Sara K. Schwittek/Reuters
Sara K. Schwittek/Reuters

The Economist: Como o 11/9 fez de NY uma cidade melhor

Os ataques de 20 anos atrás foram o pior dia da história da cidade, mas também impulsionaram sua transformação

The Economist, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 05h00

Na manhã seguinte aos ataques do 11 de setembro, enquanto bombeiros, paramédicos e policiais exaustos procuravam por sobreviventes sob escombros ainda envoltos em fumaça, os nova-iorquinos se prepararam para suportar mais ataques. O número de mortos chegou a 2.743, quase todos da cidade. Os EUA lançariam posteriormente duas guerras longas e caras como reposta - e dilapidariam sua autoridade moral nas prisões da Baía de Guantánamo e Abu Ghraib

De alguma maneira, o país não vai tão bem quanto em 10 de setembro de 2001, está mais polarizado, há mais desconfiança. A cidade de Nova York, porém, está melhor. A ressurreição de Lower Manhattan atuou como catalisador para reconstruções e reformulações muito além da área destruída naquele dia terrível.

Fumaça, cinzas e poeira exalavam do local do ataque, que irradiou também, mais gradualmente, um boom imobiliário que se espalhou de Tribeca ao Chelsea e, por fim, aos cinco distritos da cidade, até bairros há muito negligenciados, como Jamaica e Flushing, no Queens, St. George, em Staten Island, e ao longo da beira d’água do Brooklyn. 

“Nova York ficou melhor que nunca”, afirma Dan Doctoroff, ex-vice-prefeito. Poucos poderiam ter previsto esse desdobramento durante os meses em que aquele poço de 65 mil metros quadrados ainda soltava fumaça. Mas, para os nova-iorquinos desconcertados pelo choque do 11 de Setembro, reconstruir virou uma causa mobilizadora, uma maneira de não deixar os terroristas vencerem.

O que se seguiu foi a reinvenção de Lower Manhattan, um dos maiores distritos de negócios dos EUA. Antes, apenas 23 mil pessoas viviam na região, que se esvaziava todas as noites quando os trabalhadores dos escritórios, principalmente de finanças, seguros ou imóveis, iam para suas casas. O World Trade Center, agora lembrado com melancolia, não era amado quando ainda estava de pé. O complexo de seu entorno bloqueava ruas, separava bairros. Seu shopping center subterrâneo, popular entre os trabalhadores, roubava clientes das lojas de rua. “Era muito raro ver alguém levando o cachorro para passear ou empurrando um carrinho de bebê”, recorda-se Robert McKay, advogado que trabalhava na região.

Michael Bloomberg, o magnata bilionário das comunicações, então republicano, elegeu-se prefeito dois meses após os ataques e, em parte, graças a eles: republicanos tendem a vencer eleições majoritárias em cidades habitualmente democratas somente quando elas enfrentam crises. Bloomberg fez um apelo para que as empresas fizessem sua parte permanecendo na cidade. “Não é o momento de deixar a Big Apple”, afirmou ele no discurso de posse. 

Alguns negócios se mudaram para Midtown, nas proximidades, incluindo a Cantor Fitzgerald, que perdeu 658 funcionários - todos os que trabalhavam instalados entre o 101.º e o 105.º andares da Torre Norte. Sua nova sede não ultrapassou a altura da escada Magirus mais alta do Corpo de Bombeiros. Poucos deixaram a cidade definitivamente. Alguns apenas ameaçaram partir, como a Bolsa de Valores.

Funcionar em Downtown se tornou um ato não somente de patriotismo, mas também de interesse próprio. Como se verificou, o momento foi fortuito. Outras cidades americanas também revitalizariam seus centros urbanos nos 20 anos que se seguiram. Ainda assim, era impossível sabê-lo na época. Muitas empresas que permaneceram em Manhattan se beneficiaram de novos incentivos financeiros. O governo federal autorizou a emissão de US$ 8 bilhões em Liberty Bonds, um tipo de financiamento livre de impostos. Também concedeu a Nova York um pacote de ajuda de US$ 20,5 bilhões. 

George Pataki, então governador, nomeou John Whitehead, ex-copresidente do Goldman Sachs, para dirigir a Lower Manhattan Development Corporation, que foi encarregada de guiar a revitalização da região, incluindo a reconstrução da área ocupada pelas torres do World Trade Center. Em alguns momentos, essa tarefa pareceu impossível. Quase todos concordavam que a área tinha de ser reconstruída, mas também pareciam ter ideias diferentes do que deveria ser construído em que lugar, por quem e com que dinheiro.

Desentendimentos entre empresas de seguro, imobiliárias e políticos atrasaram o projeto por anos. A reconstrução tinha de contornar uma dúzia de linhas de metrô e uma linha de transporte para New Jersey, assim como os sentimentos das famílias das vítimas. Mas, em 2006, o primeiro prédio de escritórios da reconstrução, o 7 World Trade Center, ficou pronto, juntamente com uma subestação de eletricidade instalada em seus andares inferiores. O memorial abriu em 2011, e o edifício One World Trade Center - construído com a patriótica altura de 1.776 pés - ficou pronto em 2014. 

O Oculus, um terminal ferroviário e shopping center que desafia as leis da gravidade, ficou pronto em 2016. Dois outros arranha-céus e um centro para apresentações artísticas estão a caminho. Uma igreja ortodoxa grega, que também foi destruída naquele dia, será reaberta no ano que vem.

Os anos que se seguiram ao 11 de Setembro se revelaram uma era de ambição municipal que Nova York não experimentava havia duas gerações. O metrô da cidade foi expandido pela primeira vez em décadas. Outros projetos, como a High Line (uma obsoleta linha ferroviária de transporte de mercadorias convertida em espaço público) e os Hudson Yards (um imenso projeto de desenvolvimento urbanístico no West Side de Manhattan), poderiam não ter sido realizados não fosse a reconstrução de Lower Manhattan. 

Para estimular o desenvolvimento, Bloomberg reformulou as leis de zoneamento de 40% da cidade, algo que teria sido muito mais difícil, talvez impossível, não fosse a crise e o subsequente senso de solidariedade. Incentivos a outras indústrias, como tecnologia e biotecnologia, diversificaram e estimularam ainda mais a economia da cidade.

A região de Lower Manhattan agora é menos dominada pelas finanças. Antes do 11 de Setembro, firmas financeiras e imobiliárias empregavam 60% dos trabalhadores do setor privado na região. Essa fatia caiu para um terço antes da covid-19 embaralhar os dados. “Um outro tipo de trabalhador está por lá, que certamente não sai correndo para os subúrbios às 16h30”, afirmou Jessica Lappin, diretora da Downtown Alliance, entidade que advoga pelo distrito.

E não foram somente os negócios que vieram. A população residente em Lower Manhattan mais que dobrou entre 2001 e 2020, assim como o número de unidades residenciais. Alguns novos moradores foram atraídos para a região com meses de aluguel grátis, mas o distrito rapidamente entrou na moda. Muitos de seus antigos prédios de escritórios foram convertidos em condomínios. Crianças, que raramente eram vistas ao sul da Canal Street, em 2001, agora compõem 17% da população. Novas escolas foram construídas para atender às novas famílias. Turistas também vieram. Até 2001, apenas seis hotéis funcionavam no distrito. Antes da pandemia de covid-19, 37 hotéis operavam na região.

Talvez nada disso tivesse acontecido se a sensação de segurança, que desapareceu tão subitamente no 11 de Setembro, não tivesse voltado. O departamento de polícia, que adicionou mil policiais à sua unidade de contraterrorismo e trabalhou proximamente com o FBI e a CIA para desenvolver novas capacidades, merece algum crédito por isso. Quando Londres e Madri sofreram atentados terroristas, policiais de Nova York se encaminharam rapidamente para os locais dos ataques. O departamento mantém atualmente agentes de inteligência em outras 18 cidades. Ray Kelly, comissário de polícia de Bloomberg por 12 anos, afirma que a polícia impediu 16 atentados durante sua gestão. A criminalidade também caiu, apesar de as causas dessa melhora serem dúbias.

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Ao longo dos 18 meses anteriores, enquanto a covid-19 se espalhava pela cidade, políticos e especialistas expuseram versões próprias da mesma ideia. “Se superamos o 11 de Setembro, superaremos a pandemia.” Seria imprudente desqualificar essa fala como mera fanfarronice nova-iorquina, levando em consideração o quanto esse renascimento parecia inesperado quando Lower Manhattan estava coberta de cinzas. Ainda assim, há precedentes mais desalentadores para se considerar. 

Nova York levou tempo demais - 25 anos - para se recuperar da fuga da classe média branca e do declínio da indústria de manufaturados da década de 70. Na época, 1,3 milhão de pessoas e dezenas de empresas da Fortune 500 deixaram a cidade. “A dúvida é, a recuperação será como o pós-11 de Setembro ou como nos anos 70?”, questiona o ex-vice-prefeito Doctoroff.

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