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The Economist: O terrível triunfo do Taleban no Afeganistão

Jihadistas tomaram Cabul, preenchendo vácuo deixado pelo presidente dos EUA, Joe Biden

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2021 | 05h00
Atualizado 16 de agosto de 2021 | 06h34

CABUL - Nos últimos anos, o palácio presidencial em Cabul, conhecido como Arg, ou cidadela, foi um oásis de calma em uma cidade agitada e enervante. Para chegar até lá, os visitantes tinham que passar por cerca de um quilômetro e meio de postos de controle com comandos cada vez mais bem armados do exército afegão.

Dentro do pátio do século 19, funcionários do governo afegão bebericavam lattes de máquinas de café, cercados por jardins bem cuidados, e discutiam a política do lado de fora, no Afeganistão de verdade. Quando os oficiais do país visitaram pela última vez as autoridades do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, explicaram que, na opinião deles, o Taleban estava enfraquecido.

A única razão pela qual eles não haviam sido derrotados pelo exército do Afeganistão apoiado pelos americanos, na opinião daqueles oficiais, era que o governo do Afeganistão não queria pôr os civis em perigo ao partir para a ofensiva. “Eles não são capazes de conquistar uma vitória militar”, disse um oficial. “Nossas forças especiais são muito fortes. O Taleban só pode atacar e fugir."

Em 15 de agosto, helicópteros estavam indo e voltando do Arg, evacuando os mesmos oficiais. Uma nuvem de fumaça emergia da embaixada americana, semelhante a uma fortaleza, enquanto os funcionários queimavam documentos confidenciais. Praticamente um mês depois de o presidente Joe Biden declarar que "não haverá nenhuma circunstância em que você verá pessoas sendo resgatadas do telhado" da embaixada americana, como em Saigon em 1975, quando helicópteros foram fotografados pairando sobre o complexo, transportando diplomatas para o aeroporto.

Enquanto isso, Zabihullah Mujahid, o porta-voz do Taleban em Doha, a capital do Catar onde os talibãs têm sua unidade diplomática e política, declarou magnanimamente que as forças do Taleban interromperiam seu avanço nos portões da cidade enquanto as negociações para a rendição continuassem. Ashraf Ghani, presidente do Afeganistão desde 2014, teria fugido do país com seus assessores mais próximos. O Estado afegão, construído ao longo de duas décadas com trilhões de dólares, parece ter desaparecido no ar.

Como um governo com 350 mil soldados treinados e equipados pelos melhores exércitos do mundo colapsa tão rapidamente? Em 1975, o exército do Vietnã do Norte, apoiado por uma superpotência, levou meses para avançar pelo Vietnã do Sul, lutando arduamente pelo território. O Taleban, que se acredita não ter mais do que 200 mil soldados, armados, em sua maioria, com equipamentos que confiscaram de seus inimigos, tomou todos os centros urbanos do Afeganistão em pouco mais de uma semana, geralmente sem muita resistência.

A resposta parece ser que o que eles não têm em força, compensam em inteligência, determinação e perspicácia política. No ano passado, diplomatas em Doha esperavam que o Taleban pudesse ser obrigado a negociar com o governo de Ghani para concordar com algum tipo de acordo de divisão de poder. Os rebeldes evidentemente perceberam que seria mais vantajoso negociar com os subordinados de Ghani, cidade por cidade, e, desse modo, simplesmente puxar o tapete debaixo dele.

Consequentemente, em Herat, uma importante cidade próxima à fronteira com o Irã, Ismail Khan, o senhor da guerra que recuperou a cidade das mãos do Taleban em 2001, depois de lutar por dias, rendeu-se e foi filmado, em cativeiro, implorando por "um ambiente pacífico". Em Kandahar, a cidade no coração do sul do Afeganistão que produz cereais para o país e local de nascimento do Taleban original, o governador foi fotografado entregando-se ao seu homólogo talibã. Em Jalalabad, no leste, o Taleban avançou sem disparar um tiro, depois que os anciãos da cidade negociaram uma rendição. Mazar-i-Sharif, uma cidade do norte que já serviu como bastião da resistência antiTaleban na década de 1990, se entregou de modo semelhante.

Em cada caso, os talibãs fizeram diversas promessas de “perdoar” aqueles que serviram ao governo apoiado pelos Estados Unidos, em troca de rendição. Em Kandahar, os ex-soldados que se renderam receberam documentos laisser passer, que podem ser exibidos nos postos de controle do Taleban. Lá, durante toda a noite de sexta-feira, o som dos tiros ecoou pela cidade. De acordo com os moradores, a maior parte foi disparada para o ar em comemoração.

O exército afegão, com toda a sua força aparente, parece ter caído no que pode ser chamado de síndrome de Yossarian, em homenagem a um personagem do romance de segunda guerra mundial de Joseph Heller, Ardil-22. Yossarian foi questionado em relação ao que aconteceria se todos pensassem, assim como ele, que lutar era inútil, e respondeu que "seria um idiota se sentisse de outra forma, não seria?".

Da mesma forma, o Washington Post citou um oficial afegão explicando por que seus soldados não parariam o Taleban: “Irmão, se ninguém mais luta, por que eu deveria?”. A motivação do exército afegão não foi ajudada com a crise fiscal do governo, que fez com que funcionários do governo e soldados ficassem sem receber salários durante meses.

O que significa a tomada do Afeganistão pelo Taleban? Apesar de todas as suas promessas de mostrar misericórdia pela vitória, poucos entre aqueles da elite intelectual do país estão tranquilos. Depois que os talibãs tomaram Spin Boldak, uma cidade na fronteira com o Paquistão que estava entre as primeiras a ser tomada no fim de julho, relatos confiáveis surgiram rapidamente depois sobre dezenas de apoiadores do governo sendo massacrados.

Em Kandahar, no final de julho, quando os talibãs começaram a tomar os arredores da cidade, eles sequestraram Nazar Mohammad, um famoso comediante, e o assassinaram.  Relatos de Kandahar dizem que talibãs armados estão indo de porta em porta em busca de pessoas que trabalharam para governos ocidentais. Nas últimas semanas, milhares de refugiados se reuniram nos parques de Cabul. Centenas se aglomeraram nos centros de solicitação de vistos, esperando por um espaço nas evacuações de última hora organizadas pelas potências do ocidente.

O braço político do Taleban em Doha alegou que eles não são mais os teocratas sangrentos que governaram o Afeganistão de 1996 a 2001, quando criminosos acusados foram executados publicamente nos campos de futebol de Cabul, entre eles mulheres que foram apedrejadas até a morte por adultério. Seus negociadores têm enfatizado que não há regra no Islã contra a educação das mulheres, por exemplo.

Contudo, a desconexão entre as declarações feitas no Catar e o que está sendo feito pelos comandantes do Taleban no Afeganistão atualmente é do tamanho de um cânion. Em Herat, onde 60% dos alunos da universidade eram mulheres, elas já teriam sido obrigadas a voltar para suas casas. Aquelas que trabalham foram instruídas a ceder seus empregos a parentes do sexo masculino. Quanto à educação das meninas, um comandante do Taleban, entrevistado pela BBC, foi absolutamente claro. “Nem uma única menina foi à escola em nosso vilarejo e no nosso distrito (...) as instalações não existem e não permitiríamos isso de qualquer modo.”

Mesmo o melhor cenário possível, onde a liderança do Taleban decide mostrar que leva a sério a reforma, parece desolador. Com certeza, o governo do Afeganistão fez apenas progressos esporádicos no aumento da qualidade de vida dos afegãos comuns, até mesmo nas cidades, onde teve muito mais controle do que no campo. Sua corrupção foi profunda e irritante e, sem dúvida, parte da razão pela qual o Taleban conseguiu conquistar o país com tanta eficácia.

Imagens de vídeos de soldados do Taleban caminhando pelo opulento interior da casa capturada de Abdul Rashid Dostum, um senhor da guerra e ex-vice-presidente, que teria fugido para o Uzbequistão, evidencia a podridão do Estado. E, mesmo assim, sustentado por um tsunami de ajuda financeira, o governo educou as pessoas e poucos afegãos morreram de fome. À medida que as embaixadas fecham e os estrangeiros fogem, a ajuda que sustentou a economia do país e ajudou a educar suas crianças, inclusive as meninas, certamente desaparecerá agora. Uma catástrofe humanitária poderia acontecer como resultado rapidamente.

A humilhação dos Estados Unidos e de seus aliados do ocidente dificilmente poderia ser mais severa. Uma vez que a evacuação de seus cidadãos - e daqueles poucos trabalhadores afegãos sortudos o suficiente para conseguir uma passagem - terminar, os governos do ocidente terão pouca escolha a não ser aceitar que o Taleban está no poder. No fim dos anos 90, o governo do Taleban foi reconhecido apenas por um punhado de países, particularmente por Paquistão e Arábia Saudita.

Naquela época, a Aliança do Norte antiTaleban, um conjunto de exércitos concentrados no norte do Afeganistão, lutou em conjunto contra o Taleban. Dessa vez, o grupo foi sagaz o suficiente para derrotar o norte primeiro. Hoje, as autoridades talibãs já se reuniram com diplomatas de várias outras potências. No fim de julho, uma delegação de talibãs se encontrou com o ministro das Relações Exteriores da China. A embaixada da Rússia declarou que não vai deixar Cabul. A União Europeia prometeu “isolar” o novo governo caso ele se apodere do poder por meio de violência. Isso parece menos e menos crível a cada minuto. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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