Nico Lanese/EFE/EPA
Nico Lanese/EFE/EPA

The Economist: Frágil aliança entre a Liga e o M5S desandou na Itália

Vice-primeiro-ministro Matteo Salvini desencadeou um incêndio que já não pode controlar e Conte deve agora decidir entre a demissão e o voto de confiança

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2019 | 05h00

Muitas coisas derreteram neste tórrido verão europeu. O governo italiano também parece pronto para se dissolver em poucos dias, após a ação de Matteo Salvini, líder da Liga, o partido de extrema direita dominante na coalizão populista da Itália. Em um comunicado, ele disse que a parceria perpetuamente improvável da Liga com o movimento ambientalista a favor do bem-estar social 5 Estrelas (M5S) tornou-se inviável e a solução seria uma eleição antecipada.

De fato, os dois partidos entraram em conflito sobre quase todos os temas recentemente, desde a autonomia regional até a reforma judicial e a política de segurança, até salvaguardas contra a corrupção. Mas a crise que eclodiu na quinta-feira chegou como um choque, apenas três dias depois de a Liga e o M5S parecerem ter resolvido suas divergências em relação a um projeto de lei, patrocinado por Salvini como ministro do Interior, que introduz penalidades draconianas para ONGs que tentam trazer migrantes resgatados para portos italianos.

O rendimento dos bônus de dez anos da Itália saltou quase 20% depois que os mercados abriram ontem, em meio aos temores de que uma eleição possa trazer de volta ao poder um desenfreado Salvini, empenhado em acabar com as restrições orçamentárias da zona do euro num desesperado esforço para reviver a problemática economia italiana. Mais tarde, a Liga disse que estava apresentando uma moção de censura contra o governo do qual faz parte.

O líder da Liga desencadeou um incêndio. Um que ele não pode mais controlar. As decisões cruciais a partir de agora dependerão de duas figuras menos aventureiras: o primeiro-ministro Giuseppe Conte e o presidente Sergio Mattarella.

Conte, um professor independente de direito que recebeu o trabalho de Salvini e do líder do 5 Estrelas, Luigi Di Maio, no ano passado, deve agora escolher entre a demissão e a convocação do Parlamento para um voto de confiança. Inicialmente, ele indicou sua preferência pela segunda opção, argumentando que o líder da Liga deveria explicar a seus companheiros no Congresso por que havia decidido torpedear a experiência populista da Itália.

Claramente furioso com Salvini, o premiê o citou como tendo dito anteriormente em sua conversa hipoteticamente confidencial que ele queria que as eleições capitalizassem seu apoio nas pesquisas. Desde a última eleição, em março de 2018, a posição de beligerância contra os imigrantes de Salvini, combinada com uma campanha eleitoral incansável, mais que dobrou o apoio à Liga, que ele descreve como um partido para todos os italianos. As pesquisas mais recentes sugerem que ela tem 37% de apoio, o dobro da participação do M5S.

Mas um retorno às urnas não é inevitável. Outro resultado possível, ainda que menos provável, é que o popular Conte conquiste o apoio do Parlamento para um governo novo e diferente. Conforme os laços com a Liga ficaram sob pressão, o M5S tornou-se mais receptivo a abordagens de integrantes do Partido Democrata (PD), de centro-esquerda, que são a favor de uma coalizão entre eles.

Salvini manifestou-se preocupado com o crescente alinhamento do 5 Estrelas com o PD e uma das razões pelas quais decidiu afundar o governo pode ter sido a de eliminar o risco de uma coalizão alternativa de tendência esquerdista. Em todo caso, ele provavelmente agiu a tempo: a maioria dos eleitores e parlamentares do PD, incluindo o líder do partido, Nicola Zingaretti, continua contra uma aliança com o M5S.

Se, como parece mais provável, Conte perder a confiança do Parlamento na próxima semana, a bola estará no campo do presidente. A tradição determina que Mattarella deve consultar os presidentes de ambas as casas e os líderes dos grupos parlamentares da Itália para decidir o que fazer em seguida. A Itália nunca, desde que se tornou uma república depois da guerra, realizou uma eleição no outono. O temor sempre foi o de que isso roubaria do Parlamento um tempo necessário para se chegar a um orçamento para o ano seguinte.

Este ano, essa tarefa está mais difícil que nunca. A enorme dívida da Itália – 132% do PIB no fim do ano passado – continua crescendo. Mas, para consternação da Comissão Europeia, Salvini defende a imposição de brutais cortes de impostos em busca da taxa fixa que prometeu a seus partidários. Isso poderia levar o presidente a instalar um governo não partidário de independentes respeitados.

A possibilidade restante, mas mais plausível, é a eleição que Salvini busca. Para uma maioria parlamentar na Itália, um partido precisa de apenas cerca de 40% dos votos, uma vez que os partidos menores que não atingem o limite de 3% são eliminados, e pouco mais de um terço dos assentos são alocados em uma base na qual vence quem tiver mais votos.

Mesmo que a Liga fique aquém desse número, poderá contar com o apoio de um pequeno grupo de ex-neofascistas de linha dura, os Irmãos da Itália. O resultado seria, portanto, um governo mais à direita do que qualquer outro visto na Europa Ocidental desde a queda das ditaduras ibéricas nos anos 70 e outro com um mandato para aplicar um “choque fiscal” que poderia mergulhar a zona do euro em uma crise renovada muito antes de ajudar a reviver a economia em crise da Itália. Tenham medo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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