HENG/NYT
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The Economist: Qual será o Kim Jong-un que Donald Trump encontrará?

Não há certeza se euforia por reunião de líderes coreanos é justificada ou ditador burlará compromissos como seu pai fez mais de uma vez

O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 05h00

Foi fácil esquecer que esse era o homem que ameaçou o mundo com uma guerra nuclear, realizou execuções sumárias e eliminou rivais e sob seu comando foram cometidos os piores abusos de direitos humanos na história recente. Kim Jong Un, líder da Coreia do Norte, era todo sorrisos quando se dirigia para a zona desmilitarizada que divide as duas Coreias, na manhã do dia 27 de abril. Kim, literalmente, estendeu a mão através da fronteira, apertando a de Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul, antes de entrarem em território sul-coreano. Numa ação improvisada, o presidente norte-coreano convenceu Moon a voltar a cruzar a linha para o norte junto com ele, antes de retomarem o caminho do sul.

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É a primeira vez que um líder norte-coreano viaja para o sul desde o fim da guerra da Coreia em 1953. (presidentes sul-coreanos visitaram o Pyongyang duas vezes, para reuniões de cúpula, em 2000 e 2007). Houve momentos extraordinários capturados pelas fotos: o primeiro aperto de mão, inspeção de uma guarda de honra sul-coreana usando uniformes em cores primárias do século 19, plantio de uma “árvore da paz”, um bate-papo privado dos dois sentados em um balcão, durante o qual os observadores observavam os dois lidere, mas só ouviam cantos de aves.

A mostra contínua de cordialidade entre ambos indicou que os dois líderes alcançaram seu primeiro objetivo: mostrar que seus países podem deixar de lado sua tradicional inimizade e manter uma conversa amistosa. Na Coreia do Sul esse momento provocou um extravasamento de emoções. A mídia social explodiu com comentários alucinados. As pessoas paravam nas estações de metrô para assistir à TV que transmitia ao vivo o encontro. As crianças tiveram dia livre na escola. Mesmo os mais irredutíveis saudaram e aplaudiram quando os dois líderes apertaram as mãos. Alguns choraram.

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O encontro inicial estabeleceu o tom do resto do dia. Kim mostrou uma cordialidade que não tem nada ver com seu histórico de ameaças e provocações. Durante um momento mais descontraído e bem humorado, antes de as portas serem fechadas para a imprensa, o ditador fez pilhérias sobre a dificuldade de trazer noodles norte-coreanos com ele para o banquete daquela noite e cumprimentou Moon pela alta qualidade das estradas do sul.

Esta ofensiva de charme com certeza teve repercussão junto aos sul-coreanos. Os noodles citados por Kim viraram moda na mídia social e se tornaram sucesso no horário de almoço em muitos restaurantes de Seul. Nas ruas de Goyang, um subúrbio ao norte de Seul, o clima era de júbilo. “Eu costumava chamar o presidente Moon de comunista imundo, mas não sei mais porque”, disse a senhora Kim (provavelmente não tem nenhuma relação com o ditador), uma moradora. “Ele está fazendo coisas muito boas e está até com uma boa aparência”.

Apesar de toda a pompa e a hábil coreografia os resultados do encontro de cúpula foram inconsistentes. O comunicado conjunto que os dois líderes assinaram antes de se abraçarem e de um banquete com pratos simbólicos, estava impregnado de sentimentos nobres, mas carecendo de detalhes. “Os dois líderes declaram solenemente diante dos 80 milhões de norte-coreanos e o mundo inteiro que não haverá mais guerras na Península Coreana”.

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E expressam seu desejo de pôr fim à guerra no final deste ano, transformando o armistício existente em um tratado de paz com a ajuda de Estados Unidos e China. Depois de se precipitar para fabricar uma bomba nuclear e comemorar cada teste bem sucedido, Kim declarou que, na verdade, desejava “uma Península Coreana sem armas nucleares”.

A declaração assinada na reunião de cúpula anterior, em 2007, também continha declarações similares sobre a questão nuclear. Desnecessário dizer que nada foi cumprido. Kim Jong Il, pai e predecessor de Kim, tinha por hábito burlar compromissos feitos nesse campo antes mesmo da tinta da sua assinatura secar. E o pai, como o filho hoje, considerava as armas nucleares essenciais para a sobrevivência do seu regime, e a sobrevivência do regime é algo essencial para eles próprios.

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Os termos da nova declaração não excluem demandas do Norte que podem arruinar novamente as conversações, como a insistência de que todas as tropas americanas sejam retiradas da Coreia do Sul. Moon afirmou que Kim está disposto a abrir mão desta demanda, mas não há nenhum sinal disto na declaração. Na verdade não houve concessões tangíveis por parte da Coreia do Norte (ou, neste caso, do Sul).

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Mas não há nenhuma chance de um acordo sobre desarmamento nuclear sem a chancela americana. O governo de Donald Trump acolheu bem o resultado da reunião de cúpula; o próprio presidente afirmou pelo Twitter: “GUERRA DA COREIA NO FIM. Os Estados Unidos e a sua GRANDE população devem estar orgulhosos do que está ocorrendo agora na Coreia!”.

A cordialidade do encontro e a reação ainda mais calorosa de Trump sugerem que seu encontro com Kim, supostamente no final de maio ou início de Junho, deverá ocorrer. Mas quanto aos resultados desse encontro, ou mesmo o que os dois lados terão a oferecer, é uma incógnita. E da próxima vez a medida do sucesso implicará mais do que sorrisos acolhedores e fotos reluzentes. / Tradução de Terezinha Martino

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