High Council for National Reconciliation Press Office/Handout via Reuters
High Council for National Reconciliation Press Office/Handout via Reuters

The Economist: Missão dos EUA no Afeganistão foi um fiasco

Operação, que custou US$ 2 trilhões, foi marcada por erros que Washington parece destinado a repetir

The Economist, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 05h00

Cinco anos atrás, a Embaixada dos Estados Unidos em Cabul revelou uma reforma de US$ 800 milhões. Com 1.500 estações de trabalho e 800 camas dentro de suas muralhas, era um terço maior do que a segunda maior embaixada dos EUA, a de Bagdá.

Enquanto isso, a representante especial de Barack Obama no Afeganistão, Laurel Miller, estava com a consciência dividida.

Os tópicos do Departamento de Estado insistiam que ela deveria falar do “compromisso duradouro dos Estados Unidos com o Afeganistão”.

Mas Miller reconhecia que o esforço americano, orçado em um US$ 1 trilhão, já estava fazendo hora extra. “A expressão era desonesta o suficiente para me fazer estremecer”, lembra ela. “Não achava que a justificativa estratégica para a missão ou o compromisso político fossem ‘duradouros’”. Ela evitou o termo.

Tudo isso pode ter soado estranho em Cabul, à sombra da cidadela de concreto dos Estados Unidos. Mas era bastante óbvio em Washington. Obama, que despachara mais 47 mil soldados para o Afeganistão no início de sua presidência, perdera a fé na missão.

Uma redução acentuada nas baixas – o ano em que a embaixada foi reformada não registrou nenhuma morte em combate – significou que o Congresso e a mídia passaram a ignorá-la. E o establishment da política externa nunca prestara a atenção que suas reivindicações sobre o sangue e o tesouro americanos exigiam.

Se as guerras do Vietnã e (em menor grau) do Iraque inspiraram gerações de especialistas da área, o pequeno elenco de especialistas americanos em Afeganistão mudou pouco desde 2001. Como passou um bom tempo no país durante a primeira década da missão americana, embora pouco tempo na segunda, este colunista às vezes é confundido com um especialista. Isto mostra como é baixo o padrão que se estabeleceu para a expertise no Afeganistão.

Essa incompatibilidade entre o vasto investimento dos Estados Unidos no Afeganistão e a escassa atenção dispensada por Washington pode parecer paradoxal. Na verdade, ajuda a explicar como ocorreu o lento desastre americano no Afeganistão.

Desde o início, o esforço americano não estava apenas mal informado sobre o país: o problema não era apenas o Afeganistão. Depois de bombardear o Taleban até arrancá-lo do poder, o governo de George W. Bush foi aconselhado a chegar a um acordo com o grupo.

Este não constituía uma ameaça direta para os Estados Unidos. E, embora impopulares em Cabul, os mulás representavam uma grande população do sul do Afeganistão que repugnava seu rival do norte – e representante americano. Ainda assim, o governo considerou qualquer distinção entre terroristas e seus cúmplices incompatível com sua visão ampla da guerra contra o terrorismo.

Então considerou o Taleban irreconciliável. Os Estados Unidos passaram quase duas décadas sendo punidos por esse erro.

Uso da força

A insurgência que se originou daí garantiu que o esforço americano de estabilização fosse dominado pelos generais, para quem a força é a resposta para a maioria dos contratempos – e a política local é uma distração. Mas a insurgência, que tinha sua base no vizinho Paquistão, era imbatível. O resultado tem sido as terríveis ondas de violência que custaram dezenas de milhares de vidas afegãs e deixaram muitas pessoas do país ansiando por algum tipo de ordem. Foi nessa circunstância que os infelizes mulás surgiram na década de 90; é por isso que sucessivos distritos rurais estão caindo em suas mãos tão facilmente quanto antes.

O estudioso Robert Kagan sugeriu que a história de grandes erros de política externa americana está ligada a seus sentimentos isolacionistas. Para superá-los, os presidentes americanos adotam esquemas grandiosos e irrealistas, sugere ele. E, à primeira vista, o Afeganistão parece uma prova disso. Em busca de um ideal utópico – erradicar o terrorismo – os Estados Unidos buscaram produzir um inédito Estado afegão ao mesmo tempo em que lutavam uma guerra invencível.

Mas o contexto da guerra mudou. A opinião pública teve pouca participação nisso, porque, para a maioria dos americanos, ela foi invisível. Em 1968, a América tinha meio milhão de recrutas e voluntários descontentes no Vietnã. No auge da onda de Obama, tinha 98 mil soldados profissionais no Afeganistão – insuficientes para lotar os maiores estádios de futebol universitário – e sofreu baixas modestas. Em um país de 330 milhões de habitantes – onde uma pequena minoria tem alguma conexão com as Forças Armadas – a guerra mal foi percebida.

Isso deu aos sucessores de Bush liberdade para tentar consertar seus erros. Mas Obama e Trump dobraram a aposta, inicialmente se curvando à demanda dos generais por mais tropas e mais combates. Eles o fizeram, pelo menos em parte, por razões políticas. Obama falara tanto sobre a importância da guerra na campanha que se sentiu compelido a lhe dar um novo impulso. Trump queria fazer Obama parecer fraco. Mas, em ambos os casos, os erros se deram também por falta de uma sugestão alternativa mais convincente.

Os falcões da segurança nacional continuaram contra a única maneira concebível de encerrar o conflito: as negociações com o Taleban. Poucos na intelectualidade da política externa, que passou a considerar o Afeganistão um atalho estratégico, questionaram essa visão. Obama acabou repassando a guerra mais ou menos como a havia recebido, com pouca convicção de que ela poderia terminar bem. Trump, é preciso reconhecer, lançou negociações de paz com o Taleban, mas somente depois de sinalizar sua intenção de retirar as tropas restantes, condenando as negociações desde o início. Isso sugeria que os Estados Unidos já não se importavam com quem controlava o Afeganistão – uma posição que Joe Biden, ao prosseguir com a retirada, sublinhou. Que jeito de torrar US$ 2 trilhões.

Pode-se pelo menos esperar que as lições desse desastre sejam aprendidas. A principal é muito óbvia: uma política externa excessivamente militarizada que abraça objetivos irrealistas está sujeita ao fracasso. No entanto, como Kagan e muitos outros mostraram, isso parece ser mais uma característica fundamental da política externa americana do que um desvio. E, de fato, a luz – quase imperceptível – que o Afeganistão lançou sobre o sistema de Washington sugere que a guerra no país pode ser esquecida com especial rapidez. Miller prevê que o Afeganistão em breve mal será mencionado nos círculos de política externa dos Estados Unidos. Ela tem um histórico sólido de previsões certas. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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