Mariana Nedelcu/REUTERS
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The Economist: Eleitores desferem golpe no peronismo

As eleições primárias foram um referendo sobre o governo de Alberto Fernández e um presságio para as eleições de novembro na Argentina

The Economist, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2021 | 05h00
Atualizado 19 de setembro de 2021 | 05h00

“No peronismo, você sempre transa.” Quando Victoria Tolosa Paz, peronista que é a principal candidata do governo à Câmara Baixa do Congresso na Província de Buenos Aires, disse essa frase numa entrevista, ela viu sua campanha viralizar. Mas, ainda que Tolosa Paz, contadora, ficasse à vontade falando sobre sexo, ela parecia ignorar questões mais sérias. 

Em um país onde a inflação anual é superior a 50% e o desemprego está na casa dos dois dígitos, os eleitores têm outras preocupações. E, na votação nacional de 12 de setembro, eles sinalizaram sua desaprovação à coalizão governante, que obteve menos votos do que a oposição em 17 dos 24 distritos. Três dias depois, cinco ministros apresentaram suas renúncias.

A votação era tecnicamente uma primária para as eleições legislativas de novembro, na metade do mandato do presidente, quando serão escolhidos um terço dos senadores e metade dos deputados. Mas, no incomum sistema eleitoral da Argentina, as primárias funcionam mais como o primeiro turno de uma eleição de dois turnos. 

A votação é obrigatória e os eleitores recebem listas de candidatos de todos os partidos registrados. Eles escolhem os candidatos que querem que avancem para a eleição geral em cada cargo. As listas que ganham menos de 1,5% dos votos em seu distrito são excluídas. Então, além de limparem o campo, as primárias dão uma indicação de qual, provavelmente, será o resultado da própria eleição geral.

Na votação, até mesmo algumas fortalezas peronistas desmoronaram, criando “uma sensação de onda nacional”, diz Julio Burdman, diretor da consultoria Observatorio Electoral. Se os resultados se repetirem em novembro, a coalizão governista poderá perder a maioria no Senado e um número significativo de cadeiras na Câmara. Abatido, o presidente, Alberto Fernández, reconheceu a derrota: “Evidentemente, fizemos alguma coisa errada”.

Os resultados também sugerem que a oposição tem boas chances de conquistar a presidência em 2023. Embora Horacio Rodríguez Larreta, o prefeito de Buenos Aires, não estivesse na cédula, os candidatos que enfatizaram sua ligação com ele se saíram bem. Isso indica sua força dentro de seu partido, o Proposta Republicana (PRO), e lhe dá vantagem sobre os rivais, como o ex-presidente Mauricio Macri e Patricia Bullrich, uma ex-ministra. “Larreta pôs todas as cartas na mesa”, diz Juan Cruz Díaz, chefe do Grupo Cefeidas, uma consultoria de Buenos Aires.

Podem surgir outros concorrentes. Dentro da coalizão de oposição, outro partido, a Unión Cívica Radical, viu um aumento na votação de seus candidatos. E Javier Milei, economista libertário, obteve 14% dos votos na cidade de Buenos Aires. Isso poderia forçar o PRO, um partido de centro-direita, a se inclinar mais para a direita.

Os investidores esperam que uma vitória da oposição em 2023 possa pôr fim às fracassadas tentativas do atual governo de impulsionar o crescimento por meio de regulamentações, incluindo controles cambiais, congelamento de preços e proibições de exportações. O governo também imprimiu dinheiro para estimular a economia, mas só conseguiu impulsionar a inflação, que é a principal preocupação dos eleitores.

No início da pandemia, Fernández declarou: “Prefiro ter 10% a mais de pobres do que 100 mil mortos”. No final, a Argentina conseguiu os dois. Apesar de impor um dos lockdowns mais longos e rígidos do mundo, o governo foi incapaz de impedir a disseminação da covid-19. 

No ano passado, o PIB caiu quase 10%, mais do que qualquer grande economia da América do Sul, com exceção do Peru e da Venezuela. Com mais de 110 mil mortos pelo vírus, a Argentina tem uma das taxas de mortalidade mais altas do mundo.

Fernández também se viu manchado por vários escândalos. Em fevereiro, o ministro da Saúde renunciou depois que foi revelado que os comparsas do governo tinham acesso prioritário às vacinas – ele afirmou que a culpa era da “confusão” de seu gabinete.

Em agosto, foram divulgadas fotos que mostravam Fernández dando uma festa de aniversário ilegal para Fabiola Yañez, sua namorada, durante o lockdown. Um terço dos eleitores disse que o escândalo da festa de aniversário “mudaria ou influenciaria” seu voto. Os índices de aprovação do presidente estão oscilando em torno de 30%.

Depois de resultados tão desanimadores, Fernández, provavelmente, terá mais dificuldade para governar. Isso pode aumentar a influência da ala radical da coalizão liderada por Cristina Kirchner, vice-presidente e ex-presidente. Em março, após uma série de diatribes contra o judiciário, que está investigando Cristina por várias acusações de corrupção (todas as quais ela nega), o ministro da Justiça moderado foi substituído por um kirchnerista. 

Cristina falou de “funcionários públicos que não servem” e disse ao presidente para “colocar a casa em ordem” após o escândalo do partido. Os ministros que se ofereceram para renunciar, em 15 de setembro, são todos leais a ela. As saídas podem dificultar a vida do presidente. Alguns temem mais mudanças no gabinete, incluindo a saída de Martin Guzmán, o ministro da Economia da Argentina.

Essas trapalhadas podem complicar as negociações com o FMI, ao qual a Argentina deve cerca de US$ 45 bilhões. Neste ano, vários fatores fizeram com que o governo demorasse a chegar a um acordo com o fundo. O governo contava com um imposto único sobre a riqueza e o aumento dos preços das commodities, entre outras vantagens inesperadas, para encher os cofres do estado e pagar parte do que deve. 

Os resultados das primárias também podem levar Fernández a usar truques populistas para ganhar votos em novembro. Este ano, o governo expandiu os subsídios ao gás e estendeu os limites às exportações de carne bovina para manter os preços baixos.

“O principal risco é que mais políticas intervencionistas possam dificultar um acordo com o FMI”, afirmou Martin Castellano, do Institute of International Finance, uma associação comercial de Washington, nos EUA. Isso não seria do interesse do governo, que precisa de um acordo. 

Os altos preços das commodities não deixaram a vida muito melhor para as pessoas comuns. Enquanto isso, mesmo com as projeções otimistas do governo, não se espera que a economia recupere seu tamanho pré-covid até o próximo ano. E Tolosa Paz parece ter inadvertidamente, mas de forma conclusiva, provado que os eleitores querem substância do governo, não truques e slogans. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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