AFP PHOTO / ADALBERTO ROQUE
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The Economist: Paz, finalmente, na Colômbia

Governo e Farc concluem diálogo e marcam fim do conflito de 52 anos, mas população tem motivos para desconfia

O Estado de S. Paulo

24 Junho 2016 | 05h00

Antes tarde do que nunca. Depois de 52 anos de conflito, quase 4 anos de negociações de paz e passados três meses da data marcada para a assinatura de um acordo, o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), uma guerrilha de inspiração marxista, concordaram com um cessar-fogo bilateral e “definitivo”. Isso é motivo de celebração, tanto para a Colômbia quanto para os outros países da região. Mas o acordo de paz é controvertido. Sua implementação será complexa e talvez venha a ser dificultada pela impopularidade do presidente Juan Manuel Santos.

Ontem, Santos esteve em Havana – que serviu de sede para as negociações – para participar de uma cerimônia com o líder das Farc, Rodrigo Londoño, o Timochenko, em que também estavam presentes o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e cinco presidentes latino-americanos. Na prática, os dois lados já não vinham trocando muitos tiros desde julho do ano passado, quando as Farc declararam um cessar-fogo unilateral e o governo de Santos suspendeu suas operações ofensivas. Mas a declaração formal de um cessar-fogo por parte das autoridades colombianas é histórica.

O que viabilizou isso foi o acordo a que os dois lados chegaram em torno dos detalhes relativos à desmobilização das Farc, envolvendo o agrupamento dos 6,8 mil soldados e 8,5 mil milicianos do grupo em pontos fixos espalhados pelo país. Só depois que os colombianos aprovarem o acordo de paz, por meio de um referendo – a ser realizado em outubro, talvez –, é que, sob a supervisão de observadores internacionais, as Farc começarão a pôr suas armas “fora de uso”.

Os negociadores chegaram a um consenso sobre todos os cinco pontos de sua agenda original. Ainda há detalhes a serem ajustados. Santos espera que o acordo definitivo possa ser assinado em julho. De qualquer forma, os dois lados agora dizem que o processo não tem mais volta.

Para os colombianos, o acordo implica “engolir alguns sapos”. As Farc dizem ter travado uma guerra justa contra a propriedade desigual da terra. Na luta por essa causa, o grupo fez com que o país fosse palco de combates com uso de artilharia leve e pesada, além de assassinatos, sequestros e extorsões. Para muitas pessoas, não é fácil aceitar que os líderes da guerrilha, acusados de crimes contra a humanidade, escapem da cadeia – bastando, para tanto, que apresentem suas confissões. Mas os guerrilheiros serão julgados por um tribunal especial e poderão sofrer restrições a sua liberdade por um período de até oito anos. 

Muitos outros pontos do acordo estabelecem que as autoridades colombianas têm de se comprometer a realizar coisas que já estão entre suas obrigações, tais como promover o desenvolvimento rural e adotar novos métodos de combate ao tráfico de drogas e às gangues criminosas.

Álvaro Uribe, antecessor de Santos na presidência da Colômbia, lançou uma campanha de “resistência civil” ao acordo, pois, em sua opinião, ele colocará o país nas mãos das Farc e do “castro-chavismo”. Isso não é verdade. Mas não quer dizer que não existam motivos para preocupação. 

Ninguém sabe quanto dos proventos de suas atividades criminosas as Farc guardaram. Muitos desconfiam da sinceridade da conversão dos guerrilheiros à democracia. E o próprio fato de as negociações de paz terem se arrastado por tanto tempo é um dos elementos que fazem com que os colombianos não morram de amores por Santos. Levantamento recente põe a aprovação do presidente em meros 20%, abaixo da que Nicolás Maduro tem na Venezuela.

Desconfiança. Aos olhos dos colombianos, a credibilidade do acordo dependerá da integridade dos membros do tribunal especial e da supervisão efetiva do desarmamento. Pesquisas indicam que, no referendo, o acordo deve ser aprovado com mais de 65% dos votos. Não menos importante será a implementação ágil, nas áreas sob influência das Farc, de projetos governamentais que ofereçam emprego ao grosso dos integrantes da guerrilha. Também será fundamental que nessas áreas as autoridades sejam capazes de oferecer segurança, justiça e um governo efetivo. 

Restam duas outras complicações. O Exército de Libertação Nacional (ELN), uma guerrilha de menor porte, não parece verdadeiramente interessado na paz. O grupo poderá recrutar eventuais desertores das Farc e terá de ser combatido. Além disso, gangues criminosas, cujos líderes saíram dos grupos paramilitares de direita, desmobilizados há dez anos, estão se fortalecendo.

Infelizmente, o acordo de paz foi concluído num momento em que a Colômbia passa por forte ajuste econômico. Segundo o FMI, o PIB do país deve crescer apenas 2,5% este ano, frente a uma expansão de 4,4% em 2014. A fim tapar o rombo na arrecadação, resultante da queda nos preços do petróleo, Santos prepara para o fim do ano uma elevação tributária. Seus adversários se indignam com a ideia de pagar mais impostos para ajudar as Farc.

No entanto, como diz Santos, a guerra custa bem mais caro que a paz. Se o acordo está longe de ser perfeito, isso se deve ao fato de que a ofensiva militar movida por Uribe – que durante três anos comandou o próprio Santos, então ministro da Defesa — enfraqueceu as Farc, mas não as derrotou. Ainda que há muito tempo o conflito colombiano seja um anacronismo, isso não torna mais fácil acabar com ele. A paz com as Farc trará melhorias para a vida dos colombianos, em especial para os que vivem nas zonas rurais mais remotas do país. Por mais que venha tarde, é um grande prêmio. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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