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(Photo by Gian MASKO / AFP)
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The Economist: Um país dividido no caminho de Pedro Castillo

Maior problema do esquerdista será provavelmente o novo Congresso peruano, de maioria conservadora

The Economist, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 23h30

Pedro Castillo costumava começar os seus comícios de campanha afirmando: “Venho do interior do Peru, de uma família modesta”. E prosseguia contando a história de sua vida. Nascido de camponeses analfabetos em uma aldeia remota da região de Cajamarca, nos Andes, para se tornar professor pagou os próprios estudos vendendo sorvetes pelas ruas da cidade. Líder sindical, viajou para aldeias e vilas esquecidas. Sua história despertou simpatia entre a metade mais pobre do país. Agora, está prestes a ocupar a presidência do Peru - mas por uma margem mínima de votos.

Com a contagem quase completa após o segundo turno das eleições presidenciais, realizadas no dia 6, Castillo ganhava por 50,2% dos votos, uma vantagem de apenas 70 mil para os 17,5 milhões de votantes sobre sua adversária conservadora,  Keiko Fujimori. Ela alega fraude, mas não apresentou provas suficientes. Observadores internacionais não encontraram nenhuma irregularidade. A autoridade eleitoral ainda deverá decidir a respeito de parte de 300 mil votos disputados, e levará dias para chegar a um resultado oficial.

Nada disso poderá cancelar, aparentemente, a surpreendente vitória de Castillo. Ele fez campanha com uma plataforma populista de esquerda, prometendo uma economia mais estatista e uma Assembleia Constituinte para a redação de uma nova Constituição - o mesmo projeto dos líderes esquerdistas na Bolívia, Equador e Venezuela para se encastelarem no poder. No entanto, Castillo herdará um país dividido, tanto em termos geográficos quanto sociais, e o seu mandato é fraco.

O Peru gosta de eleger outsiders. Mas nenhum deles tinha tão pouca experiência política ou conhecimento do mundo, nem adotara uma plataforma radical de esquerda como Castillo. Na única outra eleição à qual concorreu, ele se candidatou em 2002 para prefeito de uma cidadezinha de Cajamarca, e perdeu. Em meados de março, ele era ainda pouco conhecido, embora tivesse liderado uma greve dos professores de três meses em 2017. 

Em um campo fragmentado com 18 candidatos no primeiro turno das eleições, ele foi o mais votado, mas apenas com 15% do total de votos. Fez campanha à moda antiga, às vezes a cavalo, e sempre usando um chapéu cor creme típico dos camponeses, que é sua marca registrada. Ele tirou partido das redes do sindicato dos professores, das igrejas (sua mulher é evangélica, ele é católico) e das rondas, os grupos de justiceiros, criados originalmente contra os traficantes, que constituem um poder local nos Andes.

Keiko Fujimori e seus aliados logo alertaram contra o “comunismo”. Mas Castillo representa a mudança em um país que implora por ela. Como slogan escolheu a frase: “Não mais um povo pobre em um país rico”, uma referência à riqueza de minérios do Peru que, segundo ele, não está suficientemente dividida entre o povo. “Por que tivemos de esperar a pandemia para revelar a precariedade do Estado?” perguntava, afirmando que a assistência pública e a educação deveriam ser um direito de todos os peruanos. O país sofreu a maior taxa de mortalidade do mundo pela covid-19 em relação à sua população. Tudo isso bastou para levar Castillo à vitória em grande parte do interior, e também entre os migrantes andinos nas cidades costeiras.

Considerando que sua vitória seja confirmada, Castillo terá de ser um exímio malabarista diante da tarefa quase impossível de governar de maneira pragmática para a maioria, satisfazendo ao mesmo tempo sua base radical. Esta semana, deu o primeiro sinal claro de moderação. “Seremos um governo de respeito pela democracia, pela atual Constituição ... (e de) estabilidade financeira e econômica”, disse a seus partidários que comemoravam. Se for assim, estará aberto um confronto inicial com o seu próprio partido, Peru Livre. O fundador e líder desta organização declaradamente marxista-leninista, Vladimir Cerrón, é um médico, admirador do comunismo cubano e da ditadura da Venezuela. Impedido de concorrer por causa de uma sentença de corrupção desde a época em que foi governador regional, ele recrutou Castillo poucos meses atrás. Cerrón “não é totalmente intransigente, mas vai querer controlar as coisas”, afirma um veterano ativista que o conhece.

Durante a campanha, Castillo conseguiu o apoio de esquerdistas mais moderados. Esta semana, Pedro Francke, um de seus novos assessores, elogiou o Banco Central, prometeu respeitar sua autonomia, rejeitou os controles de preços e das importações, e disse que as minas terão de aceitar uma renegociação dos impostos em lugar da estatização. Castillo “conhece o valor do trabalho árduo e jamais consideraria a adoção de medidas de confisco de ativos”, afirmou Gonzalo Alegría, um ex-banqueiro que é mais um dos novos integrantes da sua equipe.

Recuperação

Para governar com eficiência, Castillo provavelmente terá de olhar além dos seus atuais assessores. Os primeiros imperativos para a nova equipe serão tratar da pandemia e garantir a recuperação econômica. O Peru tem a sorte de que o seu presidente interino desde novembro, Francisco Sagasti, preparou as bases para isso depois dos erros cometidos pelo governo do seu antecessor, Martín Vizcarra. 

Sagasti acelerou a vacinação e organizou o fornecimento de oxigênio. A economia, que encolheu 11% no ano passado, está se recuperando. Agora, o Banco Mundial prevê um crescimento de 10,3% este ano. Alguns especialistas, em previsões não oficiais, acham que o número poderá chegar a 13%, se a economia não ficar tão instável.

O maior problema político de Castillo será provavelmente o novo Congresso, com uma maioria amplamente conservadora. No papel, ele tem o apoio de apenas 42 dos 130 membros. E mais da metade dos 37 representantes do Peru Livre está em dívida com Cerrón. O Congresso que está saindo entrou em conflito com o Executivo e aprovou medidas populistas. Sua substituição talvez não seja muito melhor. “Poderemos nos defrontar com um Congresso disposto a tornar a vida mais difícil para o presidente”, afirmou o consultor político Luís Benavente.

A aprovação da configuração de uma Assembleia Constituinte exige 66 votos do Congresso e ainda um referendo. A reivindicação de uma nova Constituição é mais fraca no Peru do que no Chile, que recentemente votou pela nova redação de outra Constituição. Os candidatos empenhados em formar uma assembleia obtiveram menos de 25% do total dos votos no primeiro turno. Muitos eleitores que apoiaram Castillo no segundo turno só o fizeram para frear a ascensão de Keiko Fujimori. O Congresso do Peru fez do impeachment dos presidentes um hábito. Se quiser permanecer no mandato de cinco anos, seria prudente que Castillo evitasse uma colisão constitucional e realizasse algumas das muitas reformas de que o país necessita. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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