Brenna Norman/Reuters
Brenna Norman/Reuters

The Economist: Confusão em Iowa prejudica candidatura opositora

Votação com regras confusas e apuração caótica da prévia permite apontar alguns ganhadores e perdedores

Redação, The Economist

05 de fevereiro de 2020 | 06h00

Geralmente, os resultados de Iowa são anunciados uma hora depois de o público se reunir em salões, ginásios, escolas e salas de aula em todo o Estado, para dizer quem querem que sejam seus indicados. Isso faz diferença. Se a história recente pode servir como guia, o vencedor será indicado na convenção nacional do partido. Por isso, as apostas eram altas quando candidatos e eleitores democratas, bem como especialistas, esperavam para saber quem venceria.

Mas, ao contrário do previsto, tudo acabou se transformando em caos. Por várias horas, os resultados foram adiados sem explicações. Nas festas da vitória em Des Moines, capital do Estado, os apoiadores de diferentes candidatos se misturavam, confusos. E os comentaristas de TV rangiam os dentes, frustrados, ao verem seus mapas digitais de votos sem nenhuma alteração. Em determinado momento, os líderes democratas disseram, enigmaticamente, que estavam tentando entender “inconsistências” nos resultados. 

Relatórios generalizados apontam para um fracasso técnico: um novo aplicativo encomendado pela diretoria do partido, que deveria tabular os resultados e os transmitir, aparentemente, falhou. Em seguida, vieram relatórios de uma mistura de dados incomparáveis. As contagens de quantas pessoas inicialmente apoiaram um candidato não se alinhavam às informações de quantos delegados cada candidato obteve.

O fracasso, em parte, é em razão das novas regras introduzidas neste ano. Antes, não se esperava que os organizadores publicassem o número de pessoas envolvidas com cada candidato: isso aumentava a complexidade. 

No salão da escola West Elementary, em Independence, nordeste do Estado, os frequentadores do caucus também ficaram intrigados quando foram instruídos, pela primeira vez, a preencher “cartões de preferência presidencial”, além de se organizarem em grupos, que sinalizavam a escolha de candidatos.

Efetivamente, esses cartões criam uma espécie de “rastro” de cédulas em papel, para garantir que nenhum resultado confuso seja emitido. Isso levanta a questão da real necessidade de organizar o caucus. Quanto ao aplicativo, ele causou dores de cabeça. Dan Callahan, presidente dos democratas do condado de Buchanan, que administrava as instalações da escola, comentou que o app nunca funcionou. Ele foi forçado a registrar os resultados por linhas telefônicas que estavam congestionadas.

O caucus de Iowa já havia apresentado problemas antes, mas com menos drama. Em janeiro de 2012, quando os republicanos começaram a escolher um candidato à presidência, Mitt Romney foi declarado vencedor por uma pequena diferença. 

O resultado foi aceito, mas, semanas depois, os organizadores tiveram de admitir que, de fato, Rick Santorum havia sido o primeiro colocado. Mas, até aquele momento, ninguém havia prestado atenção à maré de azar de Santorum. Então, Romney acabou sendo escolhido.

Resultados precisos, desta vez, devem chegar mais cedo. Mas isso ainda deixa os candidatos, depois de mais de um ano de campanha, e com cerca de US$ 40 milhões gastos apenas em anúncios de TV em Iowa, lutando para aproveitar ao máximo a confusão.

Alguém realmente ganhou? Entre os principais democratas, Joe Biden fez uma campanha sem brilho, com discursos muitas vezes desmedidos para pequenas multidões de idosos, e terminou mal em Iowa, em quarto lugar. Mas pode usar a controvérsia e o caos do caucus como uma distração parcial. Aqueles que poderiam estar se concentrando em saber se sua carreira política está à beira da morte, talvez tenham passado a focar em escrever o obituário do caucus de Iowa.

Outro candidato democrata também pode estar satisfeito com a situação. Michael Bloomberg, ex-prefeito bilionário de Nova York, entrou tarde na disputa e optou por pular as prévias nos quatro primeiros Estados, incluindo Iowa. Ele se concentrará na Superterça, no início de março, onde seus gastos com publicidade têm mais impacto em vários Estados, incluindo a Califórnia, o maior prêmio de todos.

Antes, a estratégia parecia bizarra, pois um candidato vencedor geralmente surge para dominar a corrida desde o início. Mas, se o caos em Iowa significar que não há nenhum candidato à frente dos demais, então o bilionário poderia avançar na disputa depois disso tudo.

Outro possível vencedor é Donald Trump. Ignore o drama por um momento e observe uma estatística reveladora. Os democratas de Iowa estimam que, apesar do comparecimento, o número de pessoas parecia estar próximo ao de 2016, quando os eleitores ficaram notoriamente descontentes com a escolha dos candidatos e apenas 170 mil compareceram. Em 2008, 240 mil haviam comparecido para votar em Barack Obama.

A provável baixa participação para 2020 sugere pouco entusiasmo com qualquer um dos candidatos democratas até o momento. Adicione o caos aos resultados e o desânimo do público em relação à organização do partido poderia crescer.

Esse fracasso significa que o caucus de Iowa, como a primeira prova na corrida de presidenciáveis, ficará no passado? Muitos no Partido Democrata já queriam acabar com eles, especialmente depois que a maioria de seus candidatos não brancos desistiu antes mesmo do dia do caucus.

A cada eleição que passa, o Estado parece mais anacrônico. Os moradores de Iowa são desproporcionalmente brancos, idosos e rurais. Outros Estados – como o vizinho Illinois – podem reivindicar ser muito mais representativos dos Estados Unidos como um todo. /Tradução de Romina Cácia

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.