AFP
AFP

The Economist: Talvez ainda haja salvação para o Afeganistão

Os EUA, no entanto, se recusam a agir para tentar impedir que o país volte a ser uma teocracia violenta

The Economist, The Economist

14 de agosto de 2021 | 05h00

“Um desdobramento negativo, uma tomada militar automática do Taleban, não seria uma conclusão fatal”, disse Mark Milley, o militar mais experiente dos EUA, no mês passado, enquanto reiterava o apoio americano ao acossado governo afegão. O general Milley está certo: tal tomada não é totalmente inevitável, apesar da saída das tropas americanas. Mas está ficando mais provável a cada dia – em grande parte porque os EUA, independentemente do que digam seus generais, estão fazendo muito pouco para ajudar.

Idealmente, os EUA não estariam retirando suas forças. Por vários anos, com apenas alguns milhares de soldados e sofrendo poucas baixas, o país conseguira manter um equilíbrio entre o governo afegão e o Taleban, em grande parte graças ao poder aéreo. 

Mas, no ano passado, quando Donald Trump era presidente, os EUA fecharam um acordo com o Taleban. Em troca da promessa dos milicianos de não abrigar terroristas internacionais, Trump se comprometeu a se retirar completamente do Afeganistão. 

Pouco importava que os insurgentes recusassem qualquer tipo de cessar-fogo; pouco importava que oferecessem nada mais do que negociações indiretas com o governo apoiado pelos EUA em Cabul: Trump queria um fim rápido para aquela guerra de 20 anos, e o presidente Joe Biden manteve essa decisão insensível.

A pressa da retirada americana permitiu que o Taleban abandonasse a fachada de negociações e redobrasse sua campanha para remover o governo à força. Os insurgentes não controlavam nenhuma das 34 capitais de província na semana passada. Desde então, tomaram mais de dez. Três das maiores cidades do país, Herat, Kandahar e Mazar-i-Sharif, caíram. Os EUA não têm no Afeganistão mais nenhuma aeronave militar capaz de repelir tais ataques. Em vez disso, o país está despachando aviões de bases distantes no Golfo e de porta-aviões no Mar da Arábia – um arranjo muito menos eficiente. E muitos dos mecânicos que estavam ajudando a fazer a manutenção dos aviões da Força Aérea afegã partiram com os americanos, reduzindo ainda mais o poder de fogo do governo.

Isso ocasionou uma desordem que, se continuar, será um desastre. Quando governou o país, na década de 90, o Taleban proibia meninas na escola, confinava mulheres em casa e espancava qualquer um que ouvisse música ou usasse as roupas erradas. Eles não mudaram muito desde então. Nas áreas que controlam agora, estão assassinando funcionários públicos, trabalhadores de ONGs e ordenando que famílias entreguem mulheres solteiras para “casar” com seus soldados.

Renascido, o emirado Taleban não abusará apenas dos afegãos e vai espalhar miséria por toda parte. O Afeganistão já é o maior produtor mundial de heroína, um negócio que o Taleban tributa com toda a boa vontade. O país também exporta milhões de refugiados, especialmente para os vizinhos Paquistão e Irã. 

A violência extremista é outro produto de exportação. Um braço do Taleban matou dezenas de milhares de paquistaneses durante uma sangrenta campanha terrorista que levou anos para ser reprimida. A humilhação dos EUA pode agradar a alguns na região, mas o prazer não vai durar muito.

No entanto, em vez de unir forças para conter o Taleban, as potências regionais estão brigando e lutando por vantagens. E, em vez de encontrar maneiras de ajudar o governo afegão, os EUA estão recuando rapidamente. Em 10 de agosto, Biden declarou que cabia ao Exército afegão lutar por conta própria.

Se realmente for deixado à própria sorte, o governo entrará em colapso. Mas os EUA ainda podem evitar esse destino sem restabelecer uma guarnição permanente. O país poderia enviar forças especiais em breves investidas para fortalecer o Exército afegão, por exemplo. Poderia expandir o uso de porta-aviões para fornecer apoio aéreo ou se apoiar em países vizinhos para permitir pelo menos acesso temporário às aeronaves americanas. 

Acima de tudo, Biden poderia sinalizar que não pretende abandonar o Afeganistão à própria sorte – uma impressão que está fazendo mais do que qualquer outra coisa para apressar o avanço do Taleban. Nos últimos 20 anos, os EUA não conseguiram transformar o Afeganistão em uma democracia florescente, mas ainda podem impedir que ele volte a se tornar uma teocracia violenta. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

Tudo o que sabemos sobre:
TalebanAfeganistão [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.