Sarah Silbiger/The New York Times
Sarah Silbiger/The New York Times

The Economist: Se entrar na guerra, Trump não pode se permitir perdê-la

Ou o presidente cumpre a ameaça de ação militar na Venezuela ou terá de negociar diretamente com Maduro

The Economist, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2019 | 05h10

Um dia após a oposição ter anunciado sua investida final para tirar Nicolás Maduro do poder, o homem forte da  Venezuela estava determinado a mostrar que havia retomado o controle. O método adotado foi aquele que seu regime melhor conhece: reprimir rápida e violentamente os protestos. Os primeiros indícios são de que ele teve êxito.

No dia 30, Juan Guaidó, reconhecido pela maioria das democracias ocidentais e latino-americanas como presidente interino do país, apareceu diante da Base Aérea La Carlota com um grupo de militares desertores para a anunciar a “Operação Liberdade”. Ele prometeu convocar “a maior manifestação da história da Venezuela” para aprofundar as brechas do regime.

Mas, quando os manifestantes oposicionistas voltaram a se aproximar da base no dia 1º, foram dispersados por uma chuva de cilindros de gás lacrimogêneo no momento em que começavam a jogar pedras nos militares lá dentro. De modo semelhante, uma manifestação no bairro operário de El Paraiso mal havia começado quando a Guarda Nacional reagiu usando gás lacrimogêneo e balas de borracha.

“Não podemos mais tolerar essa situação”, disse Maria Isabel Salas, de 58 anos, uma dona de casa que, mesmo com medo, juntou-se aos protestos. “Esse governo não serve mais para nada e quero que seus membros saibam disso.”

Quando os protestos de quarta-feira começaram, Guaidó disse aos apoiadores que “o fim estava próximo, bem ali na esquina”. Ele afirmou também que um programa de “greves escalonadas” começaria nos próximos  dias, culminando com uma paralisação nacional em data não especificada. Ao mesmo tempo, não havia sinais de que mais militares dissidentes estivessem desertando para o lado de Guaidó. E Leopoldo López, líder oposicionista que saiu dramaticamente da prisão domiciliar para aparecer ao lado do presidente interino, não voltou a dar caras em público. Ele está refugiado na Embaixada da Espanha em Caracas. Acredita-se que duas dezenas de rebeldes da Guarda Nacional estejam na Embaixada do Brasil. 

Maduro prometeu ir atrás de todos os que estejam por trás da rebelião. “Isso não ficará impune”, afirmou. “Escolhi três promotores para interrogar os envolvidos. Eles serão processados pelos graves crimes que cometeram contra a Constituição, o império da lei e o direito da população à paz.”

Maduro, que começou seu segundo mandato em janeiro após vencer uma eleição desacreditada, mergulhou o país na miséria econômica. Mas, apesar de um descontentamento  generalizado e de ocasionais deserções de grupos de militares, o governo até agora vem conseguindo manter a lealdade da maior parte do Exército. A hesitação dos militares em desertar confirma as dificuldades que Guaidó encontrará para tirá-los da órbita dos comandantes, mesmo tendo oferecido anistia a quem mudar de lado.   

Falando antes de as manifestações começarem, o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, disse que o movimento, planejado por muitos meses, não estava indo como o esperado. Segundo ele,a expectativa era que Maikel Moreno, presidente da Suprema Corte da Venezuela, órgão que até agora tem se comportado como marionete do regime, declarasse ilegítima a Assembleia Nacional Constituinte de Maduro. Isso daria cobertura legal ao ministro da Defesa, Vladimir Padrino, e ao alto comando militar para anunciar seu apoio a Guaidó e à Assembleia Nacional, controlada pela oposição. “Por motivos que ainda não estão claros, não avançou”, disse Bolton. Ele acusou Rússia e Cuba de interferirem para dissuadir Maduro de fugir para Cuba.

 Outra explicação, com base em fontes militares citadas pelo jornal digital espanhol El Confidencial, é que o plano deveria ser posto em prática ontem, mas Guaidó e López se precipitaram, o que levou o alto comando a recuar. Não é a primeira vez que a oposição aparentemente força a mão. Alguns setores oposicionistas há muito acreditam que a pressão das ruas é suficiente para depor Maduro. Até agora, não foi.

O regime de Maduro, no entanto, não saiu sem arranhões da insurreição. Maduro demorou um dia para aparecer em público. E o general Manuel Figuera, destituído da chefia da Sebin, o serviço de informações, por seu aparente apoio à rebelião, parece confirmar afirmações de Bolton sobre supostas deslealdades dentro do regime. Uma carta a Maduro atribuída ao general dizia: “Descobri que muitas pessoas nas quais o senhor confia estão negociando pelas suas costas”. Se o ditador ainda pode confiar no general Padrino, em Moreno e em outros após serem desmascarados por Bolton, é algo que levanta dúvidas.

Mais de três meses após Guaidó proclamar-se presidente interino, com apoio da Assembleia Nacional, dos Estados Unidos e de mais de 50 países, o regime continua de pé.

Quanto mais o impasse se prolongar, mais problemática se tornará a estratégia do governo do presidente dos Estados UnidosDonald Trump. No dia 1º de maio, o secretário de Estado, Mike Pompeo, disse a emissoras de rádio que pode ocorrer uma ação militar dos EUA na Venezuela. Isso seria uma má ideia. Daria força às acusações do regime de que os EUA estão tentando ocupar a Venezuela para destruir a revolução socialista desfechada pelo antecessor de Maduro, Hugo Chávez; o apoio da população venezuelana aos EUA se esgarçaria ainda mais.

Embora os regimes de Maduro e Chávez tenham provocado o colapso econômico da Venezuela, as sanções americanas sobre o petróleo venezuelano, que acabam de entrar em pleno vigor, vão agravar a crise humana no país. A menos que o impasse seja resolvido logo, há o risco de que qualquer governo de transição – se e quando for instaurado – acabe herdando um Estado miserável.

O que não está em dúvida é a determinação do governo Trump de se ver livre do regime de Maduro. Uma vez que entrou na guerra, Trump não pode se dar o luxo de perdê-la. Maduro pode sair amanhã ou ainda estar no poder no Natal. Neste último caso, o governo Trump terá de escolher: ou cumpre as ameaças de ação militar, que não tem nenhum apoio na América Latina nem entre os democratas americanos, ou tapa o nariz e negocia diretamente com Maduro os termos de sua partida. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ     

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