Matthew Abbott/The New York Times
Matthew Abbott/The New York Times

The Economist: O que vem a seguir para os países que estão quase livres da covid-19?

Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul e Taiwan vislumbram a vida depois do vírus

The Economist, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2020 | 07h00

De todas as novas ordens que as polícias da Austrália e da Nova Zelândia se viram na tentativa de impor nas últimas semanas uma das mais complicadas foi proibir o surf. Algumas vezes, os policiais tiveram de mergulhar para repreender os infratores, muitos dos quais pularam cercas e escalaram penhascos para pegar onda. Mas a libertação já está vindo - em mais de um sentido. As restrições ao surf estão sendo atenuadas, pois o novo coronavírus parece estar sob controle em ambos os países.

Na Nova Zelândia, país de 5 milhões de habitantes, os números de casos novos ficaram abaixo dos dois dígitos ao longo da maior parte da semana passada. A Austrália registrou apenas sete novas infecções em 23 de abril. Estes fatos as colocam no pequeno grupo de países que parecem ter vencido a covid-19 - onde também se encontram a Coreia do Sul e, depois de barrar uma nova onda de infecções oriundas de um surto em um navio da Marinha, Taiwan. A Austrália já reabriu algumas praias populares (apenas para nadar e surfar) e em breve retomará cirurgias eletivas, atendimentos odontológicos e tratamentos de fertilidade. A Coreia do Sul liberou o turismo doméstico - ainda que uma região tenha cortado seus campos de tulipas para evitar atrair as habituais multidões de turistas. Taiwan não chegou a fechar todas as escolas, bares ou restaurantes.

As autoridades dos quatro países advertem que a vida ainda não está voltando ao normal. E que não se pode baixar a guarda. As autoridades alertaram que uma segunda onda do vírus pode vir no inverno. Para evitá-la, a Coreia do Sul pretende manter uma testagem extensiva e um vigoroso rastreamento de contatos a partir de imagens de câmeras de segurança, extratos de cartão de crédito e dados de localização de telefones celulares. As movimentações dos casos confirmados são divulgadas, o que vem preocupando tanto os ativistas da defesa da privacidade quanto os adúlteros. A Austrália também promete “uma supressão agressiva” fazendo uso do rastreamento de contatos e de uma das taxas de testes mais altas do mundo. A Nova Zelândia está dando um passo adiante: estabeleceu o objetivo de eliminar completamente o vírus de seu território.

Os benefícios da eliminação são claros. Enquanto muitos países correm o risco de um debilitante ciclo de lockdowns, reaberturas graduais e novas restrições, conforme o surto aumentar e diminuir, o governo da Nova Zelândia acredita que em breve poderá mandar jovens e idosos de volta ao trabalho, sem medo de que o número de casos volte a subir. “A recuperação pode ser mais suave e menos turbulenta do que em outros lugares”, disse o economista Shamubeel Eaqub. Escolas, lojas e restaurantes poderiam operar sem requisitos especiais de distanciamento social. A temporada de rúgbi poderia começar com torcida nos estádios (para o alívio dos entusiastas de esportes de todo o mundo).

Tudo isso, em teoria, poderia proporcionar às empresas o tipo de clareza para que parece um sonho em qualquer outro lugar. Provavelmente seria muito mais fácil e rápido voltar a contratar e investir se o medo de um ressurgimento da covid-19 pudesse ser dissipado. “A pior coisa que podemos fazer pelo nosso país é esse vai-e-volta entre os níveis [de quarentena]”, afirmou Jacinda Ardern, a primeira-ministra.

No entanto, encontrar todos os casos do vírus será difícil. “É a velha tarefa de encontrar uma agulha no palheiro”, argumentou Ayesha Verrall, da Universidade Otago. Os atuais testes aleatórios de trabalhadores em empregos de risco, independentemente de sintomas, terão de ser ampliados. O rastreamento de contatos precisará ser mais nítido. No começo, o governo não conseguia contatar nem 40% das pessoas que julgava expostas à doença.

Fronteiras 

Além disso, a eliminação implicará os mais rigorosos controles nas fronteiras. Atualmente, quase todos os estrangeiros estão proibidos de entrar no país, e os nacionais que retornam do exterior são colocados em quarentena por 14 dias em hotéis monitorados. As entradas logo se estancaram: em 22 de abril, nenhuma pessoa entrou no país.

Os portos também estão bem controlados. Os estivadores de Auckland trabalham em equipes pequenas e isoladas, cada uma com seu próprio banheiro, para reduzir o risco de alguma infecção se espalhar. As tripulações dos navios que chegam não têm permissão para desembarcar e podem interagir com apenas três trabalhadores portuários, que usam máscaras e coletes cor de rosa para ajudar a visibilidade.

Os modelos econômicos do governo preveem que a Nova Zelândia terá de ficar fechada para estrangeiros por um ano. Mas algumas pessoas se perguntam se será viável - ou vantajoso - manter as fronteiras fechadas. Steven Joyce, ex-ministro das Finanças, diz que eliminar o vírus é “uma utopia”. Brendan Murphy, principal autoridade médica da Austrália, diz que, embora a eliminação seja desejável, “temos muitas dúvidas de que se possa mantê-la a longo prazo, dadas as imensas restrições de fronteira necessárias”.

Mesmo que a eliminação seja bem-sucedida, muitas das grandes indústrias da Nova Zelândia não voltarão ao normal. A estagnação do turismo internacional derrubará pelo menos 5% do PIB e deixará cerca de 100 mil pessoas desempregadas. O fechamento de fronteiras também atingirá os agricultores. Todos os anos, a Nova Zelândia e a Austrália trazem centenas de milhares de mochileiros e trabalhadores sazonais para colher frutas e podar videiras. Com as fronteiras fechadas, vinícolas e fazendas ficarão sem mão de obra. Mike Chapman, do grupo de lobby Horticulture New Zealand, teme que será difícil convencer desempregados urbanos a subir escadas para colher maçãs.

Os exportadores estão se digladiando para encontrar espaço nos poucos aviões que ainda saem do país. Antes da crise, 80% do frete aéreo da Nova Zelândia era transportado em aviões de passageiros. A Air New Zealand, a companhia aérea nacional, cortou 95% de seus voos internacionais de passageiros. Os produtores de lagostins estão prejudicando os fazendeiros de tomate na briga por voos de exportação, observa Chapman, com amargor.

Enquanto isso, visando à eliminação do vírus, Ardern anunciou recentemente uma extensão de cinco dias do estrito lockdown da Nova Zelândia. O custo extra de curto prazo, diz ela, proporcionará “retornos econômicos e sanitários muito maiores a longo prazo”.

Outros países estão gerenciando as fronteiras de maneira diferente. A Coreia do Sul ainda permite a entrada de estrangeiros, desde que permaneçam em quarentena por 14 dias. Alguns podem até escapar da quarentena, entre eles empresários em viagens curtas. Eles são testados na chegada e, se apresentam resultados negativos, podem viajar livremente, sob a condição de responderem aos chamados dos profissionais de saúde e registrarem diligentemente quaisquer sintomas em um aplicativo. Taiwan também está permitindo a entrada de alguns visitantes a negócios, sujeitando-os às regras de quarentena.

No entanto, o plano de eliminação do vírus na Nova Zelândia tem amplo apoio popular. Uma pesquisa no início de abril revelou que 84% dos neozelandeses aprovam a resposta do governo à pandemia - 30 pontos percentuais acima da média do G7. Existe até a esperança de que outros países possam ingressar nessa suposta zona livre de vírus. O vice-primeiro-ministro, Winston Peters, falou da possibilidade de uma “bolha trans-tasmaniana”, com Austrália e Nova Zelândia mantendo o vírus sob controle. Essa bolha também poderia incluir alguns países do Pacífico - desde que não venha a estourar. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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