Don EMMERT / AFP
Don EMMERT / AFP

The Economist: O socialismo dos millennials

Um novo tipo de doutrina esquerdista está surgindo, mas não é uma resposta para os problemas do capitalismo

The Economist, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2019 | 05h00

Após o colapso da União Soviética, em 1991, a disputa ideológica do século 20 parecia encerrada. O capitalismo havia vencido e o socialismo tornou-se sinônimo de fracasso econômico e opressão política. Hoje, 30 anos depois, o socialismo está de novo na moda. Nos EUA, Alexandria Ocasio-Cortez, deputada recém-eleita que se denomina socialista democrata, tornou-se sensação. Na Grã-Bretanha, Jeremy Corbyn, o líder de linha dura do Partido Trabalhista, ainda pode se tornar premiê. 

O socialismo avança porque estabeleceu uma crítica incisiva sobre o que deu errado na sociedade ocidental. Enquanto os políticos de direita desistem da batalha das ideias e recuam em direção ao chauvinismo e à nostalgia, a esquerda se concentra na desigualdade, no meio ambiente e em como investir os cidadãos de poder, e não as elites. No entanto, embora renascida e tendo acertado algumas coisas, o pessimismo da esquerda em relação ao mundo moderno vai longe demais. Suas políticas sofrem de ingenuidade sobre orçamentos, burocracia e empresas.

A vitalidade renovada do socialismo é notável. Nos anos 90, os partidos de esquerda mudaram para o centro. Da mesma forma, líderes de Grã-Bretanha e EUA, Tony Blair e Bill Clinton, afirmaram ter encontrado uma “terceira via”, uma acomodação entre Estado e mercado. “Este é o meu socialismo”, disse Blair, em 1994, ao abolir o compromisso do trabalhismo com as estatais. Ninguém foi enganado, especialmente os socialistas.

A esquerda hoje vê a terceira via como um beco sem saída. Muitos dos novos socialistas são millennials. Cerca de 51% dos americanos entre 18 e 29 anos têm uma visão positiva do socialismo, diz o Gallup. Nas prévias de 2016, mais jovens votaram em Bernie Sanders do que em Hillary Clinton e Donald Trump juntos. Quase um terço dos eleitores franceses com menos de 24 anos, em 2017, votou no candidato da extrema esquerda. 

Nem todos os objetivos dos socialistas millennials são radicais. Nos EUA, uma das políticas é a defesa do sistema de saúde universal, o que é normal em outras partes do mundo rico. Os radicais à esquerda dizem querer preservar as vantagens da economia de mercado. E, tanto na Europa quanto nos EUA, a esquerda é uma coalizão ampla e fluida, como são os movimentos com ideias em fermentação.

Mas existem temas comuns. Os socialistas millennials acham que a desigualdade saiu do controle e a economia é manipulada em favor de interesses pessoais. Eles acreditam que o público deseja que a renda e o poder sejam redistribuídos pelo Estado. Eles acham que a miopia e os lobbies levaram os governos a ignorar a crescente probabilidade de uma catástrofe climática. E eles acreditam que as hierarquias que governam a sociedade e a economia não servem mais aos interesses das pessoas comuns.

Parte disso é inquestionável, incluindo a praga do lobby e a negligência com o meio ambiente. A desigualdade no Ocidente realmente disparou nos últimos 40 anos. Nos EUA, a renda média do 1% superior subiu 242%, seis vezes o aumento para os intermediários. Mas a “nova” esquerda também deixa que partes importantes de seu diagnóstico estejam erradas – e suas prescrições também.

Comecemos pelo diagnóstico. É errado pensar que a desigualdade deve continuar a crescer inexoravelmente. A desigualdade de renda entre americanos caiu, entre 2005 e 2015, após o ajuste de impostos e transferências. A renda familiar média aumentou 10% em termos reais em três anos até 2017. Dizem que os empregos são precários, mas, em 2017, havia 97 empregados tradicionais em tempo integral para cada 100 americanos com idades entre 25 e 54 anos, em comparação com apenas 89, em 2005. A maior fonte de precariedade não é a falta de empregos estáveis, mas o risco econômico de outra recessão.

Os socialistas millennials também erram no diagnóstico sobre a opinião pública. Eles estão certos de que as pessoas sentem que perderam o controle sobre suas vidas e as oportunidades murcharam. O público também se ressente da desigualdade. Os impostos sobre os ricos são mais populares que os impostos sobre todos cidadãos. No entanto, não existe um desejo de redistribuição radical. O apoio dos americanos à redistribuição não é mais elevado do que era em 1990 e o país recentemente elegeu um bilionário que prometeu cortes de impostos corporativos. 

Se o diagnóstico da esquerda é muito pessimista, o verdadeiro problema está em suas prescrições, que são perdulárias e politicamente perigosas. Tome-se a política fiscal. Alguns à esquerda propagam o mito de que vastas expansões de serviços governamentais podem ser pagas por impostos mais altos sobre os ricos. Na realidade, à medida que a população envelhece, é difícil manter os serviços sem aumentar os impostos sobre a classe média. 

Ocasio-Cortez propôs uma taxa de imposto de 70% sobre rendimentos mais elevados, mas uma estimativa plausível situa a receita extra resultante em apenas US$ 12 bilhões, ou 0,3% do total de impostos arrecadados. Alguns radicais vão mais longe, defendendo uma “moderna teoria monetária”, que diz que os governos podem tomar emprestado livremente para financiar novos gastos, mantendo baixas as taxas de juros. Mesmo que os governos tenham recentemente conseguido emprestar mais do que muitos formuladores de políticas esperavam, a noção de que empréstimos ilimitados não colocam uma economia em dia é uma forma de charlatanismo.

A desconfiança nos mercados leva os socialistas millennials a conclusões erradas sobre o meio ambiente também. Eles rejeitam impostos de carbono neutros em termos de receita como a melhor maneira de incentivar a inovação do setor privado e combater as mudanças climáticas. Eles preferem planejamento central e amplos gastos públicos em energia verde.

A visão dos socialistas millennials de uma economia “democratizada” dissemina o poder regulador, em vez de concentrá-lo. Isso tem algum apelo para os interessados na priorização dos temas locais, mas o “localismo” precisa de transparência e responsabilidade, não dos comitês facilmente manipulados, favorecidos pela esquerda britânica. 

O incentivo para democratizar se estende aos negócios. Os socialistas millennials querem mais trabalhadores em conselhos e confiscar ações de empresas e entregá-las aos trabalhadores. Países como a Alemanha têm tradição de participação dos funcionários.

Mas o desejo dos socialistas de maior controle sobre a empresa está enraizado em uma suspeita das forças remotas desencadeadas pela globalização. Capacitar trabalhadores para resistir à mudança engessaria a economia. Menos dinamismo é o oposto do que é necessário para o renascimento da oportunidade econômica.

Em vez de proteger as empresas e os empregos, o Estado deve garantir que os mercados sejam eficientes e os trabalhadores sejam o foco da política. Em vez de ficarem obcecados com a redistribuição, os governos fariam melhor se reduzissem a busca por renda pessoal, submetendo políticas públicas aos seus interesses (“rent-seeking”), melhorassem a educação e aumentassem a concorrência.

A mudança climática pode ser combatida com uma mistura de instrumentos de mercado e investimento público. Os socialistas millennials têm uma revigorante disposição de contestar o status quo. Mas, como o socialismo antigo, sofrem de uma fé na incorruptibilidade da ação coletiva e de uma suspeita injustificada do poder individual. Os liberais deveriam ser contra isso. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO   

 

 

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