Leonardo Fernandez/REUTERS
Leonardo Fernandez/REUTERS

The Economist: Maduro defende cura charlatã para a covid

Enquanto isso, hospitais venezuelanos estão sem água, as vacinas são escassas e há fila para enterros e cremações

The Economist, The Economist

01 de maio de 2021 | 23h59

O mercado clandestino na Venezuela deu uma guinada sombria nas últimas semanas. Em grupos de bate-papo online, onde os esgotados moradores de Caracas negociam de tudo – de detergente a dólares americanos –, a covid-19 é o tema dominante. São comuns os apelos emocionados por remédios. O preço das máscaras e tanques de oxigênio está disparando. O mesmo ocorre com o aluguel dos grandes refrigeradores necessários para preservar os corpos no calor tropical, à medida que aumentam as listas de espera para enterros e cremações.

Mas, se você ligar na televisão estatal, verá um outro mundo. Todos os domingos, o ditador Nicolás Maduro se dirige à nação. Exibem-se alas de leitos hospitalares vazias. A contagem oficial relativamente baixa de mortes na Venezuela é comparada com a carnificina em outros lugares. Maduro rotula a variante P.1, que está se espalhando pela América do Sul, de “mutação Bolsonaro”, culpando o presidente populista do Brasil pelo aumento dos casos.

A arrogância de Maduro parece fora de lugar. No primeiro ano da covid-19, a Venezuela foi, em grande medida, poupada. Mas foi sorte. Com a economia em queda e as sanções dos Estados Unidos se acirrando, o número de visitantes estrangeiros já tinha começado a cair. Antes da pandemia, pelo menos uma dúzia de grandes companhias aéreas pararam de oferecer voos ao país. Mas, desde março, os casos têm aumentado. Mesmo nos números inacreditavelmente baixos apresentados pelo governo houve cerca de mil novas infecções quase todos os dias em abril, um recorde.

O país está mal preparado. Em 2019, 70% dos hospitais públicos não tinham água potável, de acordo com o Médicos pela Saúde, uma rede médica nacional. Os necrotérios agora estão lotados, diz Douglas Leon Natera, presidente da Federação Médica da Venezuela. Os profissionais da área de saúde que fornecem estatísticas detalhadas que contradizem as afirmações do governo correm o risco de prisão, alertou ele.

Em vez de introduzir lockdowns eficientes, Maduro impôs um procedimento bizarro de uma semana de fechamento após uma semana de abertura, segundo o qual as lojas não essenciais são fechadas durante uma semana e, em seguida, autorizadas a reabrir. “Ele pensa que o vírus desaparece a cada duas semanas”, brinca um sarcástico caraquenho. Maduro também divulgou uma cura “milagrosa” para a covid-19, que ele afirma ter sido desenvolvida por cientistas venezuelanos. A infusão do charlatão parece ser feita de um extrato de tomilho. Suas afirmações levaram o Facebook a congelar sua página por um mês.

Vacinas

As vacinas ainda estão muito distantes. Maduro recebeu sua primeira dose em 6 de março. Mas quase todo mundo está esperando há meses. Menos de 2% dos 18 milhões de adultos da Venezuela receberam sua primeira aplicação, de longe a pior distribuição na América do Sul. As vacinas disponíveis (cerca de 880 mil da Rússia e da China) são politizadas. E ficaram restritas às pessoas que têm um cartão de fidelidade do Estado conhecido como carnet de la patria, que se encontra principalmente nas mãos de pessoas que recebem ajuda do estatal e, portanto, apoiam o governo.

Em janeiro, até 2,4 milhões de doses da AstraZeneca foram reservados para a Venezuela como parte do consórcio Covax, da Organização Mundial da Saúde (OMS). O problema é pagar por elas. A Venezuela é pobre o suficiente para se qualificar para receber vacinas grátis, mas, absurdamente, ainda se classifica como uma “nação rica”, porque desde 2014 o governo Maduro se recusa a fornecer dados econômicos precisos ao Banco Mundial.

Em março, Juan Guaidó, líder da oposição e reconhecido por muitos governos democráticos como o presidente legítimo, estava trabalhando em um acordo pelo qual US$ 30 milhões de fundos do governo venezuelano congelados nos Estados Unidos seriam liberados para pagar pelas vacinas. Maduro parece ter atrapalhado o acordo, alegando que “relatórios técnicos” locais descobriram que a vacina da AstraZeneca tinha efeitos colaterais indesejáveis.

Semanas depois, no entanto, a Venezuela aderiu ao Covax, sob termos mais caros. Em abril, o governo disse que havia feito dois adiantamentos para 11 milhões de vacinas, estimadas em um total de cerca de US$ 120 milhões, mas se recusou a especificar a origem dos fundos. Mas se o governo continuar rejeitando a vacina da AstraZeneca as doses talvez só cheguem à Venezuela depois de julho. “A impressão que dá é que ninguém está com pressa”, diz Miguel Pizarro, político que representa Juan Guaidó nas Nações Unidas. “Todos estão com medo e é isso que uma ditadura quer.” / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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