Norberto DUARTE / AFP
Norberto DUARTE / AFP

The Economist: Um país que resiste à pressão da China para isolar Taiwan

O Paraguai é um dos 17 países (mais o Vaticano) que mantêm relações diplomáticas com Taiwan, e assim estão impedidos de ter relações formais com a China

O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2018 | 05h00

Se a posse do presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítezestá atraindo alguma atenção internacional é mais por causa de um dos convidados: Tsai Ing-wen, a presidente de Taiwan. O Paraguai é um dos 17 países (mais o Vaticano) que mantêm relações diplomáticas com Taiwan. Esses países ficam assim impedidos de ter relações formais com a China, que considera a ilha-nação uma província rebelde. E continuam sofrendo intensas pressões do governo chinês para se afastar de Taiwan, tanto em forma de incentivos (grandes investimentos) quanto de punições (restrições ao turismo). Quanto tempo vão aguentar?

Em 1990, Taiwan tinha 28 aliados, mas esse número vem declinando. Só nos dois últimos anos, a China puxou para seu lado quatro deles: Burkina Fasso, República Dominicana, Panamá e São Tomé e Príncipe. Pelo raciocínio chinês, é impossível ter relações diplomáticas com os dois países porque na realidade eles são um só. Taiwan acusa a China de usar a “diplomacia do dólar” para caçar aliados.

Pouco antes de a República Dominicana mudar de amigo, no início do ano, a China ofereceu ao país investimentos e empréstimos no total de US$ 3,1 bilhões, segundo o governo taiwanês. Taiwan também faz seu jogo da sedução: o Paraguai vem recebendo da ilha dinheiro e carros para equipar a polícia.

Uma história compartilhada também ajuda: o Paraguai e Taiwan estabeleceram relações em 1957, aproximando-se por causa do anticomunismo de ambos. O governo chinês tem aumentado seus esforços para isolar Taiwan após novas tensões emergirem em 2016, quando Tsai chegou ao poder.

O Paraguai e os negócios com a China

Dos dois principais partidos políticos da ilha, o da presidente é o que mais defende a independência. Desde a posse de Tsai, o governo chinês vem pressionando, com sucesso, empresas aéreas estrangeiras a não usarem os termos “Taiwan, China” ou “Taipé Chinesa”. As aéreas americanas removeram discretamente qualquer referência a Taiwan de seus sites, mesmo com a Casa Branca considerando a exigência chinesa “nonsense orwelliano”. recentemente, o campeonato de tênis de Wimbledon criou polêmica na internet ao tuitar que um dos vencedores era “da Taipé Chinesa”.

A China, silenciosamente, instruiu suas agências de viagem a não levarem grupos de turistas a Taiwan ou a países aliados da ilha, incluindo o Vaticano e o minúsculo Palau. Em maio, Pequim vetou que políticos e jornalistas taiwaneses fossem convidados para a assembleia-geral anual da Organização Mundial da Saúde. O Global Times, jornal nacionalista chinês ligado ao Diário do Povo, órgão oficial do Partido Comunista, advertiu meses atrás que a China deve se prepar para um conflito militar no Estreito de Taiwan.

A China não vai parar de tentar enfraquecer alianças de Taiwan. Segundo o ministro do Exterior chinês, Wang Yi, trata-se de uma tendência “geral e irresistível”. O presidente eleito do Paraguai, Mario Abdo Benítez, espera assinar um acordo comercial com a China por meio do Mercosul. Benítez assegurou ao governo taiwanês que o Paraguai não abandonará as relações bilaterais. Mas muitos outros ex-amigos de Taiwan prometeram a mesma coisa. Burkina Fasso uma vez chamou de “ultrajantes” as ofertas de dinheiro da China para que mudasse de lado, mas dois anos depois, desconversou. A China vem tornando cada vez mais difícil ser aliado de Taiwan esperando que, se nenhum outro país reconhecer a ilha, fique mais fácil fazer o que chama de “reunificação”.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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