The Economist: Como o fato de Trump estar com covid-19 vai afetar a eleição?

The Economist: Como o fato de Trump estar com covid-19 vai afetar a eleição?

O presidente dos EUA disse que o fim da pandemia estava se aproximando; agora, o caso dele é o de maior destaque no país

The Economist, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 16h14

Donald e Melania Trump tiveram resultado positivo para o teste de infecção da covid-19 faltando quatro semanas para a eleição presidencial. Deve ser algo assustador para eles e sua família. E haverá certamente repercussões importantes na campanha presidencial. Jornalistas da área política têm especulado há meses quanto a uma surpresa em outubro. Agora ela se materializou.

Uma possibilidade a ser considerada é a de o presidente ficar bem. Algumas pessoas infectadas quase não apresentam sintomas, sentindo no máximo um mal estar. Trump passaria dez dias de quarentena, recebendo o atendimento de que necessita no hospital militar Walter Reed, em Bethesda, Maryland. Ressurge em meados de outubro e diz: viram só? Eu sempre disse que não era nada grave.

Mesmo tal cenário benigno é ruim para o presidente do ponto de vista político. Se isso lhe render alguns votos a mais por compaixão, isso não deve resultar em uma grande alteração no quadro das intenções de voto. Ele continua sete pontos atrás de Joe Biden na média das pesquisas feitas pela Economist, algo que, de acordo com nossos cálculos, lhe daria uma chance em dez de conseguir a reeleição. 

Trump quer desviar a conversa da covid-19, da incompetência do seu governo ao responder à epidemia e do fardo que isso representou para a economia. Seu próprio adoecimento torna isso impossível nos próximos dez dias. Quando ele voltar da quarentena, pode não haver mais tempo suficiente para que ele recupere a diferença nas intenções de voto do eleitorado.

E enquanto ele se recupera, os americanos serão lembrados que Trump passou o ano inteiro fazendo pouco da gravidade do vírus, chegando a alegar que ele simplesmente desapareceria. No primeiro debate presidencial, realizado na noite de terça feira, ele disse que usa máscara quando necessário e em seguida caçoou de Biden pela insistência em usá-la o tempo todo.

“Não uso máscara como ele”, disse Trump. “Sempre que o vemos, ele está de máscara. Poderia estar falando a mais de 50 metros de mim e chegaria usando a maior máscara que já vi.” Posteriormente, ele alegou que o fim da pandemia estava próximo.

Faz tempo que a Casa Branca insiste que Trump não precisa usar máscara porque ele e as pessoas do seu círculo são testados constantemente. Pode ser verdade, mas, ao adotar esse comportamento, o presidente minou as campanhas que promovem o uso de máscaras em um momento em que seu diretor do Centro para o Controle e Prevenção de Doenças (CDC) insiste que os americanos poderiam desacelerar a disseminação do vírus se usassem máscaras - principalmente para proteger os demais. 

Não é preciso ser um mestre das campanhas políticas para traçar uma linha entre as mensagens ambíguas do presidente e os 200 mil americanos mortos em decorrência da covid-19.

Há, é claro, um segundo cenário: Trump pode ficar gravemente doente, como ocorreu em abril com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. O tratamento para aqueles que são hospitalizados por causa da covid-19 melhorou nos meses mais recentes. Isso explica em parte por que a proporção de fatalidades está em queda nos EUA (outra razão é o fato de mais testes serem realizados). 

Por outro lado, Trump apresenta três dos fatores de risco conhecidos: sexo masculino, idade avançada (74 anos) e índice de massa corporal superior a 30 (o boletim médico do presidente feito em abril indica IMC de 30,5, de acordo com a calculadora dos Institutos Nacionais de Saúde). Tom Frieden, ex-diretor do CDC, publicou no Twitter: “Uma pessoa de 74 anos tem aproximadamente 3% de chance de morrer, 10%-15% de chance de desenvolver complicações graves. Isso aumenta para os homens e para os obesos.” 

Muitas pessoas que já passaram dos 70 anos apresentam outras condições médicas que fazem o risco aumentar. Entretanto, o presidente poderá dispor do melhor atendimento médico do mundo.

Para Entender

Eleições nos EUA: entenda o processo eleitoral americano

Saiba como funcionam bipartidarismo, prévias, escolha dos vices, colégio eleitoral, votos, apuração e pesquisas na disputa presidencial dos Estados Unidos

Se Trump ficasse temporariamente incapacitado, o vice-presidente Mike Pence poderia assumir o cargo nos termos da 25ª Emenda constitucional, ratificada após o assassinato de John F. Kennedy. O porta-voz de Pence publicou no Twitter que o vice-presidente e sua mulher tiveram resultado negativo para o teste do vírus.

Mas a incerteza não acaba aí. Há um terceiro cenário que seria ainda mais surpreendente e realmente colocaria essa eleição de pernas para o ar, no sentido de mudar o resultado mais provável. Qualquer lista de possíveis cenários entre hoje e a data da eleição, 3 de novembro, deve incluir a possibilidade de Trump se recuperar e Biden adoecer antes da votação. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.