático difamado, mas a esquerda deve amar o seu posto recém-criado. As indicações de Biden foram bem recebidas pelo partido.

Do lado dos dissidentes, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e outros limitaram-se a assinar uma petição contra uma possível nomeação do antigo chefe de gabinete de Biden, Bruce Reed, figura relativamente obscura, por causa da sua abertura a uma reforma da previdência. Se isso constitui uma séria disputa interna no seio do partido, como algumas notícias sugeriram, Biden pode ficar tranquilo.

As críticas mais duras das escolhas feitas partiram dos falcões republicanos. O senador Marco Rubio qualificou os escolhidos como um grupo de paladinos privilegiados “que serão os zeladores polidos e ordenados do declínio da América”. Mas ignorou o fato de que muitos da equipe de Trump eram membros da Ivy League, que não restauraram a hegemonia americana – e que Thomas-Greenfield era uma pessoa pobre que cresceu na Louisiana. Mas os comentários polêmicos do senador evidenciam uma questão legítima sobre como a abordagem de Biden no campo da segurança interna será diferente da de Obama.

Sullivan e Blinken criticaram a hesitação em algumas áreas do governo Obama (no caso da Síria e da China especialmente). Biden também sublinhou que o mundo pós-Trump será diferente daquele que Obama presidiu. No geral, tudo isso o beneficiará.

Além de toda a aprovação, seu governo terá alguma vantagem para trabalhar no caso das sanções estabelecidas por Trump contra o Irã e as tarifas no caso da China. Não terá muito incentivo para abandonar um e outro assunto às pressas. Mesmo que o Irã consiga ser convencido a respeitar os termos do acordo nuclear (que foi negociado por Sullivan) abolido por Trump, Biden tentará ampliá-lo. E em Washington não existe nenhum apetite para dar à China alguma coisa em troca de nada. No entanto, a retórica é animadora, tudo isso pressagia uma política externa que não será a de repúdio total, adotada por Trump, nem será uma retomada da política de Obama, mas uma combinação de ambas. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

© 2020 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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