Eitan Abramovich / AFP
Eitan Abramovich / AFP

The Economist: A real força de Cristina contra Macri

Com a impopularidade do presidente Mauricio Macri, eleição de outubro parece um jogo de cara ou coroa

The Economist, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2019 | 12h09

Durante décadas a cidade de Quilmes, 40 minutos de carro ao sul de Buenos Aires, teve a distinção de ser o nome da cerveja nacional da Argentina. Um imigrante alemão, Otto Bemberg, começou sua cervejaria lá, às margens do Rio da Prata, na década de 1880. Hoje, a Quilmes (agora parte do império AB InBev) é vendida das Cataratas do Iguaçu à Terra do Fogo. Mas há mais do que cerveja fermentando na cidade.

Desde a queda da última ditadura na Argentina, entre 1983 e 2015, os peronistas governaram Quilmes e seus 650 mil habitantes por 24 anos. Em seguida, o movimento Cambiemos, do presidente Mauricio Macri, derrubou nas eleições, por grande margem, o prefeito e o governo que haviam sido leais a Cristina Kirchner. Pouco mais de um ano atrás, Macri parecia ter certeza de outra vitória nas eleições deste ano, prevista para outubro. Então, a confiança do investidor em sua política econômica de reforma gradual entrou em colapso juntamente com o peso, levando-o a recorrer a um pacote recorde de ajuda de US$ 57 bilhões do FMI

Com a inflação em 56% e o desemprego crescendo, as chances de Macri parecem menores. Em 9 de maio, Cristina lançou um livro (um best-seller instantâneo), aparentemente indicando que entraria na corrida. (Neste sábado, ela divulgou um vídeo das redes sociais anunciando sua candidatura à vice-presidência da Argentina.) Quilmes é um campo de batalha para as duas filosofias completamente diferentes. Poderá a promessa de reforma tecnocrática de Macri superar o nacionalismo populista de Kirchner?

Pesquisa realizada no mês passado pelo grupo Isonomía, que trabalhou para Macri, mostra o presidente atrás de Cristina, o que provocou turbulência nos mercados. O peso perdeu quase 9% em relação ao dólar em uma semana. Em 29 de abril, Macri obteve autorização do FMI para permitir que o Banco Central interviesse. 

O resultado de uma eleição hoje seria um empate, segundo pesquisa mais recente. Em Quilmes, uma amostragem reduzida da consultoria Gustavo Córdoba Associates, sugere que o prefeito de Macri está pouco à frente de um jovem militante peronista. 

Na Casa Rosada, o palácio presidencial, o chefe de gabinete de Macri, Marcos Peña, argumenta que a eleição é uma escolha entre reforma ou volta da Argentina ao seu problemático passado. Ele reconhece que a instabilidade do mercado representa a maior ameaça à sobrevivência do presidente. 

Segundo Peña, se Macri vencer, "pode ser uma mensagem para outros países que tiveram governos populistas, de que é possível reconstruir, recuperar e seguir em frente". 

Os argentinos podem se voltar para um dos vários moderados peronistas. Mas tanto Macri quanto Cristina se beneficiam da polarização da disputa. No subúrbio operário de Agronomía, a equipe de Cristina está se unindo sob o slogan “Ordem para sair do caos”. 

De sua parte, Axel Kicillof, que foi ministro das Finanças no segundo mandato da ex-presidente, ataca os resultados do programa econômico de Macri. Ele diz que "os anos Macri foram desastrosos para o país e para o povo". "Eles passaram a primeira metade do mandato nos culpando por todos os problemas. Agora, eles usam a segunda metade tentando assustar a todos se vencermos. É uma falência de ideias."

Kicillof diz que os peronistas não são os incendiários econômicos que Macri afirma. Mas, segundo ele, "o que precisamos é que este governo e o FMI renegociem o seu acordo insustentável". E ele acrescenta com desenvoltura: "Não pergunte o que você pode fazer por seus credores, mas o que seus credores podem fazer por você". / Tradução de Claudia Bozzo

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