Andrew Caballero-Reynolds / AFP
Andrew Caballero-Reynolds / AFP

The Economist: O início desanimador de um Congresso dividido

Para o presidente americano Donald Trump, parece ser mais importante a luta com os democratas para construir o muro na fronteira com o México do que obter os recursos para construir o muro

The Economist, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2019 | 05h00

Como o governo dos Estados Unidos parou parcialmente em 22 de dezembro, aproximadamente 800 mil funcionários federais foram dispensados ou obrigados a trabalhar sem remuneração. Desde 2013 é a primeira vez que uma paralisação do governo dura tanto tempo. Nenhuma delas abrangeu uma mudança no controle partidário do Congresso, como este: os republicanos mantiveram as duas câmaras legislativas quando o Congresso foi suspenso em dezembro.

Quando se reuniu em 3 de janeiro, os democratas, dois meses após a vitória nas eleições da metade do mandato presidencial, recuperaram o controle da Câmara dos Representantes pela primeira vez em oito anos. Essa abertura desordenada em direção a uma nova era de assuntos governamentais divididos importa não apenas porque os funcionários federais continuam sem ser remunerados e as agências sem pessoal. Também sinaliza o fim do período de inércia do congresso que definiu os primeiros dois anos de Donald Trump no cargo.

Por trás da paralisação está a insistência de Trump em obter US$ 5 bilhões para um muro na fronteira sul (aquele que o México supostamente pagaria). David Cicilline, um congressista de Rhode Island que lidera o setor de mensagens do Partido Democrata, diz que a chance é “zero” de que Trump receba tanto dinheiro. No final do ano passado, os democratas do Senado ofereceram US$ 1,6 bilhão para a segurança da fronteira, e até mesmo isso deixou os democratas da Câmara rosnando. “Não há discordância no fato de que precisamos proteger nossas fronteiras”, diz Cicilline, “ (mas) temos a responsabilidade de nos apropriar dos fundos de maneira economicamente viável”. Um muro, ele argumenta, “é uma solução do século XIX, para um problema do século XXI.“

Por algum tempo, Trump pareceu concordar. Pouco antes da paralisação, ele começou a se referir a uma “bela… Barreira de Lajes de Aço”. John Kelly, seu chefe de gabinete de saída, disse que “deixamos um sólido muro de concreto no início do governo”. No início de dezembro, Trump recuou de sua demanda por US$ 5 bilhões, sugerindo que aprovaria uma resolução de curto prazo sem financiamento para o muro para manter o governo aberto. Então os apresentadores de programas de entrevistas de direita o atacaram por recuar, e ele inverteu o curso, fechando o governo e reiterando sua exigência por “um muro todo de concreto”.

Cada lado acredita que o outro pagará um preço político maior. Os republicanos têm uma vantagem estrutural: suspeitam do governo, enquanto os democratas se autodenominam o partido da boa governança. Mas os democratas apontaram para Trump dizendo, durante uma reunião televisionada em dezembro com Nancy Pelosi e Chuck Schumer, líderes democratas na Câmara e no Senado: “Vou fechar o governo se eu não conseguir o meu muro”. Eles também podem suspeitar que por mais leais que os republicanos do congresso pareçam ser em púbico, eles estão particularmente cansados da intemperança e da imprevisibilidade de Trump, e podem pressioná-lo quando a paralisação se arrastar.

Alguns argumentam que o que Trump realmente quer não é o muro, mas a luta pelo muro. Afinal, se ele realmente quisesse seus US$ 5 bilhões, poderia negociar um acordo com os democratas para obtê-los - talvez concordando em fornecer aos “sonhadores” (imigrantes indocumentados trazidos para a América quando crianças) um caminho para a cidadania. Mas sua base valoriza sua combatividade acima de qualquer realização concreta realisticamente alcançável, e ele vê os democratas que o atacam como fracos contra o crime e imigração como uma estratégia melhor do que o compromisso.

“Nós temos o problema, segurança de fronteira”, ele cutucou pelo Twitter, dois dias depois do Natal. Ele acredita, não sem razão, que suas opiniões radicais sobre a imigração lhe renderam a presidência em 2016, e continuam sendo sua mais forte aposta. Mas essa teoria foi testada em 2018, quando candidatos republicanos ao Congresso em todo país encerraram suas campanhas alimentando temores de que, nas palavras de Trump, “morte e destruição foram causadas por pessoas que não deveriam estar aqui”.

Deixando de lado o fato de que os imigrantes cometem crimes em níveis mais baixos do que os nativos, essa tática falhou. Os republicanos perderam mais assentos no meio do ano passado do que em qualquer eleição desde Watergate. Agora Pelosi é novamente a presidente da Câmara, e os democratas são os presidentes das comissões com poder de intimação.

Como eles vão usar esse poder, logo se tornará claro. Eles passaram meses se preparando. Matt Bennett, da Third Way, um grupo de altos estudos centrista democrata, acredita que os comitês irão “disparar intimações como metralhadoras… Haverá investigações completas em meados de janeiro”.

Elijah Cummings, o novo presidente da Comissão de Supervisão da Câmara, já solicitou informações sobre, entre outras coisas, o uso de e-mail pessoal para o trabalho do governo e pagamentos para a Organização Trump. Jerry Nadler, que presidirá a Comissão Judiciária da Câmara, planeja realizar audiências sobre a política de separação familiar do governo e a interferência da Rússia em 2016. Adam Schiff, que comandará a Comissão de Inteligência da Câmara, quer investigar os interesses comerciais de Trump.

Richard Neal, que dirigirá a Comissão de Levantamento e Fiscalização de Fundos do Congresso (Ways and Means), planeja tornar obrigatória a liberação das declarações de impostos de Trump.

Os índices de aprovação de Trump permanecem em torno de 40%; Ao contrário da maioria dos presidentes, ele mal tentou expandir seu pedido. Enquanto isso, a investigação de Robert Mueller avança inexoravelmente. O presidente não pode se dar ao luxo de perder o apoio de seus líderes de torcida agora, o que pode explicar sua recusa em negociar sobre o muro.

Mas isso não significa necessariamente um impasse permanente. Pode-se imaginar os democratas concordando em aumentar modestamente o financiamento da segurança para fronteiras além de US$ 1,6 bilhão - o suficiente para permitir que Trump livre a cara, reivindique a vitória e reabra o governo. Além disso, as partes poderiam passar os próximos dois anos lutando contra a imigração enquanto encontram um terreno comum onde podem - sobre infraestrutura, por exemplo, ou preços de medicamentos prescritos.

Para Trump, as relações pessoais podem suplantar os desacordos políticos partidários. Ele parece genuinamente respeitar a dureza e as conquistas de Pelosi. Ele também parece encantado com Schumer, um colega da periferia de Nova York. Mas sua personalização da política também pode fazer o contrário. Bill Clinton conseguiu se livrar dos esforços republicanos para pedir seu impeachment em defesa dos negócios, mantendo-se focado em metas políticas. Trump, famoso por contra-atacar, não demonstrou tal habilidade para compartimentalizar. / Tradução de Claudia Bozzo

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