AP Photo/Gbemiga Olamikan
AP Photo/Gbemiga Olamikan

The Economist: Por que a variante Ômicron não é uma punição à desigualdade vacinal

O mundo rico deveria compartilhar as doses que possui por uma série de outras razões

The Economist, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 08h25

Você ouviu isso diversas vezes durante a pandemia: ninguém está a salvo até que todos estejam a salvo. Grandes populações não vacinadas de países pobres contrairão covid-19. O vírus seguirá sofrendo mutações inevitavelmente e voltando a se espalhar pelo mundo rico. O mundo rico deveria, portanto, abastecer de vacinas os países pobres, a fim de que eles não se tornem perigosos campos de germinação de novas variantes. 

Frente a isso, a descoberta da variante Ômicron na África do Sul, este mês, é prova de que esses argumentos estavam corretos. Somente 23% dos sul-africanos com mais de 12 anos foram completamente vacinados. No vizinho Botsuana, um dos muitos países onde a Ômicron pode ter se originado, o índice é de 18%. Na África Subsaariana, 116 milhões de doses de vacina foram ministradas, em comparação com 611 milhões na União Europeia, cuja população tem menos da metade do tamanho. A moral da história é clara: se a Ômicron se provar mortífera, o mundo rico será punido por seu egoísmo. 

De fato, a Ômicron ilustra o grau de dubiedade dessa afirmação. Ao sequenciar os genomas das variantes de SARS-CoV-2, o vírus causador da covid, cientistas são capazes de construir uma árvore genealógica chamada cladograma, que rastreia o acúmulo de mutações sobre o coronavírus original, identificado primeiramente em Wuhan, no fim de 2019 (veja o quadro). Trevor Bedford, virologista do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, mostrou que a Ômicron se ramificou no início de 2020, antes da Delta entrar em cena. Desde então, ela permaneceu indetectada e, até agora, não havia se espalhado. 

Há três explicações possíveis para isso. O vírus que se modificou para a Ômicron pode ter permanecido em alguma uma população isolada que restabeleceu contato com o mundo exterior recentemente. Pode ter saltado para algum animal e retornado. Ou, mais provavelmente, viveu por um longo período no corpo de algum paciente imunodeprimido, onde teve tempo de acumular vastas coleções de mutações, algumas das quais capazes de escapar de anticorpos, atrelando-se a células humanas e injetando-as com o genoma viral. 

Todas essas explicações fazem sombra à máxima de que ninguém está a salvo até que todos estejam a salvo. Para enxergar por que, considere que a covid está a caminho de se tornar uma doença endêmica. Hesitação significa que os países nunca serão capazes de vacinar completamente suas populações, às vezes por margens largas. Mesmo pessoas protegidas por vacinação ou infecções anteriores podem ser suscetíveis à covid - felizmente, seus casos são usualmente brandos. Algumas podem transmitir o vírus. 

O desfecho é que, à medida que a covid continua a circular, todos na Terra serão expostos mais cedo ou mais tarde à doença - e não apenas uma vez, mas com frequência. De uma coisa você pode ter certeza: se lhe for dado tempo suficiente, o coronavírus chegará à variante Ômega. Isso porque sempre haverá populações isoladas. O vírus ocasionalmente saltará para animais. Pessoas com sistemas imunológicos enfraquecidos serão infectadas. 

A vacinação poderá diminuir a frequência desses eventos. Muito ainda não se sabe, mas a UE vacinou completamente 79% de seus habitantes com mais de 12 anos, e os novos casos, não obstante, registram índices semanais de 2,5 milhões. Em contraste, a África do Sul registrou um total de 3 milhões de casos em toda a pandemia. Apesar desse número ser amplamente subestimado, uma grande quantidade de vírus está circulando na EU - e sofrendo mutações. 

Você pode ver por que as pessoas se aferram à ideia de que ninguém está a salvo até que todos estejam a salvo. Elas querem que as vacinas sejam amplamente disponibilizadas, mas temem que chamados por altruísmo cheguem a ouvidos moucos nos países ricos. Por este motivo, defendem a “equidade vacinal”, valendo-se de um apelo ao interesso próprio.

Ainda assim, por mais bem-intencionados que possam ser, argumentos confusos podem acabar parecendo manipuladores e hipócritas, enfraquecendo a própria causa que estão destinados a apoiar. O melhor argumento para justificar por que o mundo rico deveria compartilhar as vacinas que possui é mais simples e mais poderoso. Vacinas são baratas. Vacinas salvam vidas. Vacinas estão cada vez mais abundantes e logo haverá excedente.   O mundo rico deveria abastecer o mundo pobre porque é a coisa certa a se fazer. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.