Andrew Testa/NYT
Andrew Testa/NYT

The Economist: Europa precisa de vacinação mais rápida

Protecionismo com as vacinas não é a resposta correta para crise sanitária que todo o bloco enfrenta atualmente

The Economist, The Economist

31 de janeiro de 2021 | 05h00

O clima na União Europeia (UE) é desalentador. Apenas 2% de sua população foi vacinada, em comparação com 7% nos Estados Unidos e 11% no Reino Unido. Quanto mais lenta a administração delas, mais pessoas morrem e maiores serão os danos econômicos.

Por isso, a notícia de que a AstraZeneca, a fabricante de vacinas anglo-sueca, talvez forneça menos de 40% das doses que a UE esperava no primeiro trimestre gerou fúria. Em meio às acusações, os políticos argumentam que, se a AstraZeneca se recusar a compensar parte do déficit com suprimentos de suas fábricas no Reino Unido, então a UE deveria retaliar parando as exportações para os britânicos de fábricas na Europa continental. Isso seria um erro grave. Existem maneiras melhores para a Europa acelerar a vacinação. As vacinas precisam ser tomadas com a mesma urgência que os esforços para conter outra crise econômica.

Os problemas da Europa derivam em parte da má sorte. Uma das vacinas que encomendou sofreu contratempos nos ensaios clínicos. Outras tiveram problemas iniciais na produção. Mas eles também são obras suas. A Comissão Europeia se encarregou de comprar vacinas, mas era inexperiente e lenta, fechando acordos meses depois do Reino Unido. Ela se atolou em discussões com as empresas farmacêuticas sobre responsabilidade e preço – meros detalhes em uma pandemia. O contrato com a AstraZeneca é confidencial, mas parece estipular apenas que a empresa se esforce ao máximo para fornecer as doses.

Ameaçar as empresas farmacêuticas e os países é uma forma de descarregar a frustração, mas é perigoso. Se a UE embargasse o fornecimento da vacina Pfizer, isso impediria os britânicos de receber sua segunda dose, porque o Reino Unido adiou o reforço. Se todos os países da complexa cadeia produtiva de vacinas ameaçassem a negociação de tudo, desde vidros para frascos a seringas, os suprimentos globais de vacinas poderiam ser paralisados. 

A UE estaria sabotando sua reivindicação de defender o Estado de direito, a fonte suprema de sua autoridade. Seria melhor se concentrar em aperfeiçoar a logística da vacina, oferecer ajuda às empresas e considerar a adoção da estratégia britânica de adiar a segunda dose até que os suprimentos sejam mais abundantes.

As consequências econômicas do atraso da vacina na Europa também precisam ser tratadas com urgência. Os níveis de atividade econômica sofrerão no primeiro semestre deste ano, e a recuperação será retardada ainda mais. Isso vai impor mais dor aos trabalhadores e às empresas, e também aumenta o risco de estagnação prolongada. O baixo crescimento e a baixa inflação podem se tornar uma característica permanente da área do euro, assim como é no Japão. As novas previsões do FMI sugerem que a economia da zona do euro permanecerá 6% abaixo de sua tendência antes da pandemia até o final deste ano. Os investidores esperam que a inflação em cinco anos enfraqueça em apenas 1% ou mais. Em contrapartida, o volume de produção dos EUA deve estar de volta aos trilhos até lá, com inflação de mais de 2%.

Você poderia pensar que os líderes europeus estão lançando grandes planos de gastos. Do outro lado do Atlântico, a Casa Branca espera liberar quase US$ 2 trilhões em estímulos, alimentando temores de superaquecimento no final do ano. A UE concordou com um fundo de recuperação de € 750 bilhões (US$ 900 bilhões), a ser financiado por meio de dívida emitida em conjunto. Mas isso está sendo desembolsado muito lentamente, então ainda há muito pouco estímulo na área do euro. Seu déficit fiscal está projetado para diminuir em mais de dois pontos porcentuais este ano, em parte em razão da expiração de medidas temporárias. Não adianta confiar no Banco Central Europeu para intervir: ele ficou sem munições e tem pouca capacidade para estimular mais a economia.

Para evitar se tornar parecida com o Japão, a Europa deve gastar como os EUA. Isso está finalmente sendo entendido. Helge Braun, conselheira de Angela Merkel, alertou esta semana que o “freio da dívida” da Alemanha, que visa limitar os empréstimos públicos, pode demorar anos. Bruno Le Maire, ministro das finanças da França, pediu que as regras orçamentárias da Europa sejam “reavaliadas para levar em conta a realidade”. Ainda assim, o perigo é que a Europa demore muito para responder. A tomada de decisões ponderadas já retardou a administração da vacina na Europa. Isso vai custar caro em vidas e meios de subsistência. Mais uma razão para garantir que a burocracia também não atrase a recuperação. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA 

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