Gilles Sabri/NYT
Gilles Sabri/NYT

The Economist: O ano em que tudo mudou

Por que a pandemia de 2020 será lembrada como ponto de inflexão da história, assim como o foram os anos 1920

The Economist, The Economist

31 de dezembro de 2020 | 03h00

Warren Harding construiu sua campanha para as eleições presidenciais de 1920 em torno de uma nova palavra: “normalidade”. Era um apelo ao suposto desejo dos americanos de esquecer os horrores da 1.ª Guerra e da gripe espanhola e voltar às certezas da Era Dourada. No entanto, em vez de abraçar a normalidade de Harding, os loucos Anos Vinte se tornaram um fermento para arriscadas novidades sociais, industriais e artísticas de olho no futuro.

A desinibição da Era do Jazz teve algo a ver com a guerra e também com a pandemia de gripe, que matou seis vezes mais americanos que os combates e deixou os sobreviventes com apetite para viver os anos 1920 a toda velocidade. Esse espírito também animará a década de 2020. A própria escala do sofrimento da covid-19, as injustiças e perigos que a pandemia revelou e a promessa de inovação indicam que 2020 será lembrado como o ano em que tudo mudou.

A pandemia é um acontecimento que ocorre uma vez a cada século. O Sars-Cov-2 já foi encontrado em mais de 70 milhões de pessoas e possivelmente infectou outras 500 milhões que nunca foram diagnosticadas. O vírus causou 1,6 milhão de mortes registradas; muitas centenas de milhares não chegaram aos registros. Milhões de sobreviventes estão convivendo com a exaustão e as enfermidades das “sequelas da covid”.

A produção econômica mundial está pelo menos 7% abaixo do que se previa, a maior queda desde a 2.ª Guerra. Das cinzas de todo esse sofrimento surgirá a sensação de que a vida não deve ser poupada, mas, sim, vivida.

Outro motivo para esperarmos mudança – ou, pelo menos, desejá-la – é que a covid-19 serviu de alerta. Os 80 bilhões de animais abatidos para alimentação e vestimenta todos os anos são placas de Petri para os vírus e bactérias que a cada década evoluem para se tornarem patógenos letais aos humanos. Agora a conta chegou – e foi astronômica. O céu claro que surgiu quando a economia entrou em lockdown foi um símbolo poderoso de como a covid-19 é uma crise veloz se movendo dentro de uma crise lenta, à qual se assemelha em alguns aspectos. Assim como a pandemia, a mudança climática é impermeável a negações populistas, é global na disrupção que causa e, se for negligenciada agora, sairá muito mais cara no futuro.

Um terceiro motivo para esperarmos mudanças é que a pandemia destacou a injustiça. Algumas crianças ficaram para trás nas aulas – e muitas vezes passaram fome. Os jovens que tiveram de abandonar a escola e os recém-formados viram suas perspectivas se estreitarem, mais uma vez.

Pessoas de todas as idades sofreram com a solidão ou a violência doméstica. Trabalhadores migrantes ficaram à deriva ou foram mandados de volta para suas aldeias, levando a doença consigo. O sofrimento variou muito conforme a cor da pele. Um hispano-americano de 40 anos tem 12 vezes mais probabilidade de morrer de covid-19 do que um americano branco da mesma idade. Em São Paulo, os brasileiros negros com menos de 20 anos têm duas vezes mais chances de morrer do que os brancos.

Enquanto o mundo se adaptava, algumas dessas iniquidades pioraram. Estudos sugerem que, nos Estados Unidos, cerca de 60% dos empregos que pagam mais de US$ 100 mil anuais podem ser exercidos de casa, em comparação com 10% dos empregos que pagam menos de US$ 40 mil.

E, se o desemprego disparou este ano, o índice MSCI dos mercados de ações mundiais aumentou 11%. No pior cenário, calcula a ONU, a pandemia pode levar mais de 200 milhões de pessoas à pobreza extrema. Sua situação será exacerbada por governantes autoritários e candidatos a tiranos que exploraram o vírus para reforçar seu controle sobre o poder.

Talvez seja por isso que, no passado, as pandemias provocaram revoluções. O FMI analisou 133 países no período 2001-18 e descobriu que a inquietação social aumentou cerca de 14 meses após o início das doenças, com pico após 24 meses. Quanto mais desigual é a sociedade, maior a convulsão. Na verdade, o fundo alerta para um círculo vicioso, pelo qual os protestos intensificam ainda mais as dificuldades, o que, por sua vez, alimenta os protestos.

Felizmente, a covid-19 não apenas trouxe a necessidade de mudança como também apontou um caminho a seguir. Isto se deve, pelo menos em parte, ao fato de ter servido como motor para inovação. Sob regime de lockdown, a parcela do comércio eletrônico nas vendas do varejo americano cresceu tanto em oito semanas quanto nos cinco anos anteriores. Com as pessoas trabalhando em casa, as viagens no metrô de Nova York caíram mais de 90%. Quase da noite para o dia, negócios começaram a ser administrados a partir de quartos vazios e mesas de cozinha – um experimento que, de outra forma, levaria anos para se desenvolver, se é que chegaria a ser cogitado.

Essa disrupção está só começando. A pandemia é a prova de que a mudança é possível até mesmo em setores conservadores, como o de saúde. Alimentada por dinheiro barato e novas tecnologias – entre elas inteligência artificial e, possivelmente, computação quântica – a inovação vai derrubar uma indústria depois da outra. Por exemplo, nos últimos 40 anos, os custos nas faculdades e universidades americanas aumentaram quase cinco vezes mais rápido do que os preços ao consumidor, mesmo que o ensino quase não tenha mudado, abrindo espaço para disrupções.

Outros avanços tecnológicos em fontes renováveis de energia, redes inteligentes e baterias de armazenamento são etapas vitais no caminho para a substituição dos combustíveis fósseis.

O coronavírus também revelou algo profundo sobre a maneira como as sociedades precisam tratar o conhecimento. Os cientistas chineses sequenciaram o genoma do sars-cov-2 em semanas e o compartilharam com o mundo. As novas vacinas resultantes são apenas uma das paradas do progresso supersônico que esclareceu de onde o vírus veio, quem ele afeta, como ele mata e como se pode tratá-lo.

É uma demonstração notável do que a ciência pode realizar. Em um momento em que as conspirações correm soltas, esta pesquisa se ergue como uma repreensão aos ignorantes e fanáticos – em ditaduras e também democracias – que se comportam como se a evidência para uma afirmação não fosse nada perto da identidade de quem afirma.

A pandemia também gerou um salto de inovação nos governos. Os países que podem bancar – e alguns que não podem, como o Brasil – suprimiram a desigualdade gastando mais de US$ 10 trilhões na covid-19, três vezes mais em termos reais do que na crise financeira. Isso redefinirá dramaticamente as expectativas dos cidadãos sobre o que os governos podem fazer por eles.

Muitas pessoas sob lockdown estão se perguntando o que é mais importante na vida. Os governos devem se inspirar nesse momento de reflexão, concentrando-se em políticas que promovam a dignidade individual, a autossuficiência e o orgulho cívico. Devem reformular o bem-estar e a educação e enfrentar concentrações de poder entrincheiradas, de modo a abrir novos horizontes para seus cidadãos. Toda a miséria deste ano da peste pode trazer algo de bom. E esse algo de bom precisa incluir um novo contrato social mais adequado ao século 21. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

© 2020 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Tudo o que sabemos sobre:
coronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.