Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
(AP Photo/Andy Wong)
(AP Photo/Andy Wong)

The Economist: Na China a nostalgia patriótica é um grande negócio

Uma das atrações mais curiosas no país são os turistas usando réplicas de uniformes do Exército Vermelho

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 05h00

Há cinco ou seis anos, quando muitos chineses ainda associavam a cultura americana a tudo que era novidade e diversão, o Halloween era um grande negócio em Caoxian. Esse condado na zona rural se vangloria de ser a maior fonte de fantasias baratas para festas infantis e concertos escolares, assim como para peças teatrais que às vezes são encenadas nos locais de trabalho, de pequenas fábricas a ministérios do governo. 

Até pouco tempo, os empreendedores de Caoxian conseguiam viver um ano com as vendas de um mês de fantasias de abóboras, fantasias de bruxas e outros apetrechos típicos do Halloween, diz Ren Yafeng, um comerciante local, talvez exagerando um pouco.

Mas nos últimos três anos a imagem dos EUA obscureceu e os consumidores se tornaram mais nacionalistas, impelidos pela propaganda do Partido Comunista e por quatro anos de bravatas do presidente Donald Trump. Os sinais do mercado foram rapidamente recebidos em Caoxian, pois este centro de manufatura na Província de Shandong está ligado aos clientes pelo comércio eletrônico. Segundo autoridades da cidade de Sunzhuang, onde Ren Yafeng nasceu, quase três quartos das famílias vendem produtos em plataformas online como Taobao, 1688 e Pinduoduo.

Este mês é comemorado o 100.º aniversário da fundação do Partido Comunista. Durante o ano todo chegou uma grande quantidade de encomendas a Caoxian de réplicas de uniformes do Exército Vermelho que eram usados pelos guerrilheiros comunistas.

As escolas vêm comprando os uniformes em tamanho infantil há mais de uma década para serem usados em representações teatrais. Mas não são apenas crianças que os usam. Essas fantasias hoje vêm sendo adotadas por grupos que visitam locais de “turismo vermelho” autorizados pelo partido, como as bases usadas durante a Longa Marcha e os campos de batalha onde os comunistas sofreram perdas terríveis, mas inspiradoras. Desde janeiro, Ren já despachou 100 mil uniformes do Exército Vermelho do seu depósito localizado num cruzamento entre campos de milho e um lago de patos. Ele espera vender o mesmo volume antes de o ano acabar.

 A visão de homens e mulheres adultos vestidos como soldados dos anos 1930, jaqueta azul-claro ou cinza, calças e boinas octogonais com uma estrela vermelha no alto, é um dos espetáculos da China moderna. Eles são vistos caminhando ofegantes pelas trilhas do Exército Vermelho em Jinggangshan, uma montanha ao sul da China considerada o berço da revolução. São ouvidos declamando poemas de Mao em Yan’an, antiga sede do partido, e cantando hinos vermelhos em torno de cubas de sopa usadas pelos soldados muitos anos atrás. 

Eles são peregrinos, pois o partido, embora ateu, fala abertamente sobre lugares “sagrados”, “mártires”, e o coração pleno de fervor revolucionário. As fantasias contribuem para a fé. Documentos oficiais falam de turistas sendo inspirados a “usar uniformes do Exército Vermelho, ingerir a mesma comida dos soldados e seguir os caminhos percorridos pelo Exército Vermelho”. Alguns visitantes são burocratas em viagens de estudo pagas pelo governo, ou trabalhadores de empresas privadas ávidos para mostrar lealdade ao partido. Guias comerciais também alugam ou vendem uniformes para turistas individuais. A devoção à autenticidade varia, com alguns visitantes combinando os uniformes com tênis e sacolas de plástico repletas de petiscos dos tempos modernos. Os mais atentos aos detalhes usam os antigos chinelos de tecido, mochilas de lona e armas de brinquedo.

As fantasias infantis ainda constituem o grosso das vendas de Ren, mas as encomendas para adultos vêm prosperando. O uniforme mais barato custa 25 yuans (US$ 3,90) ao passo que aqueles mais duráveis podem chegar a 100 yuans, incluindo cinto e boina. Ren diz ter observado um primeiro forte aumento em 2015, quando do 70.° aniversário da vitória da China contra o Japão, e encomendas cada vez maiores das bases revolucionárias nos últimos dois ou três anos.

 Especialmente no ano passado, quando os lockdowns por causa da covid-19 forçaram o cancelamento de apresentações teatrais, muitos fabricantes de fantasias em Caoxian diversificaram sua produção, confeccionando outros artigos de moda patrióticos, vendendo túnicas supostamente antigas conhecidas como Hanfu para compradores individuais. Esses trajes e túnicas são inventados, cim base numa mistura de estilos históricos. Mas são comprados por muitos chineses da etnia han, que constituem mais de 90% da população. Eles sentiam falta de uma roupa étnica que pudessem chamar de sua, diferente das usadas por tibetanos e outras minorias. Mesmo as fantasias infantis vêm se tornando mais patrióticas. As que evocam a famosa saga folclórica, “Jornada ao Oeste”, são vendidas rapidamente, como também as inspiradas em uma série de desenhos animados dos anos 1980 sobre sete irmãos nascidos de cabaças mágicas. Em Sunzhuang os moradores consideram o orgulho nacional um sinal de progresso, sugerindo que à medida que os chineses enriquecem e não se preocupam mais com sua próxima refeição, suas mentes se voltam para “coisas mais importantes”, como a própria história. O secretário do partido em Sunzhuang, antes encorajava os moradores a buscarem emprego como trabalhadores migrantes. Hoje, ele os incentiva a permanecerem na região e ganhar dinheiro vendendo produtos online. Se esses produtos refletem um amor pelo país e pelo partido, “todos se beneficiam”, afirma.

No caminho para o depósito de Ren, a fila de calças de uniforme de cor bege secando perto de uma pilha de espigas de milho revela um negócio ainda mais especializado. Atravessando um portão da casa da fazenda há uma oficina no quintal com dezenas de pessoas costurando fantasias de uniformes usados por tropas inimigas décadas atrás. 

Dentro, as bancadas de trabalho estão repletas de boinas com a insígnia azul e branca do regime nacionalista que o Exército Vermelho derrubou em 1949. Há caixas repletas de uniformes em preto e branco da polícia nacionalista que perseguia os comunistas em Xangai e outras cidades. Esses uniformes são usados por figurantes em vídeos ou peças de teatro, imagina o proprietário da oficina, Ren Gen. Ele recebe encomendas apenas para tamanho adulto, talvez porque os pais não queiram que os filhos representem vilões.

É revelador que os uniformes azuis ou cinzentos das primeiras décadas do partido dominem esse mercado de réplicas. A demanda é menor no caso dos uniformes verdes que eram usados nos últimos anos de Mao no poder, até mesmo pelas Guardas Vermelhas durante a Revolução Cultural, entre 1966 e 1976. Em Caoxian, como em outros lugares, nesse período sombrio templos foram destruídos e as pessoas de histórico de classe social equivocado ou com uma tênue ligação com o mundo exterior eram torturadas por grupos violentos. “As pessoas na verdade não querem mencionar essas coisas”, diz um morador local lembrando aqueles horrores. A nostalgia é aprovada pelo partido e é lucrativa na China atual. E é também seletiva. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.