Spencer Platt/Getty Images/AFP
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The Economist: Por que os governos erram com a covid-19

Tratamentos e vacinas vão surgir, mas isso ainda vai levar meses e, até lá, políticos terão de trabalhar com o básico

The Economist, The Economist

29 de setembro de 2020 | 05h00

O número de mortes por covid-19 no mundo ultrapassou 1 milhão. Talvez outro milhão não tenha sido registrado. Desde o início da pandemia, 9 meses atrás, os casos semanais registrados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) têm apresentado tendência muito lenta de aumento e, nos 7 dias até 20 de setembro, ultrapassaram 2 milhões pela primeira vez.

O vírus está destruindo regiões do mundo emergente. A Índia registra mais de 90 mil casos por dia. Alguns países europeus que pensavam haver eliminado a doença estão enfrentando uma segunda onda. Nos Estados Unidos, o número oficial de mortos ultrapassou os 200 mil e o total de casos aumenta em 26 Estados.

Esses números representam muito sofrimento. Aproximadamente 1% dos sobreviventes têm danos virais de longo prazo, como fadiga incapacitante e cicatrizes nos pulmões. Nos países em desenvolvimento, especialmente, o luto é agravado com pobreza e fome. O inverno no hemisfério norte forçará as pessoas a ficarem em ambientes fechados, onde a doença se propaga mais facilmente do que ao ar livre. A gripe sazonal pode aumentar a carga sobre os sistemas de saúde.

Em meio à escuridão, tenha três coisas em mente. As estatísticas contêm boas e más notícias. Tratamentos e medicamentos estão tornando a covid-19 menos letal: novas vacinas e medicamentos em breve aumentarão seus efeitos. E as sociedades têm as ferramentas para controlar a doença hoje. Ainda assim, é no básico da saúde pública que muitos governos ainda estão falhando com seus cidadãos. A covid-19 continuará sendo uma ameaça por meses, possivelmente anos. Eles têm de fazer mais.

O aumento de casos diagnosticados na Europa reflete a realidade. O nosso modelo sugere que o número total de infecções reais tem diminuído substancialmente de seu pico de 5 milhões por dia em maio. Mais testes são uma das razões pelas quais a taxa de mortalidade da doença aparenta estar caindo. Além disso, países como a Índia, com idade média de idade de 28 anos, sofrem menos mortes porque o vírus é mais brando em jovens do que em idosos.

A queda nas fatalidades também reflete o progresso médico. Os profissionais de saúde agora entendem que outros órgãos além dos pulmões, como coração e rins, estão em risco e tratam os sintomas precocemente. Nas UTIs britânicas, 90% dos pacientes usavam ventiladores no início da pandemia. Em junho, eram apenas 30%. Medicamentos, incluindo dexametasona, um esteroide barato, reduzem as mortes em paciente gravemente doentes em cerca de 20% a 30%. O número de mortes na Europa é 90% menor que na primavera, embora essa lacuna diminua à medida que a doença volta a se propagar em grupos vulneráveis.

Mais progressos são aguardados. Os anticorpos monoclonais, que enfraquecem o vírus, podem estar disponíveis até o fim do ano. As vacinas certamente aparecerão, possivelmente muito em breve. Como diferentes medicamentos usam diferentes linhas de ataque, os benefícios podem ser cumulativos.

No entanto, no melhor dos mundos possíveis, a pandemia continuará fazendo parte da vida cotidiana até 2021. Mesmo se uma vacina surgir, ninguém espera que ela seja 100% eficaz. A proteção pode ser temporária ou fraca em idosos, cujos sistemas imunológicos são menos responsivos. Produzir e administrar bilhões de doses levará grande parte do próximo ano.

As primeiras vacinas talvez precisem de duas doses e complexas “cadeias de resfriado” para se manter frescas. Os suprimentos médicos podem ser insuficientes. Pesquisas de vários países sugerem que um quarto dos adultos (incluindo metade dos russos) recusaria a vacinação – outra razão pela qual a doença pode persistir.

Portanto, para um futuro próximo, a primeira linha de defesa contra a covid-19 continuará sendo testar e rastrear, distanciamento social e comunicação governamental clara. Não há mistério quanto ao que isso envolve. Mesmo assim, países como Estados Unidos, Reino Unido, Israel e Espanha continuam entendendo isso desastrosamente errado.

Um problema é o desejo de escapar de um equilíbrio entre fechar tudo e manter as pessoas vivas e permanecer com tudo aberto para que a vida continue. A direita elogia a Suécia por supostamente permitir que o vírus se propague enquanto dá prioridade à economia e à liberdade. Mas a Suécia tem uma taxa de mortalidade de 58,1 por 100 mil e viu seu PIB cair em 8,3% apenas no segundo trimestre, pior em ambos os casos do que a Dinamarca, Finlândia e Noruega. A esquerda aplaude a Nova Zelândia que fechou tudo para salvar vidas. O país sofreu apenas 0,5 morte por 100 mil, mas, no segundo trimestre, sua economia encolheu em 12,2%. Em contraste, Taiwan permaneceu mais aberta, mas teve 0,03 mortes por 100 mil e uma queda de 1,4% no PIB.

Os bloqueios totais, como o mais recente em Israel, são um sinal de que a política falhou. Eles são caros e insustentáveis. Países como Alemanha, Coreia do Sul e Taiwan usaram testes e rastreamento para detectar locais de superpropagação individuais e retardar novas infecções usando quarentenas. A Alemanha identificou matadouros. A Coreia do Sul conteve surtos em um bar e igrejas. Se a testagem for lenta, como na França, ela falhará. Se o rastreamento de contatos não for confiável, como em Israel, onde o trabalho recaiu sobre os serviços de inteligência, as pessoas fugirão da detecção.

Os governos devem identificar a combinação que faça mais sentido econômico e social. As máscaras são baratas, convenientes e funcionam. A abertura de escolas, como na Dinamarca e na Alemanha, deveria ser uma prioridade. Já a de lugares barulhentos e não habitados como bares, não. Governos, como o do Reino Unido, que ladram uma série de ordens que são quebradas impunemente por seus próprios funcionários terão baixa eficiência. 

Quando a covid-19 surgiu, os governos foram pegos de surpresa e puxaram o freio de mão. Hoje eles não têm essa desculpa. Na pressa para a normalidade, a Espanha baixou a guarda. A testagem na Grã-Bretanha não está funcionando, embora os casos tenham aumentado desde julho. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, outrora o órgão de saúde pública mais respeitado do mundo, foi atormentado por erros, liderança fraca e difamação presidencial. Os líderes de Israel foram vítimas de arrogância e brigas internas. A pandemia está longe de terminar. Vai diminuir, mas os governos precisam se recompor. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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