Yana Paskova / Getty Images / AFP
Yana Paskova / Getty Images / AFP

The Economist: Um dia de vergonha para o Partido Republicano

Dois aliados próximos de Donald Trump provavelmente irão para a prisão

O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2018 | 05h00

No dia 21 de agosto, Duncan Hunter, um congressista republicano da Califórnia, foi indiciado por apresentar relatórios falsos de campanha e gastar US$ 250 mil de fundos de campanha em despesas pessoais. De acordo com a acusação, que Hunter alega ter motivação política, ele gastou mais de US$ 20 mil desses fundos em viagens familiares para a Itália e o Havaí. Quando o congressista quis “comprar (alguns) calções no Havaí”, estava com pouco dinheiro, e sua esposa sugeriu que ele comprasse os shorts em uma loja profissional de golfe, para que eles pudessem “descrever falsamente a compra mais tarde como ‘bolas de golfe para os guerreiros feridos’”. Normalmente, detalhes indecorosos como esses poderiam ocupar a atenção das emissoras de notícias de TV a cabo por um ciclo ou dois. Mas no dia 21 de agosto eles mal mereceram uma menção, porque aquela foi a tarde em que  promotor especial Robert Mueller conseguiu acertar o que foi até então o seu mais forte murro.

Michael Cohen, o atuante “faz-tudo” de longa data do presidente dos EUA, Donald Trump, se declarou culpado de cinco acusações de evasão fiscal, uma acusação de fraude bancária e um par de violações de financiamento de campanha - que eram na verdade  os subornos em dinheiro para silenciar duas mulheres que alegavam ter tido casos com Trump. Ele pagou US$ 130 mil diretamente a Stephanie Clifford - conhecida na indústria como Stormy Daniels. Ele também providenciou para que o National Enquirer, um tabloide vendido em supermercados, comprasse a história de Karen McDougal  por US$ 150 mil com a intenção de não publicá-la (o editor do Enquirer é um velho amigo de Trump).

Em sua defesa, ele disse ao juiz que “participou da conduta com o propósito de influenciar a eleição”, o que faz com que as contribuições da campanha de pagamentos excedam em muito o limite legal de US$ 2.700 de um indivíduo para um candidato. Mais importante, ele disse ao juiz que fez esses pagamentos “em coordenação e sob a direção de um candidato a um cargo federal”. Ele não citou o candidato, mas há pouca dúvida de que fosse Trump.

Naquela mesma tarde, um júri em um tribunal federal na Virgínia considerou Paul Manafort, ex-presidente da campanha de Trump, culpado de oito acusações de fraude fiscal e bancária. O agente operacional de 69 anos enfrenta agora uma pena de 80 anos na prisão, embora a maioria das pessoas acredite que ele receba pena bem menor.

O júri não conseguiu chegar a um veredito em relação a outras dez acusações. Investigadores federais agora podem decidir se o julgarão novamente, embora ele enfrente um segundo julgamento em setembro por uma série de outras acusações, incluindo lavagem de dinheiro, manipulação de testemunhas e conspiração para fraudar os Estados Unidos (o julgamento ocorreu em separado porque os promotores só puderam apresentar acusações de fraude fiscal contra Manafort na Virgínia, onde ele possui residência; o segundo julgamento será em Washington, DC). Caso condenado no segundo julgamento, Manafort pode enfrentar sentença ainda mais longa.

Pouco depois de pousar em West Virginia para um comício, Trump disse que “Paul Manafort é um bom homem”, embora o julgamento de caráter do presidente possa não ser considerado dos mais aguçados. Seu ex-presidente de campanha, vice-diretor de campanha, advogado pessoal, ex-assessor de segurança nacional e assessor de política externa de sua campanha, todos se declararam culpados ou foram considerados culpados de crimes federais. Os dois primeiros políticos a endossá-lo no Congresso - Hunter e Chris Collins - foram recentemente indiciados. Dois membros do gabinete renunciaram em meio a problemas éticos; escândalos estão cutucando os calcanhares de vários outros. Então, é claro que os participantes de sua manifestação na Virgínia Ocidental entoaram “Lock it up” (Prenda-a) - referindo-se a Hillary Clinton, que nunca foi acusada de um crime - e “Drain the swamp” (Limpe o pântano).

Seus defensores do Congresso rapidamente ignoraram a notícia. John Cornyn, um senador republicano do Texas, disse: “Não acredito que isso o envolva de forma alguma, especialmente na investigação da Rússia”. Lindsey Graham, congressista da Carolina do Sul, divulgou um comunicado lembrando às pessoas que “ainda não existem quaisquer acusações ou condenações de conluio com o governo russo da parte de qualquer membro da campanha Trump.”

Os republicanos continuam concentrados em trazer Brett Kavanaugh para as audiências de confirmação em setembro e uma votação em outubro. Mas Kavanaugh, o indicado à Corte Suprema que tem uma visão abrangente do poder executivo, poderia possivelmente determinar o destino de Trump: não há uma lei estabelecida sobre se um presidente em exercício pode ser indiciado. Ainda assim, falando em termos práticos, os democratas são minoria e pouco poderão fazer para impedir sua ascensão, se os republicanos estiverem determinados.

Quanto ao que vem a seguir, ninguém sabe. A defesa de Cohen não o obriga a cooperar com a investigação de Robert Mueller, mas tampouco o impede de fazê-lo - e sua declaração, na qual apontou Trump, é ela mesma cooperativa. Manafort ainda pode recuperar o fôlego uma ou duas vezes, mas não se for condenado em um segundo julgamento; que certamente traz uma pressão crescente para cooperar. Donald Trump Júnior, que participou da reunião com um agente russo que promete mostrar os podres de Hillary Clinton, certamente deve estar transpirando.

Vale a pena consultar a fita métrica para saber até que ponto Trump e seus facilitadores mudaram as traves. A posição dos republicanos passou de “Trump não estava em conluio com a Rússia” para algo como "Os únicos crimes sobre os quais vale a pena se preocupar são os relativos a um conluio com os russos”. Trump insiste em afirmar que não conspirou e que “conluio não é um crime”, o que é verdade apenas tecnicamente - conluio é uma palavra útil para se referir a qualquer número de possíveis crimes.

No entanto, deixando a Rússia de lado, o argumento de Cohen tornou o presidente dos Estados Unidos um coconspirador não acusado em dois crimes federais. Este é um dia triste para a América. Mas é vergonhoso para o Partido Republicano, cujos membros permanecem mais dedicados em minimizar a má-conduta de Trump do que o ideal de que pessoa alguma, nem mesmo o presidente, esteja acima da lei. / Tradução de Claudia Bozzo

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