FRANCOIS GUILLOT/ AFP
FRANCOIS GUILLOT/ AFP

The Economist: Incêndio em Notre-Dame é novo desafio para Macron

O impopular presidente, que já estava ocupado com os protestos dos coletes amarelos, terá mais um problema: quando o choque e a descrença se transformarem em raiva, muitos vão querer explicações sobre o fogo

The Economist, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2019 | 21h53

Eles se reuniram nas pontes sobre o Sena para assistir, incrédulos. Alguns parisienses estavam em lágrimas, a maioria assistia em um assustador silêncio. À meia-noite em Paris, o pior parecia ter passado. A principal estrutura em pedra da Catedral de Notre-Dame parecia ter escapado, e a ação imediata de centenas de bombeiros resgatou muitas obras de arte do prédio em chamas. Mas, assim como o telhado medieval e a torre posterior, os grandes vitrais da catedral do século 13 desapareceram e os danos no interior terão sido imensos.

O edifício de 850 anos sobrevivera à guerra, à revolução e à ocupação nazista, um emblema de resistência em face de uma história constantemente tumultuada. Foi o local da coroação de Napoleão em 1804 e inspiração para obras literárias, a mais famosa O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo, e um dos marcos mais emblemáticos da cidade, visitado por 13 milhões de turistas todos os anos. A Notre-Dame era ao mesmo tempo um local de culto para a Igreja Católica francesa e propriedade do Estado secular francês: um símbolo em si da história e do presente do país, em suas gloriosas contradições.

Levará tempo e uma investigação completa antes que a causa exata do incêndio seja determinada. Os primeiros relatórios do serviço de bombeiros de Paris sugeriam que não se trata de um caso de incêndio criminoso, mas de um acidente que eclodiu no telhado central, onde estavam sendo realizadas obras para a renovação da torre do século 19. Mas já estão sendo levantadas indagações sobre o planejamento de desastres no caso de um monumento dessa escala e importância nacional, situado em meio a ruas estreitas em uma ilha inacessível no centro da cidade.

A busca de alguém para se culpar absorverá a França durante semanas e meses por vir. A promotoria pública abriu um inquérito. Quando o choque e a descrença se transformarem em raiva, muitos vão querer saber exatamente quais as precauções tomadas por aqueles que trabalham na renovação, e porque foi tão difícil para os bombeiros impedir que o fogo se espalhasse. Mais de 400 foram convocados, mas demoraram séculos para chegar lá. Alguns vão olhar para Anne Hidalgo, a prefeita de Paris, que tuitou para dizer que não tinha palavras para a dor que sentia.

Outros ainda vão olhar para Macron, que visitou a cena e se comprometeu com a reconstrução da catedral. O impopular presidente já estava ocupado com os protestos dos coletes amarelos, que se arrastam desde novembro. Esta noite deveria marcar o momento em que ele se reconectou com o povo francês, e colocou sua reputação de domínio arrogante para trás. Agora ele tem um desafio diferente. Paris e toda a França estão sofrendo. A trágica devastação da Notre-Dame vai emocionar o país por um longo tempo – e colocar a capacidade do chefe de Estado da França de tocar os franceses com as palavras certas de consolo nesse severo teste.

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