The Economist: Governantes de todo o mundo, leiam Marx

No bicentenário do filósofo alemão Karl Marx, seu diagnóstico sobre falhas do capitalismo ressurge surpreendentemente relevante

O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 05h00

Um bom subtítulo para uma biografia de Karl Marx seria “um estudo sobre o fracasso”. Marx afirmava que o objetivo da filosofia não é apenas explicar o mundo, mas melhorá-lo. Apesar disso, sua filosofia mudou drasticamente o mundo para pior: os 40% da humanidade que viveram sob regimes marxistas em grande parte do século 20 sofreram com a fome, gulags e ditaduras. Marx achava que sua nova ciência dialética permitiria tanto predizer o futuro quanto compreender o presente. Entretanto, ele falhou em prever dois dos maiores acontecimentos do século 20 – a ascensão do fascismo e o estado de bem-estar social –, e erroneamente acreditou que o comunismo fincaria raízes nas economias avançadas. O único regime de estilo marxista bem-sucedido é um entusiasta praticante do capitalismo (ou do “socialismo com características chinesas”).

Por que então o mundo continua vidrado nas ideias de um homem que ajudou a produzir tanto sofrimento? A razão óbvia é o poder da simplicidade dessas ideias. Marx pode não ter sido o cientista que acreditava ser, mas foi um pensador brilhante. Ele desenvolveu a teoria de uma sociedade dirigida por forças econômicas – não apenas pelos meios de produção, mas pelas relações entre patrões e empregados –, destinada a passar por determinados estágios. Era também um escritor brilhante. Quem não se lembra de sua máxima de que a história se repete “primeiro como tragédia, depois como farsa”? Marx foi um profeta dos últimos dias descrevendo a chegada de Deus: com o capitalismo caindo em desgraça, o homem é resgatado quando o proletariado se levanta contra seus exploradores e cria a utopia comunista. 

A segunda razão é a força de sua personalidade. Marx foi um ser humano abominável. Passou a vida à custa de Friedrich Engels. Era um racista inveterado, incluindo seu próprio grupo, o dos judeus. Mesmo nos anos 1910, quando a tolerância a tais preconceitos era maior, os editores de suas cartas se sentiram obrigados a censurá-las. Marx engravidou a empregada e enviou a criança para adoção. 

A terceira razão é um paradoxo: o próprio fracasso de suas ideias para melhorar o mundo vem assegurando sobrevida a elas. Após a morte de Marx, em 1883, seus seguidores – particularmente Engels – esforçaram-se para transformar suas teorias em um sistema fechado. A busca da pureza ideológica deu-se em meio a cruéis lutas de facções. Essa busca levaria também à monstruosidade do marxismo-leninismo, com suas pretensões à infalibilidade (“socialismo científico”), sua tendência ao hermetismo (“materialismo dialético”) e seu culto à personalidade (estátuas gigantescas de Marx e Lenin). 

O colapso dessa ortodoxia petrificada revelou um Marx mais interessante do que o visto por seus intérpretes. Suas grandes certezas foram respostas a grandes dúvidas. Suas teorias abrangentes resultaram de incontáveis retrocessos. Até o fim, ele questionou suas principais convicções. Preocupava-se em ter talvez errado quanto à tendência do lucro a cair. Tentava entender o fato de que, longe de levar a população à miséria, a Inglaterra vitoriana deu a ela uma crescente prosperidade. 

Mas a principal razão do contínuo interesse em Marx é que suas ideias são hoje mais relevantes do que durante décadas. O consenso do pós-guerra que deslocou o poder do capital para o trabalho e produziu uma grande melhora nos padrões de vida está desaparecendo. A globalização e o surgimento de uma economia virtual estão levando a uma versão de capitalismo que mais uma vez parece estar fora de controle. O retorno do poder do trabalho para o capital começa a produzir uma reação popular – e frequentemente populista. Não é de se estranhar que o livro sobre economia de maior sucesso nos anos recentes, O Capital no Século 21, de Thomas Piketty, ecoe o título da obra mais importante do pensador alemão.

Marx argumentava que o capitalismo é em essência um sistema de busca de lucro. Mais do que criar riqueza do nada, como gostam de imaginar, os capitalistas estão nos negócios para expropriar a riqueza de outros. Marx errou sobre o capitalismo em seu estado natural: grandes empreendedores fazem fortuna criando novos produtos ou novos meios de organizar a produção. Mas acertou sobre o capitalismo em sua forma burocrática. Hoje, em um número assustador, líderes capitalistas são mais burocratas corporativos que criadores de riqueza. Eles usam fórmulas eficazes para garantir que seus salários estejam sempre aumentando. Trabalham em estreita colaboração com uma crescente multidão de outros profissionais ávidos por lucro, como consultores administrativos (encarregados de pensar em novas desculpas para ganhar dinheiro), diretores profissionais de empresas (que se mantêm onde estão impedindo que o barco oscile) e políticos aposentados (que passam seus derradeiros anos extorquindo dinheiro de empresas que antes regulamentaram). 

O capitalismo, afirmava Marx, é por natureza um sistema global – “precisa infiltrar-se em toda parte, estabelecer-se em toda parte e criar conexões em toda parte”. Isso é tão verdadeiro hoje quanto na era vitoriana. Os dois eventos econômicos mais impactantes dos últimos 30 anos são o desmantelamento das barreiras para a livre circulação dos fatores de produção – bens, capital e, em alguma extensão, pessoas – e o surgimento do chamado mundo emergente: países da Ásia, África e Oriente Médio com potencial para se transformarem por meio da inovação. Empresas globais fincam bandeira onde é mais conveniente. Executivos ignoram fronteiras e viajam de um país para outro em busca de eficiência. A cúpula anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, poderia bem mudar seu nome para “Marx tinha razão”. 

Marx considerava que o capitalismo tendia ao monopólio, com capitalistas de maior sucesso excluindo rivais dos negócios num movimento para monopolizar o lucro. Novamente, essa parece ser uma descrição razoável do mundo comercial moldado pela globalização e pela internet. As maiores empresas do mundo não apenas estão crescendo em termos absolutos, mas vêm transformando um número enorme de empresas menores em meros apêndices. Novos gigantes econômicos estão dominando o mercado de modo nunca visto desde os chamados “barões gatunos” – poderosos empresários americanos do século 19. O Facebook e o Google ficam com dois terços dos lucros da publicidade online nos EUA. A Amazon controla mais de 40% do crescente comércio online do país. Em alguns países, o Google processa mais de 90% das buscas na web. 

Na visão de Marx, o capitalismo produzia um exército de trabalhadores que iam de um emprego para outro. Durante o longo boom do pós-guerra, isso pareceu perder o sentido. Longe de nada ter a perder “além de suas correntes”, os trabalhadores do mundo – pelo menos do mundo rico – tinham emprego seguro, casa no subúrbio e inúmeras posses. Hoje, porém, mais uma vez  a argumentação de Marx ganha força. Um mercado de empregos temporários mantém uma reserva de trabalhadores de todo tipo esperando ser convocados por recrutadores eletrônicos para trabalhar como entregadores de comida, faxineiros ou motoristas. Na Grã-Bretanha, os preços das casas estão tão altos que pessoas abaixo dos 45 anos têm poucas esperanças de comprar uma. A maioria dos trabalhadores americanos diz que tem apenas umas poucas centenas de dólares no banco. O proletariado de Marx está renascendo como “precariado”.

Entretanto, a reabilitação de Marx não vai mais longe. Seus erros superam em muito seus acertos. Sua insistência em que o capitalismo reduz o padrão de vida dos trabalhadores a mera subsistência é absurda. A genialidade do capitalismo é que ele reduz incessantemente os preços e aumenta a oferta de bens. Trabalhadores têm hoje acesso a coisas que antes eram consideradas privilégio de reis. O Banco Mundial calcula que o número de pessoas vivendo em extrema pobreza caiu de 1,85 bilhão em 1990 para 767 milhões em 2013, uma cifra que põe em perspectiva a lamentável estagnação do padrão de vida dos trabalhadores ocidentais. A visão de Marx de um futuro pós-capitalista é ao mesmo tempo banal e perigosa: banal porque apresenta as pessoas fazendo pouco ou nada de mais produtivo (caçando de manhã, pescando na hora do almoço, cuidando do gado à tarde, criticando os outros à noite) e perigosa por dar pretexto à autodenominada vanguarda para impor sua visão às massas. 

A grande falha de Marx, no entanto, foi subestimar o poder de reforma – a habilidade das pessoas de solucionar problemas evidentes do capitalismo por meio da discussão e do empenho. Ele acreditava que a história é uma carruagem rumando para um destino predeterminado e o máximo que os condutores podem fazer é se segurar no assento. Reformistas liberais, incluindo seu quase contemporâneo William Gladstone, provaram repetidamente que Marx estava errado. Eles não apenas salvaram o capitalismo de si mesmo, introduzindo reformas de longo alcance, como fizeram isso por meio de persuasão. A “superestrutura” triunfou sobre a “base” e o “cretinismo parlamentar” sobre a “ditadura do proletariado”. 

O grande tema do mundo surgido após a morte de Marx é a reforma em lugar da revolução. Políticos esclarecidos ampliaram a participação pública de forma a dar à classe trabalhadora uma voz. Eles renovaram o sistema regulatório de modo a que grandes concentrações econômicas fossem divididas ou regulamentadas. Reformaram o gerenciamento econômico para que os ciclos da economia fossem suavizados e o pânico contido. Os únicos países nos quais as ideias de Marx se firmaram são autocracias retrógradas, como Rússia e China.

A grande pergunta hoje é se essas conquistas poderão ser repetidas. As reações contra o capitalismo vêm crescendo – ainda que mais na forma de fúria populista que de solidariedade operária. Até agora, reformistas liberais têm se mostrado tristemente abaixo de seus predecessores, tanto em termos de abordagem das crises como da habilidade em encontrar soluções para elas. Eles deveriam aproveitar o 200.º aniversário do nascimento de Marx para reencontrar-se com o grande homem – não apenas para compreender as grandes falhas que ele brilhantemente identificou no sistema, mas para se lembrar do desastre que nos espera se fracassarem ao confrontá-las.

/ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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