AP Photo/Zoya Shu
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The Economist: Ucrânia elege estrela de TV e neófito político

Eleitores ucranianos esperam muito de Volodmir Zelenski, o novo homem-forte de Kiev

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2019 | 05h00

Com música em alto volume, bebidas fluindo e bolas de pingue-pongue voando, o dia da eleição no QG de Volodmir Zelenski, em Kiev, parecia uma boate. Ele tinha motivos para festejar: como esperado, o comediante derrotou o presidente Petro Poroshenko no segundo turno das eleições, com impressionantes 73% a 24% dos votos. Zelenski, apesar de não ter experiência política e apenas uma vaga plataforma, os eleitores confiaram a ele o comando de uma Ucrânia que precisa de reformas radicais e ainda está envolvido em uma guerra latente com a Rússia. 

Mais conhecido por interpretar um professor que se torna presidente em uma série de TV chamada Servo do Povo, Zelenski participou da comemoração com a música-tema do programa que se tornou realidade. Russo e judeu, ele galvanizou o apoio de todo o país. 

Zelenski carregou todos, exceto uma das 25 regiões ucranianas onde a votação foi realizada – a Crimeia, que a Rússia anexou em 2014, não realizou uma eleição. Sua ágil campanha atraiu eleitores online e por meio das mídias sociais, ao mesmo tempo em que se desviou da campanha convencional na forma de comícios e entrevistas.

Ele fez promessas populares para manter a Ucrânia voltada para o Ocidente, acabar com a guerra e combater a corrupção. Ao mesmo tempo, realizou poucos discursos específicos, prometeu a mobilização popular para solução de problemas por “crowdsourcing” (espécie de brainstorm coletivo) para importantes compromissos e políticas. Ele surgiu como a projeção da frustração dos eleitores com a liderança suspeita de Poroshenko e suas esperanças de um futuro melhor.

Apesar de temores quanto à legitimidade da votação, o dia das eleições transcorreu sem problemas. Uma sociedade civil encorajada e a liberdade de imprensa ajudaram a responsabilizar os políticos. “A informação tem sido abundante e acessível, ninguém me pressionou, esta é a minha escolha”, disse uma enfermeira de Kiev após votar em Zelenski. 

Poroshenko admitiu logo a derrota, prometendo “aceitar a vontade do povo ucraniano”. Cinco anos após sua revolução, a Ucrânia viu eleições competitivas removerem um presidente em exercício em uma transição pacífica – uma raridade na região pós-soviética e uma conquista verdadeiramente impressionante. 

Em seus primeiros comentários depois que as pesquisas de boca de urna se tornaram públicas, Zelenski acenou para essa realidade – e o exemplo que as eleições podem representar: “Para todos os países da antiga União Soviética: olhem para nós, tudo é possível”, disse.

A campanha de Poroshenko foi um apelo direto ao patriotismo. Ele concorreu sob o lema “Exército, Idioma Fé”, destacando seus sucessos ao garantir uma igreja ortodoxa ucraniana independente e a isenção de visto para a União Europeia. Ele procurou pintar Zelenski como perigosamente inexperiente e comprometido com interesses externos. “Ele é como uma embalagem de doce”, disse Poroshenko, em debate antes da votação. “Dentro, há russos dentro e oligarcas fugitivos”, acrescentou, referindo-se aos obscuros laços de Zelenski com Ihor Kolomoiski, um oligarca cujo canal de TV exibe seus programas.

Tanto o sucesso quanto as reservas em relação ao seu oponente eram pontos razoáveis para chamar a atenção. Mas os eleitores se concentraram no fracasso de Poroshenko em cumprir as promessas da revolução que o levaram ao poder há cinco anos. Com a corrupção ainda abundante e a renda per capita em queda, só 9% dos ucranianos tinham confiança em seu governo, o nível mais baixo do mundo. 

“Votei em Poroshenko (em 2014), mas as coisas não melhoraram”, disse Nadezhda Tsaplyuk, que votou em Zelenski, no exato distrito de Kiev onde Poroshenko conquistou mais apoio do que em qualquer outro lugar em 2014. “Claro, temos visto (para viajar pela UE), mas não tenho dinheiro para ir a lugar algum.”

Esse mal-estar alimentou a ascensão de Zelenski. Muitos ucranianos expressaram sua escolha como uma oposição ao regime atual, em vez de entusiasmo pelo próprio candidato. “As pessoas estão votando contra as velhas autoridades”, disse Daniil Bychenok, estudante de 18 anos. “Não sabemos em que estamos votando.” Nas vésperas da votação, as pesquisas mostraram que 60% das pessoas que planejavam apoiar Zelenski o viam como um voto de protesto. “Zelenski ganha porque não podemos mais viver assim”, disse Vladimir Bazhanov, um aposentado.

As expectativas por Zelenski, de sua parte, são tão elevadas quanto é baixa a confiança no atual regime. “Ele vai prender alguns deles e tudo vai melhorar”, previu com esperança a advogada aposentada Olga Podolskaya. A promessa vaga de mudanças radicais provou ser uma eficaz estratégia de campanha. No entanto, Zelenski pode ter dificuldades para atender as esperanças que os eleitores esperam dele. “As pessoas estão esperando por um milagre, mas não haverá milagres”, disse Volodmir Fesenko, analista político, antes da votação.

Apesar de sua grande vitória, Zelenski enfrentará muitos desafios quando assumir o cargo. Os partidos rivais ainda controlarão o Parlamento, que detém poder significativo no sistema misto da Ucrânia. Ele precisará transformar seu novo partido, Servo do Povo, em homenagem a seu programa de TV, em uma verdadeira máquina política, se ele quiser ganhar o controle do Parlamento no outono. 

Vladimir Putin ainda tem muitas ferramentas para pressionar seu novo colega. O contrato de empréstimo da Ucrânia com o Fundo Monetário Internacional estabelece novos aumentos nos preços do gás este ano, medidas que já se mostraram profundamente impopulares. O desapontamento das expectativas não atendidas, na verdade, é o tema da segunda temporada do programa de Zelenski, intitulado Do amor ao Impeachment. 

Como um assessor de Zelenski costuma dizer: “Sabemos o que pode acontecer. Já escrevemos tudo isso.” Depois que toda a excitação pós-eleitoral se esvai, começará a ingrata realidade de governar. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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