Martin Hunter / SNPA / Reuters
Martin Hunter / SNPA / Reuters

The Economist: Novo terrorismo parece com o velho

O massacre na Nova Zelândia em 15 de março é um alerta para o fato de que os assassinos nacionalistas brancos e os jihadistas se assemelham - embora os dois grupos se detestem

The Economist, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 05h00

Um fanático entrou num local de culto e abriu fogo contra homens, mulheres, crianças. Não fez nenhuma distinção. Brenton Tarrant não teve piedade porque não olhava suas vítimas como pessoas inteiramente humanas. Quando matou as 50 pessoas ele não viu se eram mães, maridos, engenheiros ou goleiros. Viu apenas o inimigo.

O massacre na Nova Zelândia em 15 de março é um alerta para o fato de que os assassinos nacionalistas brancos e os jihadistas se assemelham. Embora os dois grupos se detestem, eles compartilham métodos, princípios e mentalidade. Eles acham que seu próprio grupo é ameaçado e que isto justifica a violência extrema como “autodefesa”.

Com frequência esses indivíduos são radicalizados na mídia social, onde têm acesso a uma subcultura multinacional de ressentimento. Os islamistas compartilham cenas filmadas de atrocidades contra muçulmanos em Mianmar, na Síria, em Xinjiang e Abu Ghraib. Os nacionalistas brancos compartilham histórias de crimes contra brancos em Nova York, Roterdã e Bali. O atirador da Nova Zelândia, que é australiano, riscou numa arma o nome de uma menina sueca de 11 anos morta por um jihadista em 2017.

É preciso uma vasta irracionalidade para concluir que o assassinato de uma menina em Estocolmo justifica o assassinato de crianças muçulmanas a 17.500 quilômetros de distância. Mas quando extremistas se encontram no lado escuro e ilegal da Internet, eles se inspiram um no outro para atingir o auge da paranoia e do farisaísmo.

Seus inimigos querem destruir seu povo e sua fé. É uma luta pela sobrevivência. Aparentemente, ultrajes sem nenhuma ligação fazem parte de uma trama global que, depois de grande distorção, jihadistas e neonazistas com frequência atribuem aos judeus. 

No mundo todo, os jihadistas matam mais pessoas do que os supremacistas brancos. Mas, no Ocidente, a violência nacionalista branca está se equiparando a eles e em alguns lugares superando. É difícil determinar os números, mas é motivo de alarme. Segundo uma estimativa, entre 2009 e 2018 os supremacistas brancos mataram mais de três quartos das 313 pessoas assassinadas por extremistas nos EUA. Redes de extrema-direita com fins violentos foram descobertas no Exército alemão.

Não há no Ocidente nenhum grupo nacionalista branco equivalente ao Estado Islâmico, mas muitos racistas em fúria têm acesso a armas. E fatos recentes os inflamaram. A crise dos refugiados sírios, por exemplo, gerou vívidas imagens de muçulmanos entrando na Europa, alimentando os medos das pessoas preocupadas com não brancos procriando mais do que os brancos e um dia virem a “substituí-los” em suas terras ancestrais.

Mas existe esperança. Outra razão pela qual a ameaça racista branca deve preocupar relativamente é que o Ocidente hoje está melhor capacitado para impedir a ameaça jihadista. Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, os serviços de segurança conseguiram, mediante grandes esforços, se infiltrar nesses grupos, pessoalmente e online, interceptar suas conversas e retirar sua propaganda.

Quando o jihadismo cruza as fronteiras, os serviços de inteligência compartilham informações e trabalham lado a lado para frustrar complôs. Os governos aumentaram as defesas de alvos óbvios, começando com as cabines de comando dos aviões. E frustraram dezenas de possíveis atentados e prenderam centenas de jihadistas. E trabalharam também para desradicalizar os extremistas ou impedi-los de se armarem. 

Todos esses métodos devem ser usados também contra nacionalistas brancos violentos. Mais recursos serão necessários. É absurdo, por exemplo, o Departamento de Segurança Interna dos EUA não ter nenhuma experiência com o terrorismo de extrema direita. Mas mesmo com grandes recursos a tarefa não será fácil. As pessoas que postam diatribes racistas online sempre fingem estar brincando.

Localizar potenciais assassinos em meio ao grande número, e cada vez maior, de pessoas que pregam o mal é difícil. Como é difícil também encontrar as pessoas certas para desradicalizar a extrema-direita. Jihadistas potenciais podem ser às vezes convencidos do contrário por imãs moderados que fundamentam seus argumentos em textos que ambas as partes reverenciam. O que é mais complicado no caso dos neonazistas, mas uma combinação de ostracismo público e de conselhos pacientes pode ajudar.

Sensibilidade é essencial. Muitas pessoas não violentas compartilham algumas das preocupações dos extremistas, embora de modo mais brando. E da mesma maneira que a luta contra o jihadismo precisa ser calibrada para não abranger os muçulmanos pacíficos,- ou criar essa sensação - também a luta contra os extremistas brancos não deve indispor os brancos pacíficos que por acaso são contra a imigração ou ocasionalmente dizem coisas desagradáveis online.

Este é um problema explosivo que seria mais fácil de confrontar se políticos influentes deixassem de colocar mais lenha na fogueira. Quando o presidente Donald Trump chama o fluxo de imigrantes de “invasão” ele dá cobertura àqueles que expulsariam esses imigrantes violentamente. Da mesma maneira Viktor Orban, primeiro ministro da Hungria, quando afirma que um bilionário judeu está tramando para inundar a Europa de imigrantes muçulmanos para fazer submergir a cultura cristã.

E também o ditador turco, o presidente Recep Tayyip Erdogan, quando diz que o assassino na Nova Zelândia é parte de um grande complô contra os turcos. Contrariamente, a primeira ministra neozelandesa Jacinta Ardern agiu de maneira certa. Usou um véu na cabeça para mostrar que um ataque contra os muçulmanos é um ataque contra todos os neozelandeses. E está tornando mais rígidos os controles de armas no país. Ela mostrou como um ataque contra os valores de tolerância e abertura do seu país na verdade é um motivo para fortalecê-los. / Tradução de Terezinha Martino 

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