Kathleen Flynn/Reuters
Kathleen Flynn/Reuters

The Economist: Coronavírus se alastra pelo sul dos EUA

Região foi a que mais demorou a adotar o confinamento e tem grande número de idosos, negros e latinos

Redação, The Economist

23 de abril de 2020 | 05h00

 

“Não somos o Estado de Nova York”, afirmou a governadora do Alabama, Kay Ivey, em 26 de março, explicando porque não ordenou um confinamento em seu Estado. Na época, ela estava certa. Nova York contabilizava duas vezes mais o número de casos de coronavírus confirmados em todos os Estados do Sul dos EUA somados (os 11 Estados confederados mais Kentucky). 

No entanto, agora, o sul está se assemelhando mais a Nova York. O vírus vem se propagando por toda a região com uma velocidade inquietante. Entre o fim de março e o dia 20, o número de casos em uma dezena de Estados sulistas aumentou de 11,7 mil para 127,5 mil, três vezes mais rápido do que o aumento verificado no plano nacional.

Como em outros lugares, a maior concentração de casos tem sido nas cidades. A Grande Miami e New Orleans têm cerca de 15 mil, mais do que Los Angeles. “Nos dias após o primeiro caso confirmado em New Orleans, o número de pacientes no Estado de Louisiana cresceu mais rápido do que o observado em qualquer outra parte do mundo”, disse Gary Wagner, da Universidade da Louisiana. 

Em meados de abril, a área de New Orleans registrou a mais alta taxa de mortes por covid-19 entre todas as cidades americanas, e o Estado é o segundo, depois de Nova York, em número de mortes.

O sul também vem registrando um contágio mais acelerado nos subúrbios e em pequenas cidades. Dados do New York Times mostram que o número de doentes vem dobrando em cada condado. Em 18 de abril, eram 27 condados onde os casos dobravam a cada dois dias e meio. A taxa de aumento desde então caiu, mas as infecções contraídas no início de abril acarretarão hospitalizações e mortes no início de maio. Segundo Gary Wagner, quatro Estados do sul (Louisiana, Flórida, Tennessee e Georgia) registraram aumentos mais rápidos de casos – durante os primeiros 36 dias após o primeiro caso confirmado – do que a Espanha e a Itália.

Em consequência, o sul vem entrando no período mais perigoso em que os números são elevados, o crescimento ainda é alto e os sistemas de saúde começam a entrar em colapso. Segundo o Institute for Health Metrics and Evaluation, da Universidade de Washington, Nova York e New Jersey passaram o pico de demanda hospitalar, mas Geórgia e Texas não atingirão o pico antes do início de maio. “O pior ainda está por vir”, teme Peter Hotez, da Universidade Baylor em Waco, Texas. E isso é preocupante não só pelo problema em si, mas porque três coisas tornam o sul particularmente vulnerável à covid-19.

Em primeiro lugar, os governantes foram lentos na resposta ao vírus e estão sendo muito rápidos na flexibilização do confinamento. Quatro governadores de Estados sulistas esperaram até o início de abril para ordenar um confinamento, ou seja, quase duas semanas depois da ordem baixada na Califórnia. E, mal passaram três semanas, sete Estados reabriram ou pretendem reabrir tudo.

Como resultado, os sulistas estão falando e agindo diferentemente. Estão mais propensos do que outros americanos a afirmar que não estão preocupados com o vírus, segundo pesquisa da YouGov para a Economist. E demoraram a adotar o distanciamento social. A segunda razão da vulnerabilidade do sul é demográfica. A região abriga números desproporcionais de pessoas idosas, negras, hispânicas, doentes, sem um plano de saúde, e de americanos encarcerados. No condado de Sumter, na Flórida, que registra os maiores complexos residenciais de idosos, os asilos vêm tendo um crescimento exponencial de casos e a taxa de mortes pela covid-19 chega a 10%. 

Juntamente com os idosos vulneráveis, os negros apresentam taxas de mortalidade desproporcionalmente altas. Na Louisiana, eles representam 32% da população do Estado, mas 70% das mortes por covid-19. Os negros (e hispânicos) são mais propensos do que os brancos a viver em aglomerações e ter uma saúde mais debilitada. E 24 milhões deles (58%) vivem nos antigos Estados confederados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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