AP Photo/Natacha Pisarenko
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The Economist: Roteiro incomum desafia a Argentina

Ninguém estará prestando mais atenção na eleição argentina do que o Fundo Monetário Internacional (FMI) que firmou um acordo de empréstimo à Argentina de US$ 57 bilhões, no ano passado

The Economist, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2019 | 05h00

Dias antes de ser julgada por corrupção, a ex-presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, reescreveu o roteiro da eleição deste ano, marcada para outubro. Em 18 de maio ela anunciou que vai se candidatar não para o cargo de presidente, ao contrário do que havia declarado um dia antes. Em vez disso, disse ela, pediu ao seu assessor Alberto Fernández (não é seu parente) para ser o candidato à presidência e ela disputará à vice-presidência.

“Nunca tivemos tantas pessoas dormindo nas ruas, em busca de comida e trabalho”, afirmou Cristina Kirchner, atacando o governo do atual presidente Mauricio Macri. Ela explicou que sua nova equipe foi designada “não só para vencer a eleição, mas para governar”. A notícia surpreendeu algumas pessoas dentro do seu próprio movimento peronista. O ex-presidente Eduardo Duhalde afirmou ter achado que “era uma piada”, quando soube da decisão dela.

Cristina Kirchner admitiu que nem sempre concordou com Alberto Fernández. Ele foi chefe de gabinete do seu marido, o falecido Néstor Kirchner, durante o mandato dele de 2003 a 2007, e assumiu o mesmo cargo durante alguns meses quando ela assumiu o governo no final de 2007. Alberto Fernández é conhecido como uma pessoa astuta, que atua nos bastidores, mas poucos têm alguma ideia do seu próprio programa. Falando a jornalistas, ele disse estar pronto para solucionar a “incalculável crise” enfrentada pelo país. Insistiu que sua vice é vítima do “sistema judiciário....um processo vergonhoso, um golpe judicial”.

Mesmo levando em consideração a maneira incomum de um candidato a vice-presidente escolher o candidato à presidência, os argentinos se surpreenderam com a escolha feita por Cristina. Alberto Fernández nunca disputou um cargo público e o tempo que ocupou um cargo foi como vereador em Buenos Aires de 2000 a 2003 numa lista do partido. Especialistas de órgãos de pesquisas dizem que jamais tomaram nota da capacidade de se eleger do candidato, ou do reconhecimento do seu nome, ou mesmo de alguma atração dele junto ao eleitorado. “Num ano eleitoral tão imprevisível como este, Alberto é um curinga que somente Cristina poderia inventar”, disse um consultor político.

Macri, que enfrenta uma campanha difícil para se reeleger, uma vez que a recessão, uma inflação de 56% e o desemprego crescente têm colocado os eleitores contra ele, limitou-se a dizer que “retornar às figuras do passado será a autodestruição”. Mas partidários dentro do seu movimento Cambiemos foram mais diretos. Elisa Carrió, que já foi candidata à presidência pelo seu partido Coalizão Cívica, referiu-se ao candidato, pelo Twitter, dizendo: “eles estão propondo Jack O Estripador. Ele garante a todos total impunidade”.

Mesmo dentro do novo campo Fernández-Fernández, há os que reconhecem que a ex-presidente está deprimida com a perspectiva do seu julgamento esta semana. Em 21 de maio ele comparecerá ao tribunal, com membros do seu governo, alguns já presos, para responder a acusações de corrupção envolvendo milhões de dólares de fundos estatais e obras públicas não concluídas em seu Estado natal de Santa Cruz.

Alfredo Cornejo, líder do partido Radical, governador do Estado de Mendoza e figura chave da aliança Cambiemos, sugeriu que Cristina Fernández Kirchner escolheu uma pessoa que pode controlar e que ela planeja governar o país a partir da vice-presidência e se proteger e a sua família contra qualquer processo. “No caso dela, trata-se de evitar os processos que enfrenta ligados à enorme corrupção no seu governo. Tudo tem a ver com impunidade”, afirmou.

A dupla Fernández-Fernández vai procurar agora unir o movimento peronista e atrair os moderados que disputam a indicação do partido nas primárias antes das eleições de outubro. Um candidato conhecido, Sergio Massa, que foi também chefe de gabinete de Cristina Kirchner, manifestou seu desejo de concorrer.

Ninguém estará prestando mais atenção do que o Fundo Monetário Internacional (FMI) que firmou um acordo de empréstimo à Argentina de US$ 57 bilhões, no ano passado. Alberto Fernández insistiu que não tem “nenhum receio” de negociar uma saída: “O ideal seria encontrarmos uma saída que atenda aos compromissos que a Argentina tem com o mundo”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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