AP Photo/Rodrigo Abd
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The Economist: Trump e o ataque à América Central

Presidente americano chama a caravana de 'ataque de migrantes ilegais' e promete mandar o Exército fechar a fronteira

O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2018 | 06h30

Os hondurenhos quase não têm bagagem. A maioria leva só uma mochila com poucas roupas. Alguns empurram carrinhos com os filhos pequenos, que suportam a dureza da viagem quase sem chorar. O grupo passou por Tapachula, no México, na fronteira com a Guatemala. A maior parte quer seguir até os EUA. 

Eles sabem que Donald Trump não vai lhes dar boas-vindas. O presidente chama a caravana de “ataque de migrantes ilegais” e promete mandar o Exército fechar a fronteira. Trump também espera que a agitação traga votos ao Partido Republicano nas eleições do dia 6. Já Carolina Gerazo, mãe de dois filhos, que vende tortilhas em Honduras, espera que Deus amoleça o coração de Trump.

Caravanas de imigrantes vêm tentando chegar aos EUA há mais de uma década. A caravana que agora avança é a maior já constituída: tem 7.200 participantes, segundo a ONU. Diferentemente das outras, esta se formou espontaneamente, em Honduras. Viajantes dizem que decidiram se juntar após verem as notícias sobre o avanço no Facebook ou na TV. Alguns aderiram quando a coluna passava em frente à suas casas. 

Os imigrantes explicam que estão deixando Honduras porque o pouco que ganham é extorquido por gangues, que ameaçam matar quem não paga. Muitos se queixam do preço dos combustíveis. Uma outra caravana já está na estrada. 

Os centro-americanos já ultrapassaram os mexicanos como maior contingente de migrantes procurando entrar nos EUA. Em três dos últimos quatro anos, a polícia americana de fronteiras interceptou mais centro-americanos que mexicanos. Os EUA querem que o México cuide de sua porosa fronteira - e o país tem tentado fazer isso. 

O México manda de volta a cada ano cerca de 100 mil centro-americanos. Mas policiais mexicanos desarmados são uma resistência simbólica à caravana atual, não procurando deter seu avanço. Ao mesmo tempo, funcionários mexicanos aconselham os imigrantes a pedir asilo no México. 

Isso pode indicar um início de mudança no modo como México e EUA cooperam em imigração. O presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, que deixa o cargo em 1.º de dezembro, não parece disposto a provocar um confronto violento bloqueando imigrantes. Seu sucessor, o esquerdista Andrés Manuel López Obrador, tem ideias próprias sobre como lidar com a questão. Ele propõe um plano regional, com a participação dos EUA, pelo qual seriam investidos no desenvolvimento da América Central três vezes mais do que o México gasta com fronteiras.

Trump prefere impedir a imigração à força. Em conversa, em julho, Trump e Obrador concordaram em reduzir a imigração da América Central. “Mas não estou certa de que eles vejam a situação do mesmo modo”, disse Roberta Jacobson, ex-embaixadora dos EUA no México.

Com a hostilidade americana, um número de centro-americanos decidiu ficar no México. Cerca de 2 mil pediram asilo em Tapachula. “Se eu for para os EUA, não consigo emprego, pois não falo inglês”, diz Javier Celaya, adolescente de Honduras. “Prefiro viver no México.” 

A caravana pode se dispersar à medida que a viagem de 4 mil quilômetros e um mês prossiga. Além disso, quando os hondurenhos chegarem à fronteira dos EUA, as eleições americanas terão terminado. Se chegarem em pequenos grupos, a TV perderá o interesse e Trump talvez já tenha descoberto outras ameaças com as quais se enfurecer. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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