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'Tivemos algo hoje nunca visto na Suíça'

Para portuguesa que preside Comissão das Mulheres do maior sindicato suíço, poder político precisa agora dar resposta ao protesto que reuniu milhares no país

Entrevista com

Alexandrina Farinha, uma das organizadoras da greve das mulheres

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2019 | 21h38

Comparado a outros países, o movimento de mulheres que organizou a greve geral nesta sexta-feira é único na Suíça, segundo uma de suas organizadoras Alexandrina Farinha, porque o país tem a igualdade entre sexos prevista na Constituição desde 1991, mas não prevê nenhum tipo de punição para seu descumprimento. Alexandrina é presidente da Comissão das Mulheres do Sindicato Unia e participou da organização da greve desde que ela foi concebida, há um ano. Em entrevista ao Estado, ela conta que a mobilização de hoje é "só o começo". "A luta vai continuar."

Qual sua participação nos protestos? 

Participei da organização e mobilização desde o dia em que a greve foi decidia por cerca de 100 mulheres, em junho de 2018. Passamos um ano trabalhando para que esse dia (hoje) fosse possível. 

Qual o tamanho da mobilização de hoje? Vocês esperavam pela grande adesão? 

Ainda não temos números concretos, mas a adesão foi maciça em toda a Suíça. Foi bom ver a participação nessa greve ou dia de ações/protestos, como gostamos de nos referir. Esperávamos sim esse alcance porque na Suíça há muito a melhorar no que diz respeito aos direitos e proteção das mulheres. 

O que torna o movimento da Suíça único comparado a outros? 

O movimento da Suíça é único porque de fato a igualdade entre os sexos já está prevista na Constituição desde 1991, mas os legisladores não previram sanções para o não cumprimento, o que faz com que seja igual a zero. Uma das principais reivindicações de hoje é que sejam previstas sanções para o não cumprimento da igualdade prevista na Constituição. 

Como o problema da desigualdade afeta sua vida diretamente? 

Sou portuguesa e trabalho para o Estado português. Não me afeta quase nada em termos práticos, mas tenho filhos e filhas que são cidadãos suíços. Honestamente, gostaria que meus filhos, especialmente minhas filhas, nunca tivessem de passar por certas situações como a de ser demitida após regressar ao trabalho depois da licença- maternidade, por exemplo. Ou que tenham de passar a trabalhar meio período para poder cuidar dos filhos, já que a conciliação da vida profissional e familiar é quase impossível (no país). 

Isso acontece muito (demissões após licenças)? 

Todos os dias. 

Por que as mudanças acontecem tão lentamente na Suíça? 

A sociedade suíça é muito machista. E, depois, as forças conservadores de direita tem ganhado terreno e impedindo a melhoria de vida dos menos favorecidos, incutindo medo nas populações. 

Então também está ligado ao avanço dos grupos de direita? 

Sim, está. Do contrário, como é que se explica o fato de, num país onde se pratica a democracia direta, a população votar contra um salário mínimo suficiente para cobrir o custo de vida? É o medo de perder o pouco que se tem. 

Acredita que haverá uma sensibilização dos políticos? 

O poder político tem de dar uma resposta ao que aconteceu hoje. Isso foi o começo, a luta vai continuar. Havia muitos jovens, tivemos algo hoje nunca visto na Suíça. 

Como os grupos se organizaram? 

Sou presidente da Comissão das Mulheres do (Sindicato) Unia e Região de Genebra e presidente da Comissão Nacional das Migrações. Na mobilização das mulheres, foi montada uma coordenação nacional, depois regional, depois por cidades e, por fim, por bairros. No nosso sindicato, o maior da Suíça, criamos nosso próprio coletivo. Temos cerca de 300 mil membros no Coletivo Feminista, no qual uma parte substancial é de imigrantes, incluindo portugueses, espanhóis, brasileiros, italianos. O Coletivo Feminista vai continuar. Agora, vamos ver a reação do poder político. No mais tardar segunda-feira, devemos ter reações oficiais. Mas estamos preparadas para tudo. 

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