Guillermo Arias / AFP
Guillermo Arias / AFP

The Economist: O recuo de Trump para evitar outra paralisação do governo

Presidente americano não gostou do acordo bipartidário negociado no Congresso, mas deve aceitá-lo desde que consiga reivindicar vitória sobre os termos decididos por republicanos e democratas

The Economist, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2019 | 11h23

"Os acordos são minha forma de arte", escreveu o presidente americano, Donald Trump. "Eu gosto de fazer acordos, de preferência grandes acordos. É isso que me dá prazer." Eles também são a forma pela qual ele é derrotado. Assim que a The Economist foi para a gráfica, na quinta-feira, Trump parecia prestes a assinar um projeto de lei de gastos que evitaria nova paralisação do governo, mas a um custo mais elevado para sua reputação de "Ás" da negociação.

No ano passado, o republicano causou a mais longa paralisação do governo na história recente porque o Congresso não aprovara os US$ 5,7 bilhões solicitados para seu muro na fronteira. Depois de ver seus índices de aprovação caírem alguns pontos, ele concordou em 25 de janeiro em abandonar a paralisação do governo por três semanas - sem financiamento para o seu muro - para dar tempo ao grupo bipartidário de parlamentares para chegar a um acordo sobre gastos com segurança na fronteira.

As duas partes, familiarizadas com escritos anteriores do presidente, estabeleceram posições maximalistas. Trump insistiu em seus US$ 5,7 bilhões. Os democratas queriam limitar o número de leitos disponíveis para imigrantes sem documentos presos dentro dos Estados Unidos (em oposição aos que cruzassem a fronteira) por volta de 16 mil por dia - bem abaixo dos níveis atuais e do que o governo desejava.

O número de leitos tem importância por causa de um "mandato de leito" exigindo que a polícia de imigração dos EUA preencha todos os leitos dos centros de detenção de imigrantes que foram pagos pelo Congresso. O grupo de pessoas que são aptas para deportação dos EUA sob esta administração é muito maior do que o número de pessoas que podem ser abrigadas, então quanto mais leitos houver, mais pessoas poderão ser detidas para posterior deportação. 

O acordo prevê financiamento para mais do que o dobro de leitos que os democratas desejavam. Mas só inclui cerca de US$ 1,3 bilhão para novas cercas físicas ao longo da fronteira sul - não só menos do que Trump exigiu, mas menos até mesmo do que o US$ 1,6 bilhão que os democratas o ofereceram pouco antes da paralisação.

Trump inicialmente resmungou que não estava "feliz" com o acordo. Sean Hannity, uma personalidade da Fox News que está entre os mais empenhados defensores do presidente americano, o considerou "um lixo de acordo", enquanto Mark Meadows, que preside a House Freedom Caucus, de extrema direita, disse não poder imaginar Trump "aplaudindo algo tão deficiente".

Alguns dias depois, as coisas haviam mudado. Laura Ingraham, uma comentarista política no estilo de Hannity, considerou a modesta quantia de financiamento para o muro como uma vitória, porque Nancy Pelosi, a líder da maioria democrata da Câmara, inicialmente havia dito que não daria um único dólar para o muro de Trump. 

Trump tuitou que o financiamento fornecido pelo Congresso "poderia ser associado a grandes quantias de dinheiro de outras fontes… que poderiam chegar a quase US$ 23 bilhões". "Independentemente do dinheiro para o muro, ele está sendo construído enquanto falamos!", escreveu o presidente americano. Que outras fontes de dinheiro podem ser essas, ou de onde vem a cifra de US$ 23 bilhões, é um mistério.

O presidente pode ainda declarar uma emergência nacional na fronteira e direcionar fundos do Pentágono para a construção de muros. Mas a Casa Branca quase certamente seria processada e, de qualquer forma, muitos conservadores tremem ante essa perspectiva. Afinal, o que impediria um futuro presidente democrata de fazer o mesmo e encher o Texas de painéis solares? E se o muro, segundo Trump, já está sendo construído, então por que declarar uma emergência? 

Ainda assim, se o acordo permitir que Trump reivindique a vitória, enquanto continua a golpear os democratas por questões referentes à imigração, isso pode ser ótimo para ele. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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