Alexander Zemlianichenko/AP
Alexander Zemlianichenko/AP

Na parceria entre Rússia e China, Pequim ganha muito mais

O quanto melhor ela pode se tornar só ficará claro daqui a alguns anos

The Economist, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2019 | 16h10

É o triângulo amoroso da política global. Desde a 2ª Guerra, a China, a Rússia e os Estados Unidos trocaram repetidamente de parceiros. O colapso do pacto sino-soviético após a morte de Josef Stalin foi seguido pela visita de Richard Nixon à China em 1972 e à détente de Mikhail Gorbachev com a China há 30 anos. 

A harmonização de hoje, entre Vladimir Putin e Xi Jinping, foi cimentada em 2014, depois da anexação da Crimeia pela Rússia. Em cada um dos casos, o país deixado sozinho sempre parecia pagar um preço, ao ser pressionado militar e diplomaticamente.

Desta vez é diferente. Embora os Estados Unidos estejam excluídos, o custo está caindo principalmente sobre a Rússia. A China domina todos os aspectos da parceria dos dois países.

 Sua economia é seis vezes maior (em paridade de poder de compra) e seu poder está crescendo, mesmo com o declínio da Rússia. O que parecia ser uma maneira brilhante para Putin de virar as costas ao Ocidente e aumentar a influência da Rússia se aparenta a uma armadilha da qual seu país achará difícil escapar. Longe de ser um parceiro igual, a Rússia está se tornando um afluente chinês.

Isso pode parecer um julgamento grosseiro. A Rússia ainda é um país de armas nucleares com um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Modernizou suas forças armadas e, como o fez na Síria, não tem medo de usá-las.

 Esta semana aviões de guerra russos e chineses realizaram o que pareceu ser uma patrulha aérea conjunta pela primeira vez, gerando alarme quando a Coreia do Sul disse que um avião russo havia invadido seu espaço aéreo.

Moscou  depende cada vez mais de Pequim

Mas a verdadeira notícia é a rapidez com que a Rússia está se tornando dependente de seu gigante vizinho. A China é um mercado vital para as matérias-primas russas: a Rosneft, a companhia nacional de petróleo da Rússia, depende do financiamento chinês e está cada vez mais desviando seu petróleo para a China. 

Enquanto a Rússia tenta fugir da hegemonia do dólar, o iuane está se tornando uma parte cada vez maior de suas reservas em moeda estrangeira (a participação do dólar caiu pela metade, para 23% em 2018, enquanto a participação do iuane cresceu de 3% para 14%). 

A China fornece componentes vitais para os avançados sistemas de armas da Rússia. E a China é a fonte dos equipamentos de rede e segurança que Putin precisa para controlar seu povo. 

Acordo para tecnologia de vigilância

No mês passado, a Rússia fechou um acordo com a Huawei, uma empresa chinesa de telecomunicações na qual os Estados Unidos dizem não confiar, para desenvolver equipamentos 5G - assim enraizando firmemente a Rússia na metade chinesa da splinternet (a divisão da internet, ou a chamada “balcanização” da internet).

Isso serve muito bem à China. Ela quer uma amizade duradoura com a Rússia, não só para garantir sua fronteira norte, cenário de confrontos em 1969, e uma fonte de preocupação na década de 1990, quando a Rússia parecia prestes a ficar à deriva, na órbita do Ocidente. 

A Rússia também serve como uma vanguarda entusiasta na campanha da China para arruinar as ideias ocidentais de direitos humanos universais e democracia, que ambos os países veem como um incitamento às “revoluções da coloridas”.

Putin pode apontar vários argumentos a favor de sua parceria com a China, além de sua hostilidade conjunta ao projeto liberal. Uma é a conveniência. As sanções ocidentais, impostas após sua anexação da Crimeia, a intromissão nas eleições americanas de 2016 e o uso letal de um agente nervoso no Reino Unido, dois anos depois, deixaram a Rússia sem muitas alternativas. 

Parceria entre Xi e Putin na Síria e na Crimeia

Xi Jinping também deu cobertura à Rússia para a sua ação militar na Síria e, em certa medida, na Crimeia. E, em contraste com o final do século 17, quando Pedro, o Grande, considerou a Europa como a fonte do progresso, Putin pode argumentar plausivelmente que o futuro agora pertence à China e ao seu sistema de capitalismo de Estado.

No entanto, Putin está enganado. Para começar, a versão russa do capitalismo de estado é uma licença para tirar vantagens e minar a produtividade para que a panelinha que o cerca possa roubar livremente dos cofres nacionais - razão pela qual o investimento chinês na Rússia é bastante limitado. 

Há também uma contradição entre a pretensão de Putin de restaurar a grandeza russa e a realidade cada vez mais óbvia de seu papel de subordinação à China. Isso cria tensão na Ásia Central. Como a estabilidade na região é importante para a segurança interna da China - ela quer que a Ásia Central mantenha o extremismo islâmico a uma distância segura -o Exército de Libertação do Povo está estacionando tropas no Tajiquistão e realizando exercícios lá, sem consultar a Rússia.

Quando virá a ruptura?

E, em um certo nível, os objetivos da Rússia e da China divergem. Há um limite para o quanto os russos comuns renunciarão às liberdades ocidentais. Se o regime mantiver o poder por meio da tecnologia chinesa, alimentará a ira popular em relação à China e seus clientes russos.

 Quem pode dizer quando as tensões aparecerão? Imagine-se que Putin decida deixar o cargo em 2024, quando a constituição diz que ele deverá, e que seu sucessor tente marcar a mudança, distanciando a Rússia da China e voltando-se para a Europa. 

Só então se tornará claro o quão profunda é a influência da China e quanta pressão ela está preparada para exercer para manter sua influência. O próximo presidente da Rússia pode achar que o país perdeu espaço de manobra.

Será que isso significa que o resto do mundo - especialmente o Ocidente - deve procurar afastar a Rússia do abraço da China, antes que seja tarde demais? Essa ideia vai seduzir aqueles diplomatas e analistas para os quais a Rússia é importante demais para afastá-la. Mas isso parece improvável.

O que os Estados Unidos podem fazer?

Os Estados Unidos não sofrem hoje com o alinhamento de Xi e Putin como teria acontecido na Guerra Fria. Embora a Rússia e a China realmente enfraqueçam a noção ocidental de valores universais, com o presidente Donald Trump na Casa Branca, essa doutrina não está, infelizmente, sendo aplicada universalmente de qualquer forma.

Além disso, a influência da China sobre a Rússia tem compensações. Uma potência irada em declínio como a Rússia é perigosa; pode sentir-se tentada a atacar para mostrar que ainda é uma força a ser considerada, intimidando a Bielorrússia, digamos, ou alimentando os velhos temores da expansão chinesa na Sibéria. Mas a China não tem apetite por crises internacionais, a menos que sejam de sua própria criação. Como parceira da Rússia, a China pode servir como fonte de tranquilidade ao longo de sua fronteira conjunta e moderar os excessos da Rússia em todo o mundo.

Doce paciência

Em vez de protestar contra a Rússia ou tentar reconquistá-la, o Ocidente deveria chamar a atenção para sua subordinação e esperar. Mais cedo ou mais tarde, um presidente Alexei Navalni ou alguém como ele olhará para o Ocidente mais uma vez. É quando a Rússia mais precisará de ajuda. E é aí que o homem ou a mulher que ocupar o Salão Oval deverá imitar Nixon - e ir a Moscou. Tradução de Claudia Bozzo

 

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