Tio de Assad acumula fortuna na Europa

Acusado por massacres e, oficialmente, brigado com a família desde anos 80, general tem, só em Paris, imóveis de luxo no valor de € 160 milhões

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h06

Um muro de metal negro e vegetação abundante protegem muitas residências de famílias abastadas que vivem no 16.º distrito - o mais rico - de Paris. Mas o número 38 da Avenida Foch abriga um morador diferente.

Ali fica a mansão de um imigrante sírio que foi para a França nos anos 80, expulso pelo regime de Hafez Assad. Nada de extraordinário, não fosse seu nome: Rifaat Assad. Tio do atual ditador, Bashar, o exilado administra um patrimônio imobiliário pessoal estimado em no mínimo € 160 milhões.

A extensão dos bens da família Assad na França e na Europa começou a ser conhecida no mês de junho, quando o jornal Libération publicou as primeiros notícias sobre as raízes do clã que domina a Síria há quatro décadas em território francês. Em setembro, as ONGs Transparência Internacional e Sherpa prestaram queixa no Ministério Público solicitando uma investigação por suspeita de desvio de recursos públicos, corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. De acordo com cálculos das duas entidades, Rifaat teria um patrimônio que iria bem além das estimativas feitas até aqui - seriam "bilhões de euros".

Entre os bens listados pelas organizações, estão o edifício da Avenida Foch visitado pelo Estado na semana passada, além de "várias dezenas de apartamentos" no mesmo 16.º distrito. Para se ter uma ideia do valor dos bens: posto à venda, o prédio de estilo haussmaniano recebeu propostas de € 70 milhões, que não resultaram em negócio, segundo o jornal Le Monde, porque o preço oferecido por uma família de milionários russos foi considerado muito baixo. O exigido é de € 90 milhões.

Além da mansão da Avenida Foch, Rifaat pôs à venda cerca de 40 apartamentos em dois edifícios, situados no Cais André Citroën, no 15.º distrito de Paris, vizinho à Torre Eiffel, e no 16.º distrito. Preço: € 40 milhões. Outra mansão, localizada na Avenida Lamballe, também no 16.º distrito, não está à venda, até onde se sabe. Além dos bens espalhados por endereços nobres da capital, Rifaat amealhou um castelo e um haras em Bessancourt, a 27 km de Paris. Há indícios ainda de propriedades em várias outras regiões da Europa, em especial na Grã-Bretanha e Espanha.

Para a Transparência Internacional e Sherpa, assim como para os promotores que investigam o caso desde o dia 30, a grande questão é como Rifaat, hoje com 76 anos, conseguiu obter recursos para adquirir tantos bens. Pelo menos para registro oficial, trata-se de um exilado na França que teria deixado seu país em desterro, expulso pelo irmão, e supostamente rompeu com a família em 1984.

Uma das hipóteses é que a ruptura não tenha sido assim tão radical, e seu nome esteja sendo usado para lavar parte da fortuna do clã no exterior. Por seu suposto choque com os demais membros do clã, Rifaat acabou não sendo incluído na lista de 20 nomes do regime sujeitos às sanções financeiras da União Europeia, ficando livre para viajar e, em especial, movimentar capital. Para esclarecer as questões, a reportagem solicitou entrevista com o milionário, mas nem obteve retorno.

Para William Bourdon, presidente da Sherpa, o governo da França deveria congelar os bens de Rifaat para evitar vendas e transferências de fundo já em curso, porque a fortuna é suspeita. "Nesse caso, o tempo é inimigo da Justiça." Para a Sherpa, o tio de Bashar - reputado já na Damasco dos anos 1980 por seu grau de corrupção - não poderia ter financiado a aquisição de seu patrimônio apenas com os salários de general, de vice-presidente ou de líder de um pequeno grupo político de exilados sírios.

A mesma opinião têm vereadores de Paris que solicitaram ao Executivo que congele os bens. Ao jornal Le Figaro, Christian Sautter, ex-ministro do Orçamento e hoje secretário municipal do governo socialista da capital, não há dúvidas de que o patrimônio do tio de Assad deveria ser incluído entre os monitorados pela União Europeia. "É urgente tomar os bens de todo o clã Assad no exterior."

Na sexta-feira, Rifaat contra-atacou, prestando queixa ao Ministério Público contra as ONGs por "denúncia caluniosa". De acordo com Marcel Ceccaldi, advogado do milionário - e também do ex-ditador líbio Muamar Kadafi, morto em 2011 -, não há nenhum indício de "comportamento penalmente repreensível" da parte de seu cliente.

Dez dias antes, Siwar Assad, filho de Rifaat e primo de Bashar, já havia defendido o patrimônio de seu pai. Segundo ele, os bens foram "legitimamente" reunidos graças "ao apoio de seus amigos", que viam nele um opositor ao regime.

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