JF Diorio/Estadão
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The Economist: Uma infraestrutura desintegrada

Escândalos de corrupção prejudicam os esforços de países da América Latina para melhorar seu sistema de transporte

The Economist, O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 05h00

A ferrovia Transnordestina foi projetada para transportar soja, minério de ferro e outras commodities das fazendas e minas do nordeste do Brasil para portos no Ceará e Pernambuco, e depois para a China. O Brasil gastou R$ 6 bilhões no projeto desde que os trabalhos tiveram início, há uma década. Mas as vacas ainda pastam ao longo dos trilhos inacabados. Em Lima e Bogotá, os trabalhadores gastam metade do tempo que passam no escritório se locomovendo para o trabalho. Em Brito, pequena cidade da Nicarágua, não há ruas pavimentadas, nem eletricidade ou água potável. “É como viver ainda na época de Colombo”, diz um pescador.

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A América Latina está travada pela sua infraestrutura inadequada. Mais de 60% das estradas da região são de terra, comparadas com 46% nas economias emergentes da Ásia e 17% na Europa. Recentemente, oportunidade para melhorar o cenário surgiu. As taxas de juros globais ficaram extraordinariamente baixas, barateando a tomada de empréstimos para modernizar a antiga infraestrutura ou iniciar novos projetos. Presidentes favoráveis à economia de mercado assumiram Brasil, Argentina e Peru. E tornaram a melhora da infraestrutura uma prioridade. 

Mas os governos da região não aproveitaram a oportunidade. Um grande revés foi a investigação da Lava Jato, que começou com um caso de lavagem de dinheiro no Brasil e tragou os governos de uma dezena de países latino-americanos. A Odebrecht admitiu ter pagado US$ 788 milhões em propinas. Seu dinheiro financiou campanhas políticas, incluindo as do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e de Juan Carlos Varela, presidente do Panamá. O escândalo deixou um rastro de projetos inacabados, políticos e burocratas apavorados e bancos receosos. Um contrato de US$ 7 bilhões firmado com a Odebrecht para a construção de um gasoduto da Bacia do Amazonas, através dos Andes até a costa do Peru, foi anulado e os trabalhos, suspensos. 

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Além disso, apesar dos juros baixos, os governos não conseguem levantar empréstimos. A dívida pública não financeira subiu de 30,6% do PIB, em 2008, em média na América Latina, para 40,4%, em 2016. O Brasil atingiu um recorde de 74,4% no ano passado. Brasil, Chile, Colômbia e Peru têm regras que limitam os gastos públicos ou a tomada de empréstimos. Assim os governos têm de criar parcerias com empresas privadas, afirma José Fernandez, ex-secretário adjunto do Departamento de Estado dos EUA. Elas não são uma panaceia. As parcerias público-privadas (PPPs) estão fadadas a abusos por parte das empresas de construção como a Odebrecht, que apresenta propostas baixas nas licitações para garantir os contratos e depois renegocia os valores para aumentar os custos, oferecendo propina a um ou mais políticos. 

Mas nem todas as notícias são ruins. Um motivo de ânimo é que os gastos com a infraestrutura podem ser menores. Se a região administrar melhor a demanda, implementar fontes de energia renovável, além de promover a conservação, isto pode reduzir o gasto em US$ 8 bilhões a US$ 9 bilhões. O transporte de carga pode ficar mais barato com a simplificação da burocracia e melhora dos regulamentos, como também com a expansão das rodovias. O setor de transporte por caminhão na América Latina hoje é 15 vezes mais concentrado do que nos EUA. Promover a concorrência reduziria os custos.

Uma segunda fonte de incentivo é a China. Seus bancos investem mais na infraestrutura da América Latina do que o Banco Mundial e o BID juntos, afirma David Dollar, do Brookings Institution. No ano passado, empresas chinesas investiram US$ 21 bilhões no Brasil, em usinas elétricas e portos. A Bolívia tem uma linha de crédito chinesa de US$ 10 bilhões. A China se comprometeu a construir duas usinas nucleares na Argentina. 

A região pode estar aprendendo com seus erros. Os escândalos estão mudando a maneira de fazer negócios. As empresas estão adotando regras de “compliance”, diz Brian Winter, do Council of the Americas. Novas leis buscam trazer mais transparência e tais reformas aprimoram as chances de os presidentes empreiteiros latino-americanos realizarem suas ambições. Com políticas corretas, honestamente implementadas, trens, e não animais, um dia poderão estar se movimentando pelos trilhos da ferrovia Transnordestina. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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