Tingshu Wang/REUTERS
Tingshu Wang/REUTERS

The Economist: Conquistas de meninas estão em risco

Pandemia ameaça notável avanço no direito das garotas, obtido mesmo nas regiões em que igualdade está distante

The Economist, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 03h00

Durante grande parte da história da humanidade e em muitos lugares, as meninas foram consideradas propriedades. Ou, na melhor das hipóteses, pessoas subordinadas, obrigadas a obedecer a seus pais até o dia em que tivessem que começar a obedecer a seus maridos. Poucas pessoas achavam que valia a pena educá-las. Menos ainda imaginavam que uma menina pudesse crescer para governar a Alemanha, dirigir o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou inventar uma vacina.

Na maior parte do mundo, essa visão sobre as meninas agora parece não apenas antiquada, mas inconcebivelmente remota. Em grande parte dos países ricos, os pais agora tratam suas filhas tão bem quanto seus filhos, assim como investem no futuro delas. Área após área, as meninas alcançaram os meninos.

Globalmente, as mulheres jovens agora ultrapassam o número de homens na universidade. A velocidade da mudança tem sido incrível. Cinquenta anos atrás, apenas 49% das meninas em idade escolar em países de renda média baixa estavam na escola, em comparação com 71% dos meninos. Hoje a participação de ambos é de cerca de 90%. Em 1998, apenas metade das meninas em idade escolar em todo o mundo estava matriculada; hoje, dois terços estão. No mesmo período, as taxas de analfabetismo caíram de uma em cada cinco mulheres jovens de 15 a 24 anos para uma em cada dez, ficando quase no mesmo nível dos homens jovens.

Bebês do sexo feminino são mais desejados do que nunca. Os pais em alguns países os preferem. Mesmo em lugares como a China, onde o aborto seletivo de fetos de meninas é comum, isso está se tornando menos frequente. As meninas também têm menos probabilidade de se casar na infância. Em 1995, quase seis em cada dez meninas no sul da Ásia casaram-se antes de completar 18 anos; essa proporção tem caído pela metade. Em todo o mundo, isso tem diminuído de uma em quatro para uma em cinco.

As meninas também são mais saudáveis. Em comparação com meados da década de 1990, elas se tornam sexualmente ativas mais tarde e são mais propensas a usar métodos contraceptivos. As taxas de gravidez na adolescência caíram em um quarto globalmente e em dois terços no sul da Ásia e na América do Norte. As meninas têm menos probabilidade de sofrer mutilação genital feminina – e se opõem a essa tradição horrível expressando suas opiniões em alto e bom som. Enquanto em 2000 apenas 27% das mulheres e meninas nas regiões mais afetadas diziam que isso deveria ser banido, hoje 54% o fazem.

Quando as sociedades tratam bem meninas, os efeitos colaterais são surpreendentes. Uma menina que termina o ensino médio tem menos probabilidade de se tornar uma noiva criança ou uma mãe adolescente. A educação aumenta o poder aquisitivo e amplia as opções, então ela tem menos probabilidade de ser pobre ou sofrer violência doméstica. Ela ganhará quase o dobro de uma menina sem escolaridade.E ela vai passar uma variedade de benefícios para os filhos e investirá mais neles. Eles terão menos probabilidade de morrer na infância ou de crescerem atrofiados física ou mentalmente. Ela lerá mais para eles e os ajudará com o dever de casa. Tudo isso significa que eles aprenderão mais e ganharão mais como adultos. Um estudo recente do Citigroup e da Plan International estimou que, se um grupo de economias emergentes garantisse que 100% de suas meninas concluíssem o ensino médio, isso poderia levar a um aumento duradouro de seu PIB de 10% até 2030. 

Já que os benefícios de educar meninas são tão grandes, é um escândalo que alguns países ainda não tenham conseguido compreendê-los. Menos da metade das meninas no sul da Ásia, no Oriente Médio ou na África têm acesso aos métodos contraceptivos que elas possam desejar. Apenas uma menina em cada três ao sul do Saara termina o ensino médio. E embora as taxas de casamento infantil tenham caído pela metade no sul da Ásia, caíram menos do que na África (que agora tem a taxa mais alta do mundo) e permaneceram estagnadas na América Latina e no Caribe.

A pandemia de covid-19 pode prejudicar o progresso das meninas em países pobres ou até mesmo revertê-lo. Durante calamidades anteriores, elas foram as que mais sofreram. Quando o ebola forçou o fechamento de escolas na África Ocidental em 2014, muitas meninas abandonaram os estudos, nunca voltaram e acabaram grávidas ou como trabalhadoras infantis. O Unicef alerta que algo semelhante pode acontecer com a covid-19 – mas em uma escala maior. Estudos sugerem que, na próxima década, 13 milhões de casamentos infantis que teriam sido evitados podem ser levados adiante e mais 2 milhões de meninas podem ter seus genitais cortados. 

O risco de retrocesso é real. Portanto, é crucial que, mesmo que os governos de países pobres tenham que apertar o cinto, priorizem os gastos com educação e com meninas. Os doadores também devem ajudar. E as políticas devem ser combinadas. Persuadir as meninas a permanecer mais tempo na escola não é apenas uma maneira de ensinar a elas matemática, é também uma chance de vaciná-las e ensinar sobre controle de natalidade, consentimento e autoafirmação. Pode até ser uma oportunidade para aconselhar os pais a respeito das desvantagens do casamento infantil.

A adolescência é um momento crucial para as meninas. É quando muitos problemas de saúde surgem ou são evitados; e muitos outros sociais, também, da evasão escolar à automutilação. Só recentemente essa fase foi reconhecida como a mais importante para o desenvolvimento do cérebro após a infância. Façam isso certo e bilhões de meninas terão uma chance melhor de alcançar seu potencial máximo. Se errarem, elas terão vidas mais pobres e mais curtas, serão menos capazes de se defender, mais vulneráveis à coerção e mais propensas a passar esses prejuízos para a próxima geração. Então, façam a coisa certa e cuidem das meninas! / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

© 2020 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Tudo o que sabemos sobre:
direitos humanos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.