Etienne Laurent/EFE/EPA
Etienne Laurent/EFE/EPA

The Economist: Desastre ambiental da Califórnia é produzido por ela mesma

Estado ficou mais vulnerável com uma litania de regulamentos desatualizados e políticas autodestrutivas

The Economist, The Economist

15 de setembro de 2020 | 05h00
Atualizado 15 de setembro de 2020 | 08h52

Por décadas, os ambientalistas alertaram que o mundo pegaria fogo. Falavam, em grande medida, no sentido figurado. No entanto, as imagens de incêndios varrendo a estepe siberiana, a floresta amazônica, vastas regiões da Austrália e agora, mais uma vez, a Califórnia, deixaram mais claro que o planeta está, literalmente, em chamas. 

Novos incêndios se espalharam com ventos fortes e temperaturas escaldantes em todo o Estado. No dia 7 de setembro, a PG&E, concessionária de energia elétrica que atende o norte da Califórnia, desligou o fornecimento de luz para dezenas de milhares de residências, na tentativa de impedir que as linhas ativas produzissem ainda mais chamas. 

Até agora neste ano, apenas a Califórnia viu mais de 1 milhão de hectares queimando e mais de 3,7 mil construções destruídas – tudo antes dos meses de outono, quando os ventos de Santa Ana normalmente provocam as piores chamas anuais. Com mais de três meses para o fim da temporada de incêndios deste ano, poucos acreditam que o pior já passou.

Não é possível conter os incêndios em si: eles são alimentados pelas mudanças climáticas que se acumulam sobre um ecossistema que queima regularmente, porque o fogo faz parte de seu ciclo natural. Temperaturas mais altas e paisagens mais secas significam mais fogo. Mas o dano não precisa ser tão grande. Boa parte da bagunça da Califórnia é produzida por ela mesma. O Estado ficou mais vulnerável com uma litania de regulamentos desatualizados e políticas autodestrutivas.

A Califórnia merece crédito por ser o único Estado americano a ter adotado códigos de construção à prova de fogo nas áreas conhecidas como “interface urbano-rural”, onde as casas são esparsas e cercadas por vegetação alta e inflamável, muitas vezes em encostas íngremes nas quais o fogo sobe rapidamente. 

As evidências sugerem que os códigos de fato ajudam a limitar os danos. No entanto, esses códigos se aplicam apenas a novas estruturas e não fazem nada sobre a necessidade de reformar a grande maioria das casas e outras propriedades existentes. Tampouco há subsídios ou outros incentivos para encorajar pessoas e empresas a assumir a onerosa tarefa de fazer reformas para deixar as construções mais seguras.

Além disso, os códigos datam de 2008 e ainda não foram atualizados para incluir  as descobertas científicas mais recentes sobre as causas dos incêndios nas construções. 

Entre essas descobertas, há fortes evidências de que o primeiro 1,5 metro ao redor de uma estrutura é fundamental para sua defesa, mas, com muita frequência, consiste de materiais inflamáveis. Hoje, os paisagistas ainda podem fazer projetos em que casas, escritórios ou  mesmo hospitais são cercados por uma forração de casca de pinheiro, um combustível quase perfeito.

Os mapas de zoneamento e risco de incêndio, os quais determinam quem deve seguir os códigos de construção, precisam desesperadamente de uma revisão. Entre outras coisas,  eles classificam as áreas urbanizadas como “não queimáveis”, o que ignora a ciência que mostra que a maioria dos edifícios pega fogo quando as brasas voam até cerca de 1 quilômetro de distância da vegetação em chamas. 

Como resultado, comunidades que correm risco de incêndios florestais não estão submetidas às regras de segurança contra incêndios – às vezes, com consequências terríveis. Quando o bairro de Coffey Park, em Santa Rosa, foi destruído por um incêndio florestal, em 2017, a cidade prometeu reconstruir melhor, mas vacilou em razão dos temores infundados de que a construção à prova de fogo seria muito mais cara. Não foram  aplicados códigos rígidos de incêndio e a comunidade, mais uma vez, teve de ser esvaziada durante um incêndio, em 2019, em vez de buscar abrigo no próprio local.

A Califórnia está agravando seus problemas ao minar a correta precificação do risco, o que seria essencial para encorajar os proprietários de imóveis a se mudarem das áreas mais perigosas. O Estado impôs regras novas e mal concebidas às seguradoras, impedindo-as temporariamente de rejeitarem a renovação de apólices em áreas de alto risco. E os reguladores estão desencorajando o setor de usar o risco de incêndio como razão para recusar negócios em qualquer região do Estado.

Não é de admirar que a Califórnia esteja em um ciclo de queima-reconstrói-queima. Os incêndios não vão parar. Mas, se os líderes estaduais repensassem suas políticas equivocadas, eles pelo menos causariam menos estragos. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

© 2020 The Economist Newspaper Limited. Direitos reservados. Publicado sob licença. O texto original em inglês está em www.economist.com

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