EFE / Massimo Percossi
EFE / Massimo Percossi

The Economist: Temos um premiê

O impasse na Itália acabou por enquanto, mas ainda há muito para os investidores se preocuparem

O Estado de S.Paulo

02 Junho 2018 | 05h00

Após 88 dias do mais sério impasse político da Itália desde a 2.ª Guerra; depois de quase três meses de tentativas malsucedidas, meticulosas negociações, vertiginosas viradas e vetos, muitos italianos teriam ficado contentes de ser governados pelo cavalo, que segundo diz a lenda, o imperador Calígula queria transformar em cônsul. 

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Em vez disso, receberam como primeiro-ministro um professor de direito pouco conhecido, Giuseppe Conte. Seu gabinete é composto em grande parte por políticos relativamente principiantes do Movimento de Cinco Estrelas (M5S), antissistema, e por populistas de extrema direita pertencentes à Liga Norte. Com essa coalizão populista, a Itália entra em território jamais explorado antes em um país da Europa Ocidental.

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A primeira tentativa de Conte de se dirigir ao governo foi criticada por Sergio Mattarella, o presidente, dia 27. O chefe de Estado recusou-se a empossar o proposto ministro das Finanças populista, um economista de 81 anos de idade, Paolo Savona, com base no fato de ele ser um rígido eurocéptico, que no passado escreveu sobre a necessidade de a Itália ter um plano secreto para deixar o euro num fim de semana.

Depois de muitas idas e vindas e uma corrida aos títulos do governo italiano, os reais manipuladores políticos por trás da escolha de Conte – o líder do M5S Luigi Di Maio, e o chefe da Liga, Matteo Salvini – concordaram em colocar Savona em outro cargo. Mas para mostrar a Bruxelas que eles não haviam desistido de suas objeções à operação da moeda única, eles o fizeram ministro para Europa. Esse, porém, é um trabalho com muito menos significado prático e político.

Não que o professor de economia que eles colocaram no lugar de Savona seja um obrigado a ser um pró-europeu. Giovanni Tria recentemente defendeu Savona em um artigo no qual atacou as políticas econômicas alemãs e sugeriu que não era a Itália, mas a Alemanha, que deveria abandonar o euro.

Um de seus trabalhos será supervisionar a introdução das taxas de impostos drasticamente menores, prometidas pela Liga. Defensores do sistema argumentam que isso daria um incentivo ao lento crescimento da Itália. Os oponentes dizem que sacrificaria a receita da qual o Tesouro não pode se dar ao luxo de renunciar. A dívida do setor público da Itália é de dolorosos 130% ou mais do PIB.

Di Maio, cujo partido é o maior no Parlamento italiano, será o vice-primeiro-ministro encarregado do bem-estar social. Isso permitirá que ele supervisione a progressiva introdução de uma dispendiosa “renda cidadã” para os pobres e desempregados. Ele também presidirá a eliminação gradual de uma reforma previdenciária, aprovada no auge da crise do euro para assegurar aos parceiros da Itália a determinação de implementar reformas estruturais e controlar o déficit. Salvini, o outro novo vice-primeiro-ministro, assumirá o Ministério do Interior, de onde, segundo esperam seus seguidores, cumprirá a promessa de expulsar centenas de milhares de imigrantes ilegais.

No que parece ser uma tentativa, mesmo não muito convincente, de tranquilizar os aliados da Itália, o Ministério das Relações Exteriores será entregue a um moderado competente e não-alinhado, Enzo Moavero Milanesi. Uma excepcional advogada judia, Giulia Bongiorno, da Liga, recebeu a tarefa de reformar a burocracia notoriamente confusa da Itália. Ela está entre as cinco mulheres do gabinete de 19 homens. 

Caso implementado, o programa de cortes de impostos levará o déficit orçamentário da Itália em uma espiral fora de controle. Ainda assim, depois de uma semana de pânico causado por temores de uma nova eleição, pelo menos a reação inicial dos mercados foi favorável. / TRADUÇÃO DE CLÁUDIA BOZZO 

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