ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP
ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

The Economist: o que o fiasco dos EUA no Afeganistão significa para o mundo

Assim como a do Vietnã, a derrota no Afeganistão é um ponto de inflexão. Muitos temem que os inimigos dos Estados Unidos se sintam encorajados; outros esperam que agora o país se torne mais capaz de enfrentá-los

The Economist, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2021 | 10h00

“O Taleban não é o exército norte-vietnamita”, declarou o presidente Joe Biden em 8 de julho, dias depois de os Estados Unidos abandonarem a base aérea de Bagram, o centro de sua guerra no Afeganistão ao longo de vinte anos. “Não são nem remotamente comparáveis em termos de capacidade. 

Não haverá nenhuma circunstância em que você veja pessoas sendo içadas do telhado da embaixada americana no Afeganistão”. Em 15 de agosto, os helicópteros Chinooks estavam sacudindo as janelas em Cabul, tirando diplomatas americanos de sua enorme embaixada. No aeroporto da cidade, afegãos desesperados invadiram a pista; alguns se agarraram ao chassi de um transportador C-17 e caíram para a morte.

O caos na pista contrastou com a captura – quase sem derramamento de sangue – de Cabul pelo Taleban um dia antes. O Taleban agora controla mais partes do Afeganistão do que em 2001, quando os Estados Unidos os tiraram do poder em resposta aos ataques de 11 de Setembro. No palácio presidencial em Cabul, combatentes do Taleban em sandálias empoeiradas pareciam surpresos com sua conquista quando posaram em volta da mesa abandonada por Ashraf Ghani, o presidente do país. “Alcançamos uma vitória que não era esperada”, admitiu o mulá Abdul Ghani Baradar, vice-líder do Taleban.

No drama tenso que se desenrola no aeroporto, os inimigos vêm se tratando com cautela. O Taleban até agora permitiu que os Estados Unidos realizem voos de evacuação, mas forçou a retirada das multidões que tentavam chegar aos aviões. Com milhares de americanos ainda em Cabul, a situação pode ficar mais perigosa. O Taleban pode ficar impaciente com milhares de soldados americanos e britânicos em solo afegão e irritado com a decisão dos Estados Unidos de bloquear o acesso às reservas estrangeiras.

A fuga dos EUA de Cabul, assim como sua partida de Saigon em 1975, é um momento geopolítico definidor: o país mais poderoso do mundo foi novamente derrotado por um inimigo mais fraco. Em ambos os casos – então como senador, agora como presidente – Joe Biden defendeu uma saída rápida. E, tanto naquela época quanto agora, críticos ferozes previram que tal abandono caótico poderia alarmar os aliados e encorajar os adversários. Estados vizinhos e países ricos mais distantes podem esperar um novo e inquietante fluxo de refugiados. Os jihadistas globais – milhares dos quais talvez sejam protegidos pelo Taleban, seguindo se acredita – verão uma vontade divina por trás da maneira como os guerreiros sagrados derrotaram duas superpotências no Afeganistão – primeiro, a União Soviética, em 1989, e agora os Estados Unidos.

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As consequências serão sentidas, sobretudo, no próprio Afeganistão. É muito cedo para dizer se o triunfo do Taleban marca o capítulo final, ou apenas o mais recente, nos 42 anos de guerra no país – com mais de 117 mil afegãos mortos desde 2001. O Afeganistão continua sendo um dos países mais pobres do mundo. Se a ajuda ocidental for cortada, perderá até mesmo os modestos ganhos econômicos e sociais – como a escolarização das meninas – das últimas duas décadas. Muito dependerá de como o Taleban irá governar.

Quando governaram em Cabul pela última vez, de 1996 a 2001, eles mergulharam um país há muito devastado pela guerra em uma tirania teocrática. Interromperam a educação e o emprego das mulheres, baniram a maior parte da arte e da música e massacraram as minorias. Além disso, abrigaram milicianos de todos os matizes, principalmente da Al-Qaeda, que buscava exportar a jihad para todo o mundo. O “emirado” era tão repulsivo que só foi reconhecido pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Paquistão, um patrocinador de longa data do Taleban.

Desta vez, o Taleban quer mostrar um rosto mais gentil. Em 17 de agosto, um de seus líderes apareceu na principal rede de televisão do Afeganistão para ser entrevistado por uma apresentadora – cena inimaginável durante a primeira era do Taleban. O grupo também adotou uma abordagem branda na capital. “Esperávamos muito mais brutalidade”, diz Obaidullah Baheer, professor da American University em Cabul. Em vez disso, ele ficou “agradavelmente surpreso com a disciplina e o respeito” do grupo. Baheer observa que os veículos do Taleban não buzinam contra os carros civis, forçando-os a sair da frente, como os militares afegãos costumavam fazer.

Mantendo as luzes acesas

A prioridade do Taleban é manter o Estado existente funcionando. Na falta de tecnocratas e administradores, eles declararam uma anistia geral para todos os funcionários do governo, exortando-os a voltar ao trabalho. O ministro da Saúde e o prefeito de Cabul permanecem em seus cargos. Antonio Giustozzi, do King’s College London, observa que o Taleban fez acordos com Salahuddin Rabbani, um ex-ministro das Relações Exteriores, e Hamid Karzai, o primeiro presidente instalado pelos Estados Unidos. Eles recrutaram especialistas do exército para operar o equipamento capturado e estão tentando cortejar os pilotos militares.

A estratégia do Taleban nas províncias rurais que eles mantiveram por algum tempo dá outras pistas. Muitas vezes, eles pegavam carona nos serviços do governo, permitindo que professores e médicos continuassem trabalhando, desde que cumprissem as regras do Taleban. “Eles vão assumir o controle do que já existe, pelo menos no curto prazo, e acho que vão tentar buscar a estabilidade, ao invés de fazer uma revolução de qualquer tipo”, diz Ashley Jackson, do Overseas Development Institute (ODI), um think-tank em Londres.

À medida que domina o país, diz Martine van Bijlert, do grupo de pesquisa Afghanistan Analysts Network, o Taleban está debatendo maneiras de encontrar o equilíbrio entre o que muitos de seus combatentes veem como pureza ideológica, de um lado, e a demanda por educação que existe mesmo entre muitos dos afegãos mais conservadores, de outro. Mustapha Ben Messaoud, chefe de operações de campo da Unicef no Afeganistão, diz que está “cautelosamente otimista”.

Quanto tempo durará esse pragmatismo, ninguém sabe. As notícias de algumas áreas recentemente capturadas são preocupantes. Em Herat, onde 60% dos alunos da universidade eram mulheres, as alunas foram obrigadas a voltar para casa. Mulheres no trabalho foram orientadas a deixar seus empregos e dar lugar a parentes do sexo masculino. Zabihullah Mujahid, o porta-voz do Taleban, diz que os meios de comunicação podem permanecer abertos – desde que não “contradigam os valores islâmicos” ou “difundam qualquer coisa que vá contra nossos interesses nacionais”. Não chega a ser reconfortante.

Não muitos afegãos serão persuadidos pela promessa do Taleban de que “não haverá vingança para todos aqueles que estão trabalhando com a administração de Cabul ou com as forças estrangeiras”. Depois que o Taleban tomou Spin Boldak, uma cidade na fronteira com o Paquistão, dezenas de apoiadores do governo foram massacrados. Em Kandahar, o Taleban sequestrou e assassinou Nazar Mohammad, um famoso comediante. Cabul está repleta de relatos de que o Taleban está caçando ex-intérpretes do exército dos Estados Unidos e comandantes afegãos. Uma juíza da cidade disse que ela e centenas de seus ex-colegas têm medo de represálias. Em Jalalabad, no dia 18 de agosto, o Taleban supostamente matou vários manifestantes que agitavam a bandeira afegã em vez do estandarte do Taleban.

O exército fantasma

Mesmo assim, as promessas de “misericórdia” e passagem segura para os soldados do governo que baixaram as armas explicam como o Taleban varreu o exército afegão com tanta facilidade. Quando a União Soviética deixou o Afeganistão em 1989, seu regime preposto sobreviveu por três anos antes de entrar em colapso (em parte porque, a essa altura, a própria União Soviética havia desaparecido). Desta vez, o Estado construído não durou tempo suficiente para que os EUA completassem sua partida. “Gastamos mais de um trilhão de dólares”, lamentou Biden em 16 de agosto. “Treinamos e equipamos uma força militar afegã de cerca de 300 mil homens (...) em tamanho, uma força maior do que a de muitos de nossos aliados da Otan”. Por que tudo se dissolveu em dias?

Em vinte anos de presença americana, o Taleban apreendeu apenas uma cidade, Kunduz, mantendo-a por breves períodos. Mas agora, começando com Zaranj, no sudoeste, em 6 de agosto, eles tomaram uma capital de província após a outra, culminando com a tomada de Cabul em 15 de agosto. Eles controlam praticamente todo o território que já foi dominado pela antiga Aliança do Norte, uma liga anti-Taleban a qual os Estados Unidos apoiavam em 2001. Amrullah Saleh, o vice-presidente de Ghani, fugiu para o vale de Panjshir, declarou-se o presidente interino e clamou por “resistência”. Mas sua causa parece perdida.

O sucesso do Taleban se deve muito ao apoio do Paquistão, à distração dos Estados Unidos no Iraque, ao dinheiro das drogas e à corrupção das elites afegãs. Mas os milicianos também tiveram agilidade. No último estágio da guerra, eles muitas vezes incorporaram a máxima de Sun Tzu de que a arte suprema da guerra é subjugar o inimigo sem lutar. “O que acabou de acontecer provavelmente é uma das campanhas de guerrilha mais bem concebidas e planejadas de todos os tempos”, diz Mike Martin, ex-oficial do exército britânico na província de Helmand, agora no King’s College London. “O Taleban invadiu todos os distritos e derrotou todas as milícias locais ao fazer acordos em linhagens tribais”. Em Herat, por exemplo, o chefe do conselho provincial fez um acordo com o comandante local do Taleban (ambos eram membros da tribo Alizai). “Depois que essas forças locais mudaram de lado”, diz Martin, “já não havia mais peso suficiente do lado do governo, então o exército teve que se render”.

O fato de o Taleban conseguir fazer tais acordos refletia um problema mais profundo. Os Estados Unidos e seus aliados atuaram como parteiras de um Estado altamente centralizado, cuja constituição de 2004 ecoou a monarquia dos anos 1960. Ghani, ex-funcionário do Banco Mundial e coautor de um livro chamado Fixing Failed States [algo como “Consertando Estados fracassados”, em tradução livre], queria construir instituições nacionais que privassem os mediadores locais do poder. Isso caiu mal com tribos e clãs importantes. “Essas tensões entre Cabul e os atores regionais abriram vácuos que o Taleban conseguiu explorar”, observa Ibraheem Bahiss, do International Crisis Group, um think-tank. “Eles passaram de um apelo realmente limitado a um movimento virtualmente nacional”.

O exército afegão que os Estados Unidos construíram era grande, bem armado e equipado com poder aéreo. Também era totalmente inadequado para a guerra em questão. A cadeia de comando formal entrou em conflito com as lealdades tribais e familiares, diz Jack Watling, do think-tank Royal United Services Institute. O resultado foi a corrupção endêmica. “O equipamento ia para o exército, para grandes armazéns, mas depois era desviado para todo o lado”, diz ele.

Embora o exército tivesse 352 mil homens no papel, a força de fato disponível ficava em cerca de 96 mil soldados, de acordo com o think-tank CNA – não muito maior do que os 60 mil do Taleban. A manutenção do equipamento fornecido pelos americanos era muito complexa, o que resultou em falhas frequentes. Isso, por sua vez, confinou grande parte do exército a bases sitiadas. Muitos soldados não foram pagos e passaram fome, e o número de vítimas foi alto. A maior parte da guerra ficou nas mãos de um pequeno quadro de forças especiais afegãs, e elas ficaram sobrecarregadas.

A decisão da retirada americana foi um golpe de misericórdia. Como observou um estudo do Vietnã realizado pela RAND Corporation e publicado em 1978, “o lado concreto – a retirada das tropas, a perda do poder aéreo dos Estados Unidos, o declínio da ajuda – não foi mais desastroso do que os concomitantes efeitos psicológicos de não ser mais considerado pelos americanos como algo que vale a pena salvar”.

Fazer amigos e ganhar influência

Os países ocidentais estão em uma situação difícil. Depois de fracassar calamitosamente, eles agora esperam exercer uma “influência moderadora” sobre o Taleban, como disse Dominic Raab, secretário de relações exteriores da Grã-Bretanha, usando duas alavancas: ajuda e reconhecimento diplomático ao novo regime. Provavelmente, nenhuma das duas será eficaz. O Irã e a Rússia, antes hostis ao Taleban, agora estão mais amigáveis, saboreando a humilhação americana no Afeganistão. Zamir Kabulov, enviado presidencial da Rússia ao país, quase aplaudiu sua vitória: o Taleban, disse ele, é “muito mais capaz de chegar a acordos do que o governo fantoche de Cabul”. O Paquistão, cujos espiões nutriram o Taleban desde seu nascimento, estava ainda mais entusiasmado. “No Afeganistão, quebraram-se as correntes da escravidão”, disse Imran Khan, o primeiro-ministro.

Mas o maior prêmio diplomático para o Taleban é a China, que faz fronteira com o Afeganistão pelo estreito corredor de Wakhan. Em 28 de julho, com a retirada americana quase completa, a China armou todo um cenário para receber uma delegação de líderes talebans em Tianjin e chamou o grupo de “força militar e política decisiva”. Pouco depois, os diplomatas chineses saudaram a perspectiva de “relações amistosas e cooperativas”.

O modo como de fato se desenrolarão as relações com os vizinhos dependerá, pelo menos em parte, dos vínculos do Taleban com grupos jihadistas internacionais. A China, por exemplo, se preocupa com a presença de militantes uigures, que considera uma ameaça à estabilidade em Xinjiang, onde os uigures são maioria e alvo de intensa repressão.

O extremismo islâmico tem sido uma preocupação também para os países ocidentais, mesmo que a ameaça tenha diminuído desde 2001. “Vinte anos atrás, fomos ao Afeganistão com uma missão, e essa missão era lidar com as pessoas que nos atacaram em 11 de setembro”, disse Antony Blinken, secretário de Estado americano, em 15 de agosto. “E nós tivemos sucesso nessa missão”. A Al-Qaeda, o grupo responsável, é apenas uma sombra do que era. Mas sua ideologia se espalhou por toda parte: gerou grupos como o Estado Islâmico, uma facção ainda mais brutal, nascida no Iraque e na Síria, bem como ramificações e terroristas que atuam como lobos solitários.

Mujahid tentou acalmar as preocupações de que o Afeganistão voltará a se estabelecer como uma base para o terrorismo global, a exemplo do que aconteceu no Onze de Setembro: “Queremos garantir a todos, especialmente aos Estados Unidos, que o Afeganistão não será usado para atacar ninguém”. Mas, no mês passado, uma equipe da ONU que monitora grupos jihadistas relatou que a Al-Qaeda continuou presente em nada menos que 15 das 34 províncias do Afeganistão, sobretudo ao longo da orla oriental do país. Um ramo local do Estado Islâmico também marca presença em vários lugares, com algo entre poucas centenas a 10 mil membros. Agências de inteligência ocidentais avaliam que Ayman al-Zawahiri, líder da Al Qaeda desde o assassinato de Osama bin Laden pelos Estados Unidos, em 2011, está no Afeganistão, embora doente. O fato de o Taleban ter libertado milhares de prisioneiros da prisão de Pul-e-Charkhi em Cabul, muitos deles jihadistas endurecidos, agrava o problema.

As autoridades americanas acreditam que podem manter os terroristas sob controle por meio de uma combinação de inteligência vigilante e ataques direcionados. Biden diz que os Estados Unidos têm uma robusta “capacidade de contraterrorismo além do horizonte”. No entanto, essa capacidade está muito enfraquecida. Em breve, não terão presença militar nem diplomática em solo. A própria agência de espionagem do Afeganistão, o Diretório Nacional de Segurança, provavelmente não sobreviverá; se o fizer, é improvável que coopere com o Ocidente. Os espiões americanos ficarão mais dependentes de agentes recrutados sobretudo fora do Afeganistão e de interceptações de sinais de comunicação.

Sem uma base aérea para operar no Afeganistão, a geografia sem litoral do país será outra restrição proibitiva. Os drones da CIA antes decolavam do vizinho Paquistão, mas suas relações com os Estados Unidos estão no fundo do poço. Mísseis ou aviões de guerra poderiam voar de bases no Golfo Pérsico ou de um porta-aviões no Mar da Arábia, mas teriam de passar pelo Irã, uma perspectiva improvável, ou pelo Paquistão, com ou sem sua permissão.

Por mais que Biden e sua equipe rejeitem comparações com o Vietnã, estas são inevitáveis. Em ambos os casos, líderes civis e militares enganaram os americanos sobre um conflito com objetivos incertos e parceiros não confiáveis, tudo isso em um terreno cultural onde nunca fincaram o pé. Mas existem muitas diferenças. As 2.452 mortes de militares americanos no Afeganistão são dolorosas, mas a guerra no Vietnã foi muito mais sangrenta – com 25 vezes mais americanos mortos – e mais polarizadora. Em outros aspectos, o fracasso no Afeganistão é pior. O exército norte-vietnamita era uma força habilidosa e blindada, observa Caitlin Talmadge, da Universidade de Georgetown, talvez com o dobro do tamanho do Taleban e apoiada por uma superpotência. Mesmo assim, o Taleban conquistou um território quatro vezes maior do que o Vietnã do Sul.

Um choque que ressoa em todo o mundo

Muitos historiadores concluíram que a União Soviética invadiu o Afeganistão e expandiu seu apoio a aliados na América Central e na África em parte pela crença de que os Estados Unidos tinham se enfraquecido no Vietnã. A China já aproveitou o desastre no Afeganistão para comemorar a retirada dos Estados Unidos, para não dizer seu declínio. O Global Times, um tabloide chauvinista dirigido pelo Partido Comunista chinês, proclamou em 16 de agosto que a retirada era um “presságio do futuro de Taiwan”. Se os Estados Unidos não estavam dispostos a absorver vários milhares de baixas no Afeganistão, sugeriu o jornal, uma guerra por Taiwan “significaria custos impensáveis”. Andrew Yang, um ex-ministro da Defesa de Taiwan, concorda que a retirada do Afeganistão é importante para Taiwan: “É uma lição para se aprender (...) Taiwan deveria depender de suas próprias autodefesas, e não do apoio americano”.

Na Índia, muitas autoridades estão preocupadas com a vitória do aliado do Paquistão e sob a perspectiva de um jihadismo energizado. E, como alinharam o país mais estreitamente com os americanos contra a China, elas são surpresas com a aparente falta de confiabilidade dos Estados Unidos. “A retirada americana (...) mostrou total desconsideração pelo que desencadearia em seu rastro”, argumenta Nirupama Rao, ex-diplomata mais graduada da Índia. “Isso desvalorizou o valor e a credibilidade do poder americano na região”, diz ela.

Os europeus reclamam que a retirada americana foi apresentada como um fato consumado. Para um diplomata, isso “confirma uma tendência de longo prazo de nosso desligamento”. Os europeus, disse ele, devem “tirar conclusões” sobre a confiabilidade da América quando se trata de crises em lugares como o Oriente Médio e o Sahel. As autoridades britânicas também estão apopléticas. Tom Tugendhat, parlamentar conservador e presidente do Comitê de Relações Exteriores do Parlamento, que serviu no Afeganistão como soldado, disse que a Grã-Bretanha deveria “estabelecer uma visão (...) para revigorar nossos parceiros europeus da Otan para garantir que não dependamos de um único aliado, da decisão de um único líder”.

Reclamações sobre a confiabilidade americana, porém, são um passatempo antigo. Os europeus reclamaram da relutância de Barack Obama em intervir na Líbia em 2011 e do cancelamento dos ataques aéreos à Síria em 2013. Os Estados do Golfo temeram o fracasso de Trump em retaliar o Irã por seu ataque a instalações de petróleo sauditas em 2019. Taiwan já experimentou a traição dos Estados Unidos, quando o país transferiu o reconhecimento diplomático formal para a China comunista em 1979, e ainda vive com ela.

Se a forma da retirada de Biden deu prova dos caprichos americanos, também mostrou sua indispensabilidade. Poucos aliados têm a quem recorrer quando a Rússia e a China se afirmam. “É um duro golpe para a América”, reconhece Michael Fullilove, diretor do Lowy Institute, um think-tank em Sydney, “mas não muda o cálculo para a Austrália”. Questionado sobre se o Japão está preocupado, um alto funcionário em Tóquio respondeu: “Não, porque o Afeganistão é o Afeganistão (...). O Japão é diferente”.

O descarte do Afeganistão

E, assim como os aliados europeus saudaram a retirada americana do Vietnã, aflitos com o risco de que a guerra estivesse desviando recursos e atenção da ameaça soviética para a Europa, muitos aliados (e falcões da China em Washington) vislumbram uma oportunidade de reorientar os Estados Unidos para suas preocupações. Como Biden observou: “Nossos verdadeiros concorrentes estratégicos, China e Rússia, adorariam se os Estados Unidos continuassem a canalizar indefinidamente bilhões de dólares em recursos e atenção para estabilizar o Afeganistão”.

A visão de longo prazo

A lição mais duradoura do Vietnã talvez seja a importância da perspectiva. No curto prazo, a confiança da América foi abalada e seus adversários comemoraram. Mas, depois de quinze anos da derrota em uma guerra travada para conter a maré comunista, os Estados Unidos venceram a Guerra Fria e emergiram como uma potência insuperável. Destruídas pelo conflito, suas forças armadas se reconstruíram como uma força inigualável e tecnologicamente avançada. Quatro décadas depois, o Vietnã é um parceiro próximo da superpotência que derrotou. Pode ser um consolo para os Estados Unidos. É de pouco consolo para os afegãos que confiaram na proteção americana e agora têm de encarar a vida sob o Taleban. / Tradução de Renato Prelorentzou.

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