Evan Vucci / AP
Evan Vucci / AP

The Economist: Kim Jong-un

Trump coloca o espetáculo em primeiro lugar

O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2018 | 03h00

Como espetáculo televisivo, era irresistível. A estrela de O Aprendiz caminhava autoritária e imponente ao longo do tapete vermelho, estendendo a mão, pronto para agarrar o negócio de sua vida. E, dominando isso, Kim Jong-un, líder da ditadura mais repressiva do mundo, seu terno estilo Mao Tsé-tung, penteado e mágoas importadas diretamente dos anos 50, que apenas nove meses antes haviam prometido “domar pelo fogo aquele velho americano mentalmente perturbado”. 

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No final, o fogo não se mostrou necessário: uma suspensão dos testes de armas e o convite para uma cúpula foram suficientes. O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que era uma “honra” reunir-se com Kim, que prometeu “a completa desnuclearização” em troca de garantias de segurança. Foi, disse Trump em uma conferência de imprensa, “um momento muito importante na história do mundo”.

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Da mesma forma que a história desempenha qualquer papel em tudo isso, há também sua tendência a se repetir. A Coreia do Norte prometeu o desarmamento seguidas vezes nos últimos 30 anos, apenas para voltar atrás, cada uma das vezes, depois de embolsar generosos incentivos. Se o frágil acordo que Trump e Kim assinaram em Cingapura for diferente, como Trump insiste, os EUA devem ser claros e precisos no detalhado regime nuclear que negociam com o Norte. 

Até agora, Trump parece mais ansioso em realizar as negociações em função de índices de audiência – ameaçando não apenas um acordo significativo, mas também a posição dos Estados Unidos na Ásia.

Afagos

Uma coisa inquestionavelmente boa veio da cúpula. Falar é muito melhor que a troca beligerante que aconteceu antes dela. A guerra parece estar fora da mesa – e por isso o mundo pode ficar grato.

A outra coisa boa é esse vislumbre de esperança. Nunca se pode descartar completamente a ideia de que Kim realmente quer mudar de direção. Ainda em seus 30 anos (como muita coisa sobre ele e seu país, sua idade exata é um mistério), ele pode se sentir desalentado ante a perspectiva sombria de uma vida inteira de arriscada diplomacia nuclear. Para que seu regime resista, ele precisa de riqueza suficiente para comprar armas convencionais e pacificar a classe média urbana, que nos últimos anos começou a desfrutar de alguns escassos luxos. 

Ele também pode se sentir desconfortável com a dependência de seu país da China para tudo, desde petróleo e remessas até o avião que o levou a Cingapura. Se Kim vê as armas nucleares em parte como fichas para barganha, seu investimento em ogivas e mísseis precisaria levá-los até onde os Estados Unidos fazem desse o seu momento de alavancagem máxima. Essa seria a hora de negociar.

Trump estava certo em testar essa possibilidade. O prêmio em potencial inclui não apenas o recuo da retórica de guerra, mas a remoção de uma ameaça persistente à Ásia e, mais recentemente, aos Estados Unidos. Além disso, dadas as disputas da China com os americanos sobre comércio e segurança, a Coreia do Norte poderia se tornar um modelo de como as duas superpotências podem trabalhar juntas, para o benefício de todos.

Medida a partir de tais aspirações, no entanto, Cingapura foi uma decepção. Trump gaba-se da tremenda conquista simplesmente por estar lá – na realidade, o Norte sempre quis negociar. Para Kim, a oferta de uma reunião entre iguais com o presidente dos Estados Unidos – validação externa de seu status divino em casa – foi algo que caiu do céu e era há muito desejado. 

Ele poderia ter usado a cúpula como um sinal de que quer reverter o histórico de engano da Coreia do Norte. Mas, apesar das negociações supostamente intensas, antes de Cingapura, o acordo da semana passada não contém quaisquer compromissos obrigatórios ligados aos norte-coreanos.

“Desnuclearização completa” parece bom, mas o Norte não estabeleceu um cronograma. Pode, como no passado, tomar o termo para se referir à retirada das tropas americanas da Coreia do Sul, ou mesmo quando os próprios Estados Unidos se desarmarem, como seriam teoricamente obrigados a fazer, sob o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) – que, a propósito, o Norte abandonou. 

O acordo também não menciona verificação. A equipe de Trump insiste que isso seria intrusivo, mas a “prova” de destruição de sites de testes de Kim até agora envolveu permitir que alguns poucos jornalistas vissem, de uma distância segura. A verificação deve envolver inspetores com o direito de visitar qualquer uma das centenas de instalações civis e militares da Coreia do Norte no curto prazo. A disposição de Kim de aceitar tal regime é o verdadeiro teste para saber se o acordo é sério ou não.

De uma forma preocupante, Trump parece determinado a ser o vendedor do negócio. Na coletiva de imprensa, ao comentar as qualidades de Kim, ele anunciou que os Estados Unidos estavam cancelando de forma insensata os exercícios militares com a Coreia do Sul, enquanto as conversas com o Norte estavam em andamento. 

Como o Exército do Sul, parcialmente circunscrito, precisa de treinamento frequente para permanecer pronto para a batalha, essa foi uma grande concessão pela qual ele parece não ter recebido nada. Trump diz que as sanções ao Norte permanecerão em vigor até que o processo de desarmamento seja irreversível. Ele também reconhece que a China já está aplicando as sanções de forma menos meticulosa, mas diz que está “tudo OK”. 

Kim deve saber que Trump vai lutar para que outros países exerçam pressão sobre o Norte novamente. Trump tem muito a ver com a condução do acordo norte-coreano, mas, da mesma forma como abandonou o bom acordo nuclear iraniano, ele também pode estar disposto a abandonar um mau acordo norte-coreano, ou Kim o manterá na incerteza. Esse é o teste sobre a seriedade de Trump.

Desastre

Os aliados asiáticos dos EUA estão certamente preocupados com o fato de que Trump vai sacrificar sua segurança às custas de um acordo sem futuro. Ele não alertou nem a Coreia do Sul nem o Japão de que estava cancelando os exercícios militares (usando uma frase norte-coreana, ele os chamou de jogos de guerra “provocativos”). 

O presidente falou sobre os compromissos asiáticos dos Estados Unidos como um fardo dispendioso ao mesmo tempo em que dizia que queria levar suas tropas para casa. Ele elevou a imparcialidade do comércio, como se a segurança fosse uma condicional. 

Lidar com a Coreia do Norte é uma chance para Trump fortalecer o TNP e a “pax americana”. Ele parece mais propenso a enfraquecer ambos, com o risco de corridas armamentistas regionais e até mesmo a guerra.

Kim passou de pária a estadista em seis meses. O tratamento abominável dado por seu regime ao seu próprio povo foi em grande parte esquecido. Suas repetidas violações de tratados e resoluções do Conselho de Segurança da ONU foram parcialmente perdoadas. Obter qualquer tipo de acordo com tal figura é desagradável. Já obter um mau acordo seria um desastre moral e diplomático. / Tradução de Claudia Bozzo

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