Michael Perez/AP
Michael Perez/AP

The Economist: Nas ruas da decisiva Pensilvânia

Candidatos precisam da vitória no Estado e têm seus redutos na Filadélfia, sua maior e mais importante cidade

The Economist, The Economist

05 de novembro de 2020 | 04h00

A Filadélfia faz jus ao seu apelido, Cidade do Amor Fraternal, mais ou menos tão bem quanto a Coreia do Norte faz jus ao seu nome oficial: República Popular Democrática da Coreia. Os moradores da Filadélfia já vaiaram o Papai Noel em um jogo de futebol americano antes de começarem a bombardeá-lo com bolas de neve. Torcedores dos Eagles, time local de futebol americano, se comportaram tão mal durante tantos anos que, após uma partida em 1998 na qual aconteceram 60 brigas e um torcedor atirou com um sinalizador, a cidade criou um juizado especial no estádio para julgar os inevitáveis casos semanais de brigas, consumo de bebida alcoólica por menores e acusações de urinar em público, para evitar que eles congestionassem os tribunais regulares. O juiz, Seamus McCaffrey, destacou que a maioria dos torcedores arruaceiros teria vindo dos subúrbios, e não da cidade em si.  

Nova York é a capital cultural e financeira dos Estados Unidos. Washington é a capital política do país. Filadélfia é a ex-capital (entre 1790 e 1800, enquanto a Casa Branca era construída). Como muitas cidades cujos dias de glória estão no passado – Montreal, Liverpool, Gênova, Luang Prabang –, ela conserva um charme imenso e parece sempre disposta a provar seu valor (e não estou dizendo isso apenas para evitar que furem meus pneus ou que me deem um soco na cara). Na Filadélfia não há ilusão nem glamour. Mas, nos últimos dias da corrida eleitoral de 2020, ela se tornou a cidade mais importante do mundo.  

Pouco mais de 6 milhões de pessoas vivem na cidade e nos arredores, mas nem todos residem na Pensilvânia: a região metropolitana se estende até Nova Jersey e Delaware. A central da campanha de Biden fica na cidade. A colega de chapa dele, Kamala Harris, comandou ali uma carreata na véspera da eleição, dois dias após um giro de Donald Trump por quatro cidades da Pensilvânia. As campanhas têm objetivos opostos. Os democratas precisam incentivar o comparecimento às urnas na Filadélfia e em Pittsburgh, do outro lado do Estado, para compensar sua provável derrota na zona rural e nas cidades menores da Pensilvânia. Republicanos precisam fazer o contrário.

De acordo com a previsão da Economist, a Pensilvânia é o mais provável “Estado da virada” – a origem mais provável do 270.º voto no colégio eleitoral que determinará o vencedor da eleição. A Filadélfia é sua cidade mais populosa. Em 2016, Hillary Clinton teve 82,4% dos votos ali, perdendo por pouco o Estado para Trump. Barack Obama teve resultado melhor, tanto no porcentual do eleitorado quanto no número de votos contabilizados, mais importante. 

A tarefa de Biden na Filadélfia não é tanto convencer – é muito provável que vença tranquilamente na cidade – e sim mobilizar. As ruas estão repletas de cartazes em diferentes idiomas insistindo não apenas para que as pessoas votem, mas para que tenham um plano e, como sugere uma pintura particularmente chamativa no LOVE Park, centro da Filadélfia, “votem por aqueles que não podem respirar”. 

É uma referência às últimas palavras de George Floyd, enquanto era lentamente sufocado até a morte por um policial em Minneapolis, em maio, desencadeando protestos em todo o mundo. Dois dias antes da eleição, em uma gelada manhã de domingo, algumas dezenas de corredores treinavam passando pela pintura, preparando-se para uma corrida em homenagem àqueles que morreram nas mãos da polícia. Cada corredor usava uma identificação com o nome de uma vítima.  

Um homem chamado Sherman, correndo em homenagem a Andrena Kitt, morta há 19 anos por um policial à paisana na Flórida, disse que votaria em Biden: “Somos a liderança do mundo, que segue o mesmo rumo que nós. Se começamos a mentir, o resto do mundo começa a mentir. Se formos verdadeiros e humildes, o resto do mundo será verdadeiro e humilde”. 

Ele também tinha uma versão doméstica de sua teoria, segundo a qual o comportamento do presidente afeta o restante dos americanos. George W. Bush era sereno e não se preocupava com os detalhes; o mercado imobiliário derreteu sob a supervisão dele. Barack Obama era um presidente do tipo “vamos dar as mãos e ser amigos”, e ao menos tentava interagir com aqueles que não o apoiavam. “O sujeito atual”, disse Sherman, seco, “tem uma perspectiva bem diferente”.  

A antipatia pelo “sujeito atual” era fácil de observar (ao ser indagado a respeito da eleição, um jovem que ajudava a limpar um parque municipal durante uma tempestade gritou, “F... o Trump! É tudo que tenho a dizer”). Mas também era fácil encontrar quem o apoiasse, se soubéssemos onde procurar. 

Conforme a Roosevelt Boulevard avança para a região nordeste da cidade, de população conservadora, as fileiras de cartazes da chapa Biden/Harris dão lugar a cartazes da chapa Trump/Pence. Trump venceu em três das 66 subdivisões políticas da cidade, duas delas no nordeste. Um estabelecimento da Fraternal Order of Police, no nordeste da cidade, recebeu Mike Pence em julho. Em seguida, policiais de licença confraternizaram com membros do grupo de delinquentes de extrema direita Proud Boys. 

Em Somerton, bairro vizinho que abriga o escritório da campanha de Trump na Filadélfia, Imeda Londaridze, padeiro que imigrou da Geórgia e hoje administra um restaurante, defende o presidente. Ele diz que muitos de seus amigos imigrantes do Cáucaso têm a mesma opinião. “Trump parece um sujeito durão, um sujeito forte. Ele tem uma estratégia… Biden só fala. Não é capaz de fazer nada.”  

O outro reduto de apoio a Trump fica no sul da Filadélfia. Tradicionalmente habitada por descendentes de irlandeses e italianos, a região está mudando rapidamente e agora ocupa o coração da considerável comunidade vietnamita da Filadélfia. Jovens famílias estão comprando as casas de tijolos. Bairros onde gerações da mesma família viviam no mesmo quarteirão têm hoje alternativas de restaurantes japoneses e estúdios de tatuagem. 

Na tarde do dia 1.º de novembro, uma caravana de algumas dezenas de carros e caminhonetes decorados com bandeiras de Trump – escoltados pela polícia, que interrompeu e redirecionou o tráfego – buzinava ao avançar lentamente pela Oregon Avenue.  

Ali perto, uma estátua de Cristóvão Colombo está cercada de tapumes e cercas. Um aviso diz que em agosto a comissão de arte da cidade decidiu removê-la, para que “nossos espaços públicos sejam vistos por todos como seguros, receptivos e inclusivos”.  

Trump tem sido um presidente deplorável: semeia a discórdia, é mentiroso e incompetente. Mas também se apresentou como escudo contra um mundo em rápida transformação. Para muitos americanos, isso é o bastante. Diante da cerca, na fraca luz de uma fria tarde de novembro na véspera da eleição americana, dois cartazes da chapa Trump/Pence jaziam no meio fio, sujos e amassados. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

© 2020 The Economist Newspaper Limited. Direitos reservados. Publicado sob licença. O texto original em inglês está em www.economist.com

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