Ian Langson/EFE/EPA
Ian Langson/EFE/EPA

The Economist: Nova onda faz Europa voltar à quarentena

Avanço do vírus é tão alarmante que nem a Alemanha e os países escandinavos escapam de retomada das restrições

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2020 | 05h00

Durante alguns meses de verão, os europeus quase puderam acreditar que a vida tinha voltado ao normal. Os museus de Paris e os cafés de Barcelona estavam abertos, ainda que mais vazios. Alemães, holandeses e dinamarqueses voaram para passar as férias nas praias do Mediterrâneo. Em agosto e setembro, com as crianças do continente inteiro retomando as aulas, as infecções da covid-19 começaram a aumentar. Mas, preocupados com a reação do púbico, os governos optaram por não anunciar novas medidas de distanciamento social.

Essa decisão teve um preço. Agora, uma segunda onda da covid-19 está tomando a Europa. Em muitos países, o número de casos confirmados diariamente excede o auge observado na primavera, mas isso é consequência principalmente de uma política de testes mais rigorosa; a mortalidade tem sido substancialmente mais baixa. Um modelo desenvolvido pela Economist com base em testes sorológicos mostrando quantas pessoas foram expostas ao vírus indica que a segunda onda ainda não se equiparou à primeira, mas os números estão claramente aumentando, assim como as hospitalizações. A maioria dos países perdeu a oportunidade de reforçar suas operações de teste e rastreamento durante o verão. Agora, estão recorrendo a medidas brutas: fechamento dos restaurantes e anúncio de novas quarentenas e toques de recolher.

A Espanha está entre os países mais atingidos. Isso ocorre em parte porque o governo de esquerda, apoiado em uma minoria, e a oposição conservadora não conseguiram chegar a um acordo para definir uma estratégia nacional de combate à doença. Apenas algumas regiões adotaram sistemas eficazes de rastreamento e isolamento, e o ritmo de avanço da infecção varia muito. Madri está sob estado de emergência por 15 dias, impedindo a circulação não essencial de entrada e saída da cidade, limitando as reuniões sociais a um máximo de seis pessoas e fechando os restaurantes às 23h. Na Catalunha e em Navarra as medidas são ainda mais rigorosas.

Na França as coisas não estão melhores. A proporção de resultados positivos entre os testes realizados saltou de 4,6% (31 de agosto) para 13%. No dia 17 de outubro o governo anunciou um toque de recolher das 21h às 6h em nove grandes cidades. O epidemiologista Arnaud Fontanet, do Institut Pasteur, diz que o país precisa reduzir as infecções para 3.000 por dia antes que a pandemia possa ser controlada no país; atualmente, são cerca de 28.000 infecções diárias.

Quando a covid-19 chegou ao continente, os europeus do norte logo associaram a virulência da doença observada na Itália e na Espanha a alguma questão cultural. Essa ideia parece mais difícil de sustentar agora: entre os países mais atingidos estão Bélgica e Holanda. “Estamos muito perto de um tsunami. Não temos controle do que está acontecendo”, alerta o ministro da saúde da Bélgica, Frank Vandenbroucke. O governo fechou bares e restaurantes e impôs um toque de recolher da meia-noite às 5h. O vírus também exacerba divisões regionais. Os nacionalistas flamencos se queixam da quarentena nacional, pois a transmissão é mais acelerada nas regiões do país que falam francês.

Na Holanda o governo perdeu tempo enquanto os casos diários detectados por milhão de habitantes aumentavam constantemente. Agora esse número é mais alto do que na Espanha ou na França. Esse mês o governo finalmente fechou os restaurantes por quatro semanas, exigindo o uso de máscaras nos espaços públicos fechados. Mas, quando o primeiro-ministro Mark Rutte pediu desculpas na semana passada, ele se referia apenas ao fato de a família real ter tirado férias recentemente na Grécia (a viagem foi abreviada).

No sudeste da Europa e nos Bálcãs, que contiveram o vírus no segundo trimestre com rigorosas quarentenas, é pequeno o desejo de retomar as restrições. A primeira-ministra da Sérvia, Ana Brnabic, prometeu “agir diferentemente” caso o vírus ressurgisse, mas pouco tem feito agora que isso ocorreu. Mas a Bulgária, onde os hospitais se queixam agora de uma falta de médicos, tornou o uso de máscaras compulsório. O mesmo ocorreu em Bucareste, capital da Romênia, onde as escolas foram orientadas a adorar o ensino à distância e cinemas e teatros foram fechados.

Uma das medidas adotadas pela União Europeia este mês foi instituir um mapa europeu de intensidade regional da epidemia, depois de uma discussão envolvendo as cores usadas. Quase todas as províncias da Europa aparecem em vermelho (indicando alta incidência do vírus). Mas é fácil identificar os contornos das histórias de sucesso: Alemanha, Itália e os países nórdicos, cujo território está quase todo representado em amarelo (média intensidade) com trechos em verde (intensidade baixa). Talvez o sucesso da Itália dure pouco. A transmissão foi contida com quarentenas agressivas no segundo trimestre, mas os novos casos estão aumentando rapidamente. Novas restrições foram anunciadas no dia 18 de outubro, mas disputas internas da coalizão governante resultaram em medidas pouco rigorosas.

A Alemanha e os países nórdicos continuam apresentando o melhor desempenho da Europa, mas não sem enfrentar dificuldades. A Alemanha tem o melhor sistema de detecção e rastreamento do continente, mas, em partes de Berlim, o número de casos é hoje alto demais para acompanhar. As áreas mais atingidas estão obrigando restaurantes a fechar mais cedo e exigindo o uso de máscaras. Mas o sistema federal da Alemanha está provocando fragmentação e discórdia. A chanceler Angela Merkel teme que uma reação demasiadamente lenta agora crie a necessidade de medias mais drásticas futuramente. Isso desgastaria a disposição do público de combater o vírus. Se antes os europeus enfrentaram a batalha com um espírito de sacrifício compartilhado, muitos agora se queixam da resposta inadequada dos governos. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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