Elizabeth Ruiz/AFP
Elizabeth Ruiz/AFP

The Economist: Como o narcotráfico prosperou na pandemia

Organizações criminosas da América Latina mostram força e superam problemas de logística; grupos recrutaram membros, contrataram ‘mulas cibernéticas’ e diversificaram atividades

The Economist, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2022 | 05h00

O evento tinha todas as características de uma celebração de ano-novo. Fogos de artifício iluminavam o céu. Jovens dançavam de braços dados, cantando, agitando bandeiras e ouvindo música. Mas não se tratava de uma festa de ano-novo, mas sim de uma noite de julho. Os fogos de artifício foram acompanhados de rajadas de tiros. E os festeiros em Santiago, capital do Chile, estavam velando um jovem supostamente ligado a traficantes de drogas durante o que deveria ser um lockdown nacional.

Faz tempo que o Chile é considerado um dos países mais seguros da América Latina. Mas, entre maio de 2019 e dezembro de 2020, gangues de criminosos realizaram quase 800 dos chamados narcofunerais, de acordo com o chefe da polícia do país. Normalmente, acontecimentos tão grandiosos são associados a senhores das drogas mexicanos, mas eles estão ficando muito populares em um lugar que está se tornando cada vez mais violento (os assassinatos nas prisões chilenas alcançaram o maior número em quatro anos, com pelo menos 61 casos em 2020). Esse é apenas um dos sinais de que as gangues estão ampliando sua influência em toda a América Latina.

De certa maneira, isso é surpreendente. A covid-19 atingiu duramente a América Latina. Muitos esperavam que os traficantes de drogas também fossem afetados. Eles já estavam sob pressão, graças à legalização da maconha em muitos lugares e a detenção de vários chefões nos EUA e em outros países.

Quando a covid impediu os jovens de frequentar as baladas, esperava-se uma queda na demanda por drogas como cocaína e ecstasy. Com o fechamento global afetando o fornecimento de bens corriqueiros, muitos observadores pensaram que isso dificultaria o acesso das gangues às matérias-primas necessárias para produzir drogas ou o transporte da mercadoria pelas fronteiras.

Em vez disso, a pandemia confirmou que o ramo das drogas tem resiliência e capacidade de adaptação. Ainda que as redes de fornecimento tenham sido afetadas inicialmente, muitas já se recuperaram. As gangues exploraram o caos da covid para recrutar novos membros, atraindo crianças afastadas da escola na Colômbia para colher coca e contratando jovens “mulas cibernéticas” para transferir os lucros usando criptomoedas. Elas também diversificaram suas atividades para outros crimes.

Com as mudanças no setor, mudou também a política dos EUA em relação a ele. Durante meio século, os governos americanos tentaram, sem sucesso, deter o fluxo das drogas. Agora, a política do presidente, Joe Biden, parece ter como prioridade interromper o fluxo do dinheiro ligado às drogas. 

No dia 15 de dezembro, ele assinou dois decretos: um deles criando um conselho para o combate ao crime organizado internacional e outro impondo sanções a 24 grupos envolvidos no comércio de drogas. Ainda não se sabe qual será o impacto dessas medidas.

Rota de Cristal

O lucro com a venda de drogas ilegais é tamanho que a criatividade para desenvolver formas de burlar a lei é apenas parte do custo operacional. Até o momento, a proibição se mostrou ineficaz em todas as etapas da rede de fornecimento. Na Colômbia, que produz mais de 60% da cocaína do mundo, o Exército destruiu pelas próprias mãos um volume recorde de cocaína em 2020. Mas os cultivadores de coca simplesmente plantaram mais pés. Assim, apesar da campanha de erradicação e das perturbações iniciais causadas pela covid, a produção de cocaína alcançou patamares recordes.

De maneira semelhante, no Peru, segundo maior produtor mundial, o preço da folha de coca (US$ 1,40 por quilo) é atualmente metade do observado dois anos atrás. Ainda assim, seu cultivo é mais rentável do que o de outros gêneros, diz Marianne Zavala, do grupo nacional de plantadores de coca (há um pequeno mercado local e legal para a folha de coca).

Acostumadas a contrabandear seus produtos por fronteiras vigiadas, as gangues responderam aos lockdowns nacionais com mais criatividade do que a maioria. Grupos mexicanos cavaram túneis e sobrevoaram a fronteira com drones para manter o fornecimento de cocaína e outras drogas para os EUA, diz Irene Mia, do International Institute for Strategic Studies, de Londres.

Outros foram mais ousados: em setembro de 2021, uma gangue brasileira roubou três aviões de um aeroporto, incluindo uma aeronave pertencente ao cantor Almir Sater. O Primeiro Comando da Capital, rede criminosa brasileira fundada nos anos 90, que está no topo da lista de grupos aos quais Biden aplicará sanções, dependia da corrupção de policiais rodoviários e de autoridades portuárias para manter os negócios, diz Marcos Alan Ferreira, da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa.

Transporte da Droga

Com o fechamento das estradas e o cancelamento dos voos, os traficantes aumentaram a proporção de drogas transportadas por via fluvial e marítima. Como ocorreu com outros setores, eles se frustraram com os longos atrasos no transporte e a alta no custo do frete; mesmo antes da pandemia, Brasil e Colômbia tinham alguns dos custos mais altos do mundo. Assim sendo, muitos aumentaram a carga transportada em contêineres. Isso, por sua vez, levou à apreensão de um volume recorde de cocaína. Outros contrataram iates e submarinos.

A pandemia também acelerou tendências já existentes. De acordo com a Agência Antidrogas dos EUA (DEA), hoje os grupos criminosos lidam com os clientes principalmente por meio de redes sociais e aplicativos de mensagens, sem recorrer tanto à dark web (ainda que esse mercado siga movimentando aproximadamente US$ 315 milhões ao ano). A digitalização aumentou em outras áreas. Criptomoedas como o Bitcoin, atualmente aceito como moeda corrente em El Salvador, facilitam a lavagem de dinheiro.

Há anos, as gangues vêm explorando cada vez mais novas substâncias sintéticas, como as metanfetaminas e o fentanil, bem como gêneros mais potentes de maconha. Essa tendência parece ter se acelerado. De acordo com números divulgados pelo Departamento de Defesa do México, em dezembro, 3,5 mil quilos do opioide sintético fentanil foram apreendidos de 2019 a 2020, em comparação com 560 quilos de 2016 a 2018.

Em novembro, o gabinete do secretário de Justiça dos EUA anunciou que a maior apreensão de metanfetamina e fentanil dos dois anos mais recentes foi feita em um caminhão perto de San Diego. O fentanil é mais potente do que a heroína – dezenas de milhares de americanos morrem todos os anos em consequência de overdoses dessa substância.

Assim como empresas legítimas contemplam uma transferência de suas operações para mais perto da matriz após a pandemia, as gangues também pensam em produzir essas drogas mais perto de sua base de operações, diz Scott Stewart, analista de segurança. 

Cada vez mais as gangues mexicanas produzem aquilo que antes importavam da Europa, obtendo matérias-primas da China. Em 2020, o PCC brasileiro usou 38 clínicas de medicina e odontologia como fachada para a obtenção de substâncias químicas usadas no preparo de drogas, de acordo com uma investigação da polícia. Durante uma pandemia, não parece suspeito que tais estabelecimentos estoquem substâncias.

Além da diversificação das drogas oferecidas, os traficantes estão expandindo suas atividades para outros setores. Alguns roubam carros ou combustível de oleodutos, ou dinheiro de bancos. Tudo fica mais fácil quando a polícia está em casa para evitar o risco de pegar covid.

Depois que uma gangue estabelece o monopólio da violência no seu território, torna-se possível controlar ou exigir uma fatia de toda a atividade ilegal que ocorre dentro desses limites. Também é possível extorquir dinheiro de negócios legítimos. 

As gangues mexicanas fazem tudo isso, e também exploram os imigrantes que fogem ilegalmente da América Central rumo aos EUA. Acredita-se que ganhem até US$ 5 bilhões por ano ajudando imigrantes a atravessar a fronteira, frequentemente roubando-os no processo. 

A covid levou governos a fecharem certas fronteiras quase inteiramente. Isso cria uma oportunidade para as gangues, que cobram alto pelo contrabando de pessoas e mercadorias, por exemplo, entre a Venezuela e a Colômbia.

Terceirização

Os grupos criminosos que tiveram o melhor resultado na pandemia são aqueles com fortes redes internacionais. As gangues mexicanas, algumas das quais vinham usando o porto chileno de Valparaíso para transportar drogas antes da pandemia, estavam bem posicionadas para ampliar suas atividades no país durante a crise. 

Mas a natureza dessas parcerias está mudando. As redes criminosas estão apostando menos no controle rigoroso dos tradicionais chefões colombianos e mexicanos. Para usar o jargão administrativo, elas estão descentralizando as atividades. O PCC terceiriza “contratos” a subsidiárias paraguaias.

Essa expansão regional aumentou a violência em toda a América. Gangues mexicanas causaram problemas na região central do Chile para desviar as atenções de suas atividades portuárias. Disputas territoriais entre grupos rivais no México ou entre gangues brasileiras por acesso a rotas do tráfico e recursos naturais na Amazônia estão eclodindo. 

No balneário mexicano de Tulum, ocorreram três batalhas entre gangues nos três meses mais recentes, e em um dos episódios dois turistas foram mortos no fogo cruzado.

Bolsões de violência podem ser encontrados em toda a região. O departamento paraguaio de Amambay, situado na rota controlada pelo PCC, abriga apenas 2,4% da população do país, mas em 2020 foi palco de quase um terço dos assassinatos cometidos no Paraguai.

No Equador, o presidente, Guillermo Lasso, declarou estado de emergência, em outubro de 2021, para combater a violência decorrente das drogas, na esteira de uma rebelião de detentos que resultou na morte de 119 prisioneiros. 

A decapitação de seis pessoas durante a rebelião e um surto nacional de criminalidade nas ruas acompanharam as mortes, indicando que dois cartéis mexicanos rivais, Sinaloa e Jalisco Nova Geração, estariam travando uma guerra indireta pelo controle das redes de fornecimento. 

Tais episódios de violência extrema são raros fora do México. Mas o repórter local Christian Zurita acha mais provável que a brutalidade represente uma disputa doméstica por fatia de mercado, causada pela fragmentação da maior gangue do Equador, os Choneros.

Quando indagados, os chilenos dizem em sua maioria que o combate ao tráfico de drogas é a principal questão de segurança nacional, acima da covid e da mudança climática. Tais preocupações levaram José Antonio Kast, candidato de direita, que prometeu o fim dos narcofunerais, ao segundo turno da eleição presidencial no Chile, disputa que ele perdeu em 19 de dezembro.

São temores encontrados em toda a região. De acordo com relatório recente divulgado pelo instituto Gallup, os latino-americanos (ao lado dos habitantes da África Subsaariana) apresentam a maior probabilidade de não se sentirem em segurança em seus bairros, de acordo com índices de confiança na polícia e no risco identificado no trajeto até em casa

Agulhas

 A maioria das empresas foi obrigada a se adaptar ao estranho mundo pandêmico: seja apanhando do botão “mudo” no Zoom ou lidando com a falta de artigos básicos. De maneira semelhante, a covid obrigou o PCC a ser mais sofisticado, de acordo com Ryan Berg, do c Centre for Strategic and International Studies, de Washington. 

O grupo expandiu suas atividades para setores legítimos (produzindo álcool em gel, por exemplo) e descobriu novas formas de lavar dinheiro. É provável que outras gangues entrem para setores legítimos, acredita Irene Mia.

Mas as drogas continuam sendo a fonte mais fácil de lucro para as gangues, situação que não deve mudar enquanto continuarem ilegais. A pandemia parece não ter limitado a demanda pela maior parte das drogas. E os lockdowns não impediram os fornecedores de atender a essa demanda voraz. Seja qual for a calamidade que afete as gangues de traficantes, a recompensa de sua atividade proporciona um forte incentivo à adaptação/TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.