AFP PHOTO / CHRISTIAN MIRANDA
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The Economist: Chilenos serão um público difícil para o papa

O desinteresse pela visita do papa ao Chile realça a irrelevância cada vez maior da Igreja Católica no país

O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2018 | 06h00

Quando, em junho, foi anunciada uma visita do papa Francisco ao Chile, os católicos do país sem dúvida torciam para que esta visita ajudasse a trazer os fiéis refratários de volta ao rebanho. Mas às vésperas da chegada do papa ao país, onde ele permanecerá três dias, os preparativos realçam a irrelevância cada vez maior da Igreja Católica para muitos chilenos. Metade deles dá pouca importância à visita e uma ampla maioria desaprova os US$ 11 milhões ofertados pelo governo para a segurança e a logística envolvidas na sua viagem. “Esse dinheiro deveria ser destinado aos pobres e à saúde”, afirma indignada Sonia Meza, evangélica que trabalha como doméstica e vive em La Florida, um subúrbio de Santiago.

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A falta de entusiasmo contrasta com a recepção eufórica de João Paulo II em 1987 durante a ditadura de Augusto Pinochet. Na época, mais de três quartos dos chilenos se confessavam católicos. A igreja era respeitada por sua defesa resoluta dos direitos humanos e a visita foi usada para congregar a oposição a Pinochet. Um hino composto para a ocasião, “Mensageiro da vida, peregrino da paz”, era entoado em todos os locais que João Paulo II visitou.

No decorrer das três décadas seguintes a confiança na Igreja Católica diminuiu vigorosamente, segundo pesquisas realizadas pela Latinobarómetro. Menos da metade dos chilenos hoje se considera católica, o que pode chocar muita gente. E de acordo com um levantamento anual realizado pelo Centro de Política Pública da Universidade Católica, que utiliza uma metodologia um pouco diferente, quase 60% dos chilenos não professam a religião, mostrando que o catolicismo vem diminuindo mais lentamente.

A Igreja Católica vem perdendo fiéis em toda América Latina. Mas em outros países os devotos têm voltado principalmente para as igrejas evangélicas. Uma tendência visível entre os chilenos mais pobres e menos escolarizados. O que distingue o Chile é o comportamento dos jovens mais ricos e melhor educados. Na América Latina no geral esses jovens se afirmam católicos; no Chile eles abandonaram a fé completamente. “Observamos um processo muito rápido de secularização”, no Chile, diz Ignacio Irarrázaval, do Centro de Política Pública. Isto ocorre em parte porque o Chile é o país mais rico da região e com a economia mais aberta, o que facilita a propagação de padrões sociais de fora da América Latina. E também por causa de revelações sobre abusos de crianças por padres.

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A pesquisa da Latinobarómetro sugere que ações penais impetradas contra Fernando Karadima, padre encarregado da paróquia de El Bosque, em Santiago, desencadearam um êxodo da igreja. Os casos se tornaram públicos em 2010. O padre Karadima mantinha estreitas relações com a elite chilena, levantando suspeitas de que pessoas poderosas permitiram que ele agisse impunemente durante muitos anos. A nomeação pelo papa Francisco de Juan Barros, assistente do padre degradado, para bispo da diocese de Osorno foi visto por muitos chilenos como um funesto erro.

No Chile a confiança na Igreja Católica é menor do que em qualquer outro país latino-americano, diz Marta Lagos, da Latinobarómetro. E a parcela de chilenos sem nenhuma crença é similar à do Uruguai, que tem uma história mais antiga de secularização. A Igreja também está fora de compasso com os chilenos em assuntos de moralidade sexual. Ela faz campanha contra o divórcio, legalizado no país em 2004, e contra a flexibilização da legislação sobre o aborto, aprovada no ano passado. “As autoridades eclesiásticas parecem mais preocupadas com esses assuntos do que com as injustiças e a desigualdade”, diz Fernando Montes, padre jesuíta e ex-reitor da Universidade Alberto Hurtado, em Santiago.

Alguns católicos esperam que os jovens sejam atraídos pelo estilo de vida modesto do papa, sua preocupação com a ecologia e a maneira aberta de se comunicar. O programa da sua visita enfatiza assuntos de justiça social e inclui uma visita a uma prisão feminina, um encontro com um grupo da tribo Mapuche, a mais numerosa população indígena do Chile, e uma celebração de imigrantes.

Ninguém tem dúvida de que centenas de milhares de fiéis o receberão. Três missas gigantes estão planejadas, em Santiago, Temuco, no sul, e em Iquique, no norte do país. Os hotéis de Temuco aguardam hordas de argentinos que devem cruzar a fronteira para ver o primeiro papa argentino; peruanos também deverão lotar a congregação em Iquique. Os chilenos que permanecerem em casa poderão assistir à movimentação do Papa o tempo todo. O que não significa que retornarão à Igreja. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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