EFE/EPA/NIC BOTHMA
EFE/EPA/NIC BOTHMA

The Economist: o vírus já está aqui, e algumas restrições são ineficazes

Por que as proibições de viagens geralmente podem ser a maneira errada de conter o avanço da variante Ômicron no mundo

The Economist, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2022 | 05h00

Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi informada sobre um conjunto do que parecia serem casos de pneumonia em uma cidade chinesa chamada Wuhan. Nas semanas e meses seguintes, primeiro as cidades fecharam, depois os países e, finalmente, o planeta inteiro fechou. A humanidade aprendeu muito sobre o coronavírus nos últimos dois anos. Máscaras, distanciamento social e, acima de tudo, vacinas têm se mostrado eficazes para conter sua disseminação. No entanto, uma lição não foi assimilada: as prolongadas restrições de viagens são, em sua maioria, inúteis.

Em novembro, quando a África do Sul anunciou a descoberta de uma nova variante de rápida disseminação, a Ômicron, a primeira resposta de muitos países foi proibir a entrada ou fazer onerosas exigências de quarentena em hotéis para os viajantes da África Austral. Alguns, como Japão e Israel, fecharam suas fronteiras para todos os estrangeiros. Outros que estavam em processo de reabertura, como Cingapura, Coreia do Sul e Tailândia, mudaram de ideia rapidamente. Obstáculos para viajar foram reerguidos mesmo dentro do Espaço Schengen, área supostamente sem fronteiras da Europa.

Restrições de viagens impostas rapidamente fazem sentido nos estágios iniciais de um surto, quando as infecções de uma variante são poucas e os sistemas de teste e rastreamento ainda são capazes de seguir os caminhos do contágio. Quando os casos importados representam mais de 10% das infecções, as proibições podem ter um grande impacto no crescimento da epidemia. Assim, é possível ganhar tempo para descobrir mais sobre uma nova variante, preparar hospitais ou implementar vacinas.

Mas as proibições de viagens costumam continuar, embora, uma vez que um vírus ou variante esteja circulando livremente em um país, sejam em grande parte inúteis. No momento em que a França proibiu viagens não essenciais do Reino Unido em 16 de dezembro, na esperança de impedir a entrada da Ômicron, o país já registrava uma média diária de mais de 50 mil infecções, 10% a mais que seu pico durante a onda da delta no início do ano. Qualquer infecção importada faria, a essa altura, pouca diferença no peso da doença – certamente não o suficiente para justificar a ruptura econômica e social causada pela proibição de viagens.

Uma das razões pelas quais as restrições de viagens tendem a não ter benefícios duradouros é que a maioria delas tem vazamentos. Com muito poucas exceções, os países permitem que cidadãos, residentes, suas famílias, trabalhadores essenciais, diplomatas, empresários importantes ou qualquer combinação desse tipo cruzem as fronteiras. Os países que impõem proibições de viagens de longo prazo bem-sucedidas, como fizeram a Austrália e a Nova Zelândia, devem fazê-lo a um custo enorme, não apenas para suas conexões globais, mas também para seus próprios cidadãos. Durante grande parte de 2021, os australianos lutaram para voltar ao seu próprio país e tiveram que pagar quantias exorbitantes por voos e hotéis onde fazer quarentena. Para ‘manter o covid-19 do lado de fora, tais decisões devem ser reforçadas por medidas draconianas em casa também. Os australianos não tiveram permissão para cruzar as fronteiras dos Estados durante a maior parte dos últimos dois anos; a cidade de Melbourne ficou fechada por 262 dias em 2021.

Essas políticas podem salvar vidas e têm menos vazamentos em ilhas. Mas poucas democracias estão dispostas a tolerá-las por muito tempo. Na verdade, o único país que ainda segue uma política estrita de “covid zero” é a China, que está tomando medidas cada vez mais desesperadas para conter os recentes surtos do vírus. Em Xian, uma cidade de cerca de 13 milhões de habitantes onde as infecções diárias aumentaram de zero para mais de 100 em dezembro, as autoridades impuseram um lockdown feroz, estão repetidamente testando a população em massa e colocaram cerca de 30 mil pessoas em quarentena em hotéis. Esses métodos são populares na China, onde as pessoas dão crédito a seus severos governantes por mantê-las seguras. Mas está longe de ser claro se a política de covid zero da China é sustentável, dada a alta transmissibilidade da Ômicron, nem como a China irá se movimentar para além dela mesma para viver com a doença.

Para o restante do mundo, a melhor tática é os governos promoverem políticas mais econômicas, especialmente vacinas e doses de reforço, enquanto resistem ao impulso de proibir coisas apenas para criar a ilusão de determinação. O Reino Unido e os Estados Unidos têm demonstrado admirável bom senso ultimamente. Ambos os países removeram as restrições de viagem aos países da África Austral, uma vez que ficou claro que a variante estava circulando em casa. Os EUA encurtaram a janela durante a qual um teste de covid negativo deve ser obtido antes de viajar. O Reino Unido pediu que os viajantes que chegassem fizessem um teste dois dias após a chegada e se isolassem até receber um resultado negativo. Mesmo assim, tais medidas devem ter o objetivo de serem proporcionais e minimamente perturbadoras. / TRADUÇÃO DE LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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