Ghaith Alsayed/AP
Ghaith Alsayed/AP

The Economist: Qual o próximo epicentro da jihad global?

O maior perigo está em países pobres e instáveis, onde os insurgentes islâmicos já controlam território

The Economist, The Economist

29 de agosto de 2021 | 05h00

No Iêmen, eles soltaram fogos de artifício; na Somália, distribuíram doces; na Síria, louvaram o Taleban por servir de “exemplo vivo” de como “derrubar um regime criminoso” por meio da jihad. Ao redor do mundo, os jihadistas ficaram eufóricos com a queda de Cabul. Por meio de força de vontade, paciência e astúcia, um mal financiado bando de guerreiros santos derrotou os EUA e tomou o poder de um país de tamanho médio. Para muçulmanos que anseiam expulsar infiéis e derrubar governos seculares, isso evidenciou a aprovação de Deus. Reverberações foram sentidas por todo lado.

Nos próximos dias, o presidente Joe Biden terá de solucionar a bagunça que criou no aeroporto de Cabul, onde multidões clamam por fuga. Este é um momento perigoso para sua presidência. No longo prazo, o mundo terá de lidar com o impulso ao jihadismo resultante da humilhação americana. 

O maior risco é os terroristas usarem o Afeganistão como base para atacar o Ocidente, como em 11 de setembro de 2001. Esses ataques são mais difíceis de realizar agora, já que os países ricos melhoraram sua segurança. Além disso, o Taleban dificilmente tolerará grandes campos de treinamento para terroristas globais, já que busca reconhecimento e ajuda internacional.

É verdade que alguns membros do Taleban sentem um dever de hospitalidade em relação a jihadistas sunitas estrangeiros e outros ajudarão seus primos militantes do Paquistão, deixando esse país detentor de armas nucleares ainda mais instável. Mas, fora do Afeganistão, as principais consequências serão psicológicas. 

O triunfo do Taleban incendiará jihadistas de outros países e incentivará novos recrutas a se juntarem à guerra santa. Os que vivem em países ricos terão inspiração para cometer atos terroristas por lá. Não é preciso muitos desses ataques para semear a sensação de medo ou turvar políticas domésticas.

Ainda pior será o efeito nos Estados mais pobres e fracos, onde jihadistas aspiram não somente matar infiéis, mas controlar territórios ou ao menos evitar controle do governo. Em alguns lugares, como Iêmen, Síria, Nigéria, Mali, Somália e Moçambique, eles já fazem isso. Em várias outras partes da Ásia, da África e do Oriente Médio, ameaçam fazê-lo. Muitos consideram: se nossos irmãos afegãos são capazes de derrotar uma superpotência, certamente somos capazes de derrotar nossos próprios governantes miseráveis.

Jihadistas não são todos iguais. Muitos discordam a respeito da doutrina. Muitos se odeiam e lutam entre si. Apoiadores do Estado Islâmico zombam do Taleban qualificando-o, absurdamente, como fantoche dos EUA. Uma das primeiras coisas que o Taleban fez em Cabul na semana passada foi tirar da cadeia o líder do Estado Islâmico no Sul da Ásia e assassiná-lo.

A maioria dos grupos jihadistas é motivada principalmente por ressentimentos locais: um governo predatório, uma divisão étnica ou sectária, invasores infiéis. Eles também exploram uma narrativa global. Em seus telefones, eles veem diariamente as provas de que a opressão a que são submetidos em seus países é parte de uma perseguição mais ampla contra os muçulmanos, do gulag de Xinjiang ao inferno de Gaza. Quando jihadistas de qualquer parte alcançam vitórias, eles sentem orgulho – e um chamado para a ação.

O mau governo cria abertura para o jihadismo. Quando um Estado é injusto, seus cidadãos podem imaginar que um país governado por jihadistas poderia ser melhor. Mesmo que não peguem em armas, eles podem apoiar silenciosamente aqueles que o fazem. Muitos afegãos rurais decidiram que a justiça do Taleban, apesar de inclemente, era mais célere e menos corrupta do que os tribunais do governo afegão; e os postos de controle do Taleban roubavam menos. Esta é uma das razões por que a marcha final do Taleban encontrou tão pouca resistência. A outra foi psicológica: eles venceram porque, quando os EUA se retiraram, os afegão não quiseram morrer lutando por uma causa perdida. 

Princípios similares são válidos em outros lugares. Jihadistas no nordeste da Nigéria são difíceis de derrotar porque habitantes locais detestam o governo central e os oficiais do Exército vendem armas de seus próprios soldados para guerrilhas e embolsam o dinheiro.

Uma vez que os jihadistas chegam ao poder, contudo, eles descobrem que sua ideologia torna difícil o ato de governar. Seu desejo de criar uma sociedade perfeitamente devota e a intolerância implacável em relação a qualquer desvio complicam um emprego pragmático de concessões mútuas. O domínio do Estado Islâmico sobre grandes regiões do Iraque e da Síria durou somente três anos. Seu hábito de afogar pessoas em jaulas alienava uma possível simpatia por parte da população sunita. Assim como seu fracasso em fomentar atividades econômicas que não fossem saques ou sequestros. O grupo assustou tanto potências estrangeiras e xiitas iraquianos que eles se juntaram para esmagá-lo.

O Taleban também foi apavorante quando governou o Afeganistão no passado. Muito de seu futuro vai depender de seus membros terem ou não aprendido algo com os próprios erros. Se um grupo de jihadistas conseguir não apenas tomar um país, mas também governá-lo minimamente bem, jihadistas do mundo inteiro o verão como farol. 

Militantes graduados do Taleban estão se esforçando para parecer pragmáticos e insistem que respeitarão os direitos humanos. Mas tempos turbulentos se anunciam. Soldados rasos do Taleban já estão cometendo atrocidades, muitos afegãos urbanos, que experimentaram a liberdade de poder se vestir, trabalhar e estudar como quisessem, mesmo que fossem mulheres, desprezam o novo regime. 

Em razão das reservas do país estarem congeladas nos EUA, o Taleban está sem dinheiro. A economia afegã encalhou e os preços estão nas alturas. O Taleban ainda não produziu boas ideias para reavivá-la. Em vez disso, o grupo vocifera que afegãos instruídos não devem emigrar. Mas talvez os afegãos instruídos tenham outros planos.

Uma lição do fiasco afegão é que acontecimentos em Estados falidos e distantes são importantes não apenas para as pessoas que vivem neles, mas também para o restante do mundo. A atual calamidade em Cabul se traduzirá em maiores fluxos de refugiados, mais ataques jihadistas e maior probabilidade de insurgentes islamistas se saírem vitoriosos. Isso pode desestabilizar um grande número de países, colocando em perigo tanto habitantes locais quanto estrangeiros que os visitem ou mantenham negócios por lá. 

Outra lição é que uma abordagem puramente militar no combate ao jihadismo contribui pouco para empobrecer o solo que o germina. A solução a longo prazo é constituir Estados menos incompetentes e menos excludentes. Se o antigo governo afegão tivesse sido menos corrupto e menos inepto ao lidar com líderes tribais, poderia ter se provado mais resiliente. Da mesma maneira, se o norte de Moçambique, o sul da Tailândia, a Caxemira ou as vastidões do Sahel fossem governados de maneira mais benigna, talvez não servissem de lar para jihadistas.

Melhorar a governança é difícil, e o fato de muitos países vulneráveis à jihad também sofrerem consequência das mudanças climáticas não facilita as coisas. Secas cada vez mais frequentes contribuem para descontentamentos e ocasionam conflitos por água e pastagens. Doadores podem dar conselhos e dinheiro, mas, em última instância, cabe aos habitantes locais construir instituições que funcionem. A não ser que Estados já estabelecidos forneçam serviços básicos e promovam algo parecido com justiça, o canto dos jihadistas sempre continuará sedutor. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.